Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 7 de agosto de 1997
A inflação cai a zero, ou abaixo de zero. As vendas do comércio paulistano, pelo segundo mês consecutivo, caem 10%. As fábricas de automóveis vendem 10% menos, seguindo-se ao recuo de 40% nas vendas de televisores. A inflação cai porque a economia encolhe. Não há motivo, portanto, para comemorações. Crise no mercado interno, crise nas contas com o exterior, com novo déficit de US$ 811 milhões na balança comercial.
Tudo previsível, como esta coluna e outras raras vozes críticas vêm apontando há quase três anos: o escancaramento do mercado, o desemprego e a contenção salarial foram, desde o começo, uma política suicida. Chegar ao desastre