Jornal Diário da Manhã , domingo 6 de novembro de 1994
Quem explora a classe média e o povão
“Se a classe média está ficando mais pobre, a classe pobre está ficando mais miserável”.
O presidente eleito Fernando Henrique Cardoso e sua equipe Real se dizem “social-democratas”, progressistas, empenhados em modernizar o capitalismo brasileiro e reduzir as desigualdades e a violência no País. É bom dar uma olhadinha na política econômica que eles estão adotando:
IPMF - A cobrança desse imposto termina em dezembro. A equipe pensa em “substituí-lo”por um empréstimo compulsório de 0,25%, igualzinho em tudo ao IPMF - com a única diferença de que “seria devolvido” no futuro. Seria? Um repórter lembrou a um economista da equipe Real que, no passado, os “empréstimos” compulsórios nunca eram devolvidos nas condições previstas. E citou, como exemplo, o compulsório sobre automóveis e combustíveis, cobrados na época do Cruzado, há quase dez anos. O economista Real retrucou que “agora os tempos são outros”, os homens que estão no poder são diferentes, merecem confiança. Merecem? O luzidio economista da equipe FHC/Serra tem memória curta. No ano passado, o próprio Ministério Público - órgão independente, incumbido de defender o cidadão contra desmandos de Governos - entrou com uma ação junto ao Supremo, para forçar a equipe FHC a cumprir a lei, isto é, devolver os bilhões confiscados da classe média e povão pelos economistas do Cruzado. O Supremo ordenou que a lei fosse cumprida. O Ministério da Fazenda fez os cálculos para apurar quanto seria entregue a cada contribuinte (de acordo com o automóvel que ele possuía à época do “empréstimo”). Os jornais chegaram a publicar as tabelas com os valores determinados. A devolução iria começar no último trimestre do ano. Na hora H, a equipe FHC/Serra suspendeu a devolução, alegando falta de dinheiro... Nesse estranho país, de jornais e jornalistas que-silenciam-quando-lhes-convém, não se falou mais no assunto. Ninguém cobrou o cumprimento da decisão do Supremo. Nem o Ministério Público. Nem a OAB, tão combativa na época da ditadura da Arena, tão convenientemente silenciosa na época desta ditadura do PMDB/PSDB. A equipe Real, “majestaticamente”, engoliu o dinheiro de milhões de brasileiros. Ela própria. Nada mudou.
Prestações - As prestações da casa própria com reajuste anual estão subindo mais de 3.100%. Ou, para os devedores que já pegaram reajustes das prestações ao longo do ano, mais 75%. Os salários? Só podem subir 12% a 15%. Nos dissídios recentes (bancários, por exemplo), o reajuste anual ficou na faixa dos 1.500%. Claro que, mais uma vez, milhões de mutuários não vão conseguir pagar as prestações. Aumentará o rombo do Sistema Financeiro da Habitação. Aí, o Tesouro pagará a conta - e os “modernizantes” sairão por aí a dizer que o Estado está falido, que o Governo não tem dinheiro para nada e é preciso “reformar a Constituição”. Salários com reajustes baixos, prestações com reajustes dantescos. Surpresa? Não. Desde o começo, o plano da equipe Real determinou que seria assim. Um massacre. Jornais e jornalistas é que fizeram silêncio, para não quebrar o clima de adesão fernando-henriquista. A classe média e o povão agora estão descobrindo quem paga a conta do Real. Há mais, porém.
Salário Mínimo - Há anos, o Governo havia criado um índice especial de inflação, para reajustar o salário mínimo. Por quê? Pelo motivo óbvio de que as famílias que vivem do salário mínimo têm um padrão de consumo totalmente diferente da classe média ou rica. Para os pobres, o dinheiro só dá para atender mal e porcamente necessidades mínimas, como é o caso do hábito de comer.
