[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Dólar, foguetório, Encol e outros repetecos

quinta-feira 11 de setembro de 1997


Há povos que se esquecem de lições do passado, ocorridas décadas ou séculos atrás. O povo brasileiro, ou as elites brasileiras e seus formadores de opinião, batem qualquer recorde em matéria de amnésia. Esquecem fatos de ontem, embarcando sempre num otimismo desesperado, tentando fugir à realidade. Mas a realidade, cada vez mais assustadora, acaba batendo à porta, a despeito das explicações otimistas.

Dólar 1 - Grande foguetório porque teria havido um erro nas estatísticas do governo relativas às importações do primeiro semestre. Valor da diferença: US$ 859 milhões. O que isso significa? Redução de meros 3% no total das importações do período, na casa dos US$ 25 bilhões. Mesmo que a redução fosse de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões não significaria melhora alguma nas contas externas do país. É bom lembrar que elas incluem gastos que vêm literalmente explodindo: US$ 4 bilhões por ano com remessas de lucros, mais US$ 4 bilhões por ano com turismo, mais US$ 4 bilhões com fretes, mais quase US$ 20 bilhões em juros da dívida externa, cada vez maior.

Dólar 2 - Enquanto o foguetório espoucava, no mesmo começo da semana a saída de dólares pelo câmbio flutuante chegava a US$ 150 milhões em um dia. O triplo da média de tempos normais.

Investimentos - A Phillips fecha por 15 dias sua maior fábrica produtora de cinescópios (tubos) para televisão, no interior de São Paulo. Estoques altos na indústria e no comércio. A Ford anuncia que vai descredenciar, ou fechar, 100 de suas 400 revendedoras. Pretexto: com a chegada de novas empresas automobilísticas ao país, “é preciso redimensionar a rede”. Tradução: o mercado não vai crescer na escala prevista, que motivou o anúncio de bilhões de dólares em investimentos das montadoras no país. Ingresso de dólares abaixo do previsto.

Desemprego

A Fiesp anuncia novo corte de 0,5% (em um mês...) no número de trabalhadores da indústria paulista em agosto, ou menos 9.000 vagas. Foguetório, porque foi “o menor corte de agosto” nos últimos três anos: ele havia chegado a 2,1% em 1996 e a 4,7% em 1995. E daí? Depois de ter demitido 310 mil empregados desde o Real, a indústria deveria continuar demitindo? A “redução” é mesmo positiva?

Transformação

Há um mês, líderes (????) empresariais e formadores de opinião inventaram uma nova tese (otimista): o recuo na produção de bens de consumo como televisores, roupas e sapatos não teria importância, do ponto de vista do crescimento da economia. Ela agora teria novos “motores”, os setores básicos, como indústria de máquinas, equipamentos de telecomunicações e energia. Em julho, na comparação com junho, segundo o próprio IBGE, houve recuo de 7,5% no setor de equipamentos elétricos e de comunicações, e de 7% em equipamentos mecânicos.

PIB, o tal

Segundo o mesmo IBGE, a indústria recuou 1,5% em julho. Segundo as entidades empresariais, o comércio sofreu fortes quedas em agosto. Supermercados acusaram queda de 10%, repetindo os 10% de junho, compensados ligeiramente por uma reação de 3,7% em julho. Comida, vendendo (muito) menos. Há um mês, o governo, representado pelo Ipea (instituto de pesquisas econômicas), reviu suas previsões de crescimento do PIB. Para cima. Com todos os setores despencando, as previsões oficiais correm em sentido inverso.

Encol

Estoura o caso Encol. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que foi criada para ser o xerife – como a SEC, dos EUA – do mercado de capitais brasileiro, aplica multas à Encol por não ter apresentado os últimos balanços (providência obrigatória porque a Encol vendeu títulos no mercado). Que gracinha, né? Ninguém se lembrou de perguntar por que, antes da “quebra” da Encol, a CVM não exigiu, como é sua obrigação, a divulgação dos balanços. Ordens superiores? Como sempre?

O Brasil não é recordista mundial apenas em amnésia. Em matéria de elites cara-de-pau, ocupa disparado a liderança.



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