Jornal Diário Popular , quinta-feira 18 de maio de 2000
O Brasil também vai sofrer as consequências da alta dos juros nos EUA? Algumas mentiras já estão sendo ditas a respeito, com o governo FHC tentando usar a decisão do Banco Central norte-americano como bode expiatório para problemas criados pela própria política econômica dos últimos anos. Alega-se, por exemplo, que agora os juros pagos pelas empresas e bancos do Brasil para obter empréstimos no Exterior também serão mais altos, por causa do aumento de 0,5%nas taxas norte-americanas. Isso é uma piada de mau gosto. Por quê? No mercado internacional, os juros são cobrados de acordo com a ‘‘ficha de crédito’’ de cada país — isto é, o tamanho de sua dívida e sua capacidade de pagar (medida pelo saldo ou rombo que ele apresenta comparando-se exportações e importações, entrada e saída de capitais estrangeiros e assim por diante). Quanto pior a situação de um país nessa espécie de SCPC mundial, maiores as taxas de juros cobradas, com a desculpa de que é preciso compensar o risco de um calote. Como anda essa ficha internacional do Brasil? Toda a conversa mole de Malan/Fraga e aliados do governo FHC sobre a ‘‘credibilidade’’ do Brasil no Exterior escondia a verdade: as empresas e bancos brasileiros chegaram a pagar o dobro, isto mesmo, o dobro dos juros internacionais normais de 6% com os banqueiros cobrando uma ‘‘sobretaxa’’ que chegou a (mais) 6% com alguns empréstimos concedidos a juros de 13,5%no ano passado... Ora, como você pode perceber, se o Brasil vinha enfrentando essas sobretaxas, não é o aumento de 0,5%nos EUA que vai prejudicar o País — e, sim, seus próprios problemas, as próprias distorções criadas pela política do governo FHC, sua própria crise. E são elas, exatamente, que estão fazendo o real sofrer novas quedas em relação ao dólar, nas últimas semanas, com nuvens negras de agravamento da crise rondando o País.
Ainda agora, o governo está divulgando os resultados das operações do Brasil com o resto do mundo, que os técnicos chamam de balanço de contas externas, em abril. Os resultados são cada vez mais preocupantes porque, como qualquer criança poderia prever, estão crescendo demais as remessas de dólares para as matrizes das multinacionais, como pagamento de lucros, dividendos, compra de tecnologia. Uma sangria crescente, que é a principal ameaça ao futuro do Brasil, criada pela vergonhosa e inacreditável desnacionalização que o presidente Fernando Henrique Cardoso e sua equipe estimularam, com a venda de empresas nacionais e doação das estatais a grupos estrangeiros. Somando-se essas remessas aos gastos com juros, além de fretes, turismo e despesas similares, o Brasil enfrentou um rombo de US$ 3 bilhões de dólares em abril — ou o equivalente a US$ 36 bilhões em um ano. Difícil cobrir um rombo desse tamanho com exportações e investimentos estrangeiros (que, depois, provocam novas remessas de dólares...). Banqueiros e investidores se assustam, aumentam os juros e simplesmente não emprestam ao País. Com a falta de dólares, suas cotações sobem e o real cai. Essa é a realidade, sem o ‘‘bode expiatório’’ dos juros dos EUA.