Para eles o orçamento (????) é consumido com alguma comida e condução - enquanto para a classe média entram centenas de itens, de lazer a educação, de eletrodomésticos a carros. O índice de reajuste do salário mínimo foi criado para refletir só a alta de preços dos itens realmente consumidos pelos pobres. Um dos pontos (mais odiosos) do plano da equipe Real foi extinguir esse índice. Pretexto: “acabar com a indexação” (mantida, no entanto, para despesas como as prestações). Agora, a cesta básica - comida e produtos de limpeza - dispara. Seu custo subiu quase 10% em outubro. Essa disparada é sentida pela classe média, com seus ganhos “congelados”. O que dizer então das famílias pobres, que ganham salário mínimo? Mesmo que ele seja reajustado, a base será a inflação média - e não a alta específica dos produtos básicos. Se a classe média está ficando mais pobre, a classe pobre está ficando mais miserável.
Juros - O Banco Central continua a puxar os juros para cima, “para combater o consumo”. Milhões de empresas pequenas e médias, milhões de consumidores da classe média e pobre têm parte maior de sua renda confiscada pelos juros mais altos. Empresas começam a elevar preços para compensar os juros - devorando novas fatias dos vencimentos e salários “congelados”. Agora, o Governo anuncia juros menores - mas apenas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e - Ufa - Social para empresas investirem. Nada de novo: meia dúzia de grande empresas (os privilegiados de sempre) terão juros de 15 a 20% (ao ano), contra os 50% a 60% ao ano pagos pelas demais para ampliarem suas fábricas, comprarem empresas menores (não privilegiadas), mandarem operários para as ruas, substituídos por máquinas compradas a juros de banana. O banco estatal vai ter prejuízo? Ora, por que sois, ingênua classe média? O BNDES vai cobrar juros mais baixos, mas vai tirar a diferença do couro de alguém. Adivinhe de quem? O BNDES vai pagar juros também mais baixos sobre o dinheiro que ele toma emprestado (para repassar aos grandes empresários privilegiados). De quem? De quem? Do PIS/Pasep e do Fundo de Amparo do Trabalhador, dois fundos que “pertencem” a milhões e milhões de trabalhadores brasileiros. Dois fundos criados para comprar ações ou emprestar às empresas em fase de expansão, transformando os trabalhadores em seus acionistas, e criando um “pecúlio”, para eles.
Os economistas da equipe Real, “majestaticamente”, vão tirar dinheiro de milhões e milhões de brasileiros pobres para doá-lo (sob forma de juros da China) a milionários (que há décadas mamam no mesmo BNDES, e depois saem por aí dizendo que o Estado está falido. Só não dizem que é graças a eles). A imprensa? Calada.
Bancos - Os economistas da equipe Real espalharam aos quatro ventos que os bancos passariam a ter prejuízos com a estabilidade da moeda, precisariam demitir, etc. Estão saindo os balanços do trimestre julho a setembro, isto é, o primeiro trimestre de “inflação baixa” do Real. Os lucros são espantosos. Há casos em que eles superam, em um trimestre, os lucros do primeiro semestre inteiro - e que já haviam dado um salto... Pois os lucros dos bancos vão continuar crescendo até o fim do ano, com as taxas de juros nas nuvens, puxadas pelo Banco Central. Quem está ganhando com o Real?
Consumo - A caderneta de poupança, os fundos de commodities e de renda fixa perderam 700 milhões de reais por causa dos saques, na primeira quinzena de outubro. A equipe Real, ajudada por colunistas amigos, disse que havia uma fuga para o consumo - e adotou medidas de “arrocho”, para evitar (é o que ela alegou) a corrida às compras e o retorno da inflação. Verdade? Naquela mesma quinzena, os investimentos em CDBs chegaram a 43,5 bilhões de reais, isto é, cresceram nada menos de 2,5 bilhões de reais. E os Certificados de Depósitos Interbancários chegaram aos 30 bilhões de reais, isto é, tiveram crescimento de 6,5 bilhões de reais. Nesses dois itens, um aumento de 9,0 bilhões de reais, contra saques de menos de um bilhão na poupança e seus primos pobres. Não havia portanto corrida aos saques, nem às compras... Mas os juros subiram e sobem. O consumidor paga, ou não compra. Milhões de pequenos e médios empresários que não vivem na ciranda financeira, no jogo de ganhar juros, perdem, ao arcar com juros mais altos nos empréstimos. Quem ganha?
O capitalismo brasileiro continua “selvagem”. O Plano Real, e todas as medidas de política econômica estão beneficiando os privilegiados de sempre às custas da classe média e povão. Por isso a miséria e a violência vão continuar a crescer. Exército nos morros não é a solução.