quarta-feira 22 de março de 1978
Atropelaram-se as mudanças e reviravoltas na área econômica, confundindo-se os fenômenos conjunturais e as tendências de longo prazo. O que era ontem já não o é hoje, mas seguramente o que se faz hoje determinará o amanhã. Em rápidos três tempos, eis três temas:
Aparentemente, São Paulo se conformou com a política de descentralização industrial ditada pelo governo federal. Aparentemente. O documento entregue ao ministro Reis Velloso — reafirmando posições de líderes empresariais e políticos paulistas — contém, porém, uma reivindicação aparentemente sensata, mas que poderá eternizar as distorções do processo brasileiro de crescimento. São Paulo quer continuar recebendo incentivos para a "modernização" de sua indústria. E está aí a chave de toda a campanha contra a política de descentralização. Qual é ela? As migrações para São Paulo vêm caindo verticalmente: de um pico de 200 mil, para 50 mil no ano passado. A Villares, para construir uma fundição em Pindamonhangaba, foi buscar 5 mil "peões" no Norte/Nordeste. O próprio fluxo de migrantes do interior paulista para a Grande São Paulo quase desapareceu, revelando que a população expedida dos campos de 1963 a 1970 já foi quase integralmente absorvida pela economia urbana (quando se detectou essa tendência aqui, há coisa de um ano, a afirmação e seu autor receberam uma chuva de pedras, já que a moda então era cantar a "marcha de bóias-frias"). Em outras palavras, há escassez crescente de mão-de-obra em São Paulo — e os empresários sabem disso. Daí, querem incentivos para a "modernização", isto é, para a utilização de máquinas cada vez mais sofisticadas ou, mesmo, para a automatização total ou semitotal.
Um basta. Dentro de um regime capitalista, dentro de uma economia de mercado, seria a hora de o Brasil inverter seus rumos, abandonar as distorções das últimas décadas. Abandonar o capitalismo de fancaria, para não perpetuar a prosperidade ao lado da miséria. São Paulo, a Grande São Paulo, foram os grandes beneficiários de toda a sorte de incentivos introduzidos na economia brasileira. Ficaram muitas e muitas vezes mais ricos que o restante do Brasil. Do ponto de vista econômico, contudo, isso significa também que os custos dos fatores de produção em São Paulo (terra, capital, mão-de-obra) tendem a elevar-se. Com a escassez de mão-de-obra, a tendência irá agravar-se daqui para a frente. Qual o significado desse fenômeno para o país? Dentro de uma economia capitalista não-distorcida, teria chegado a hora do "reequilíbrio", a hora da correção de distorções. Outras regiões passariam a apresentar custos de produção mais baixos, fatores de produção a custos mais baixos — e, portanto, seriam naturalmente escolhidas para os investimentos das empresas. Isso, dentro de uma economia de mercado — que o Brasil diz adotar, em sua Constituição. Então, o que os empresários paulistas pleiteiam agora é uma aberração. Desejam que os incentivos continuem a ser dados, as isenções de impostos, as doações de capital continuem a ser concedidas, para que São Paulo tenha fábricas automatizadas — enquanto reina o subemprego e o desemprego, para milhões de brasileiros, em outras regiões do país. O Brasil pode optar, neste momento. Decidir se gasta 100 milhões para montar uma fábrica automatizada, em São Paulo, gerando renda apenas para as famílias donas dessas empresas. Ou se usa os 100 milhões para abrir 100 fabriquetas nas diversas regiões do país, criando emprego para dezenas de milhares de pessoas — e com efeitos multiplicadores sobre toda a economia. É a hora, em resumo, de decidir se o país vai continuar a desperdiçar recursos, ou crescer com equilíbrio. Onde o governo iria buscar respaldo político para dizer "não" a São Paulo? Basta que ele seja inteligente, político, hábil. Basta que ele diga aos líderes paulistas que as próprias classes empresariais, reunidas na Conclap, no ano passado, pediram a extinção dos incentivos fiscais, reservando-os apenas para corrigir desequilíbrios regionais, isto é, para as regiões mais pobres. A decisão do governo pode ser apresentada como uma vitória da classe empresarial. E do capitalismo. Ninguém poderá protestar.
Já começou a tola avalanche, na imprensa, de previsões sobre a balança comercial brasileira em 1978: vai dar déficit ou vai dar superávit? Ora, o que importa neste momento, como tendência e por seus efeitos a longo prazo, não é a balança comercial. É o balanço de pagamentos, é a dívida externa. Graças a liquidez internacional, o Brasil está reescalonando sua divida externa. Está tomando empréstimos cuja primeira prestação só vence daqui a três meses. O pesadelo de dever 14 ou 15 bilhões de dólares a curto prazo, a serem pagos em dois anos (como em 1977 e 1978) acabou. O Brasil, hoje, pode negociar em outras condições com os EUA ou com a Alemanha, pois já não está com a corda no pescoço. Ganhou tempo para montar indústrias que substituam importações e, então, aliviar a balança comercial a médio e longo prazo. Ou para aumentar sua produção e reduzir suas importações de petróleo. Tendências importantes, determinantes do futuro, e mal percebidas. A ranzinzice não deixa. Manchete de um jornal, há duas semanas: "O (alto) ’spread’ de 1,795% à Eletrobrás". Intenção: repisar a tecla de que os banqueiros internacionais cobram 0,25% a mais, de comissão, nos empréstimos ao Brasil. Dado omitido: o Brasil se dispõe a pagar um pouco mais exatamente para dilatar os prazos de pagamento da dívida. Dado que deveria ter ido para a manchete (no tempo em que se fazia análise não-caneluda, não-sectária): Brasil consegue empréstimo para começar a pagar daqui a quatro anos. O reescalonamento da dívida. O alívio cambial.
Grande forrobodô, manobras especulativas, por causa do noticiário em torno da seca e da quebra nas safras. O presidente da CFP, Paulo Vianna, reúne a imprensa, dá uma coletiva, para acabar com a confusão. Explica que a safra de feijão vai ser grande, não haverá escassez (em São Paulo, apesar da quebra de 30% em relação às previsões, haverá avanço de 60% em relação à safra anterior). Para o algodão, a safra será menor, mas há estoques da supersafra do ano passado. Para o arroz, idem ibidem, ante os gigantescos "encalhes" de 1976 e 1977. Em resumo, que não há motivo para especulação ou para inflação disparada. Um único produto com problema: o milho. Lógico que todas as manchetes do dia seguinte falavam em escassez de alimentos, e o noticiário dava ênfase ao milho. O forrobodô continua. É o "catastrofismo", impedindo a visão de tendências e mudanças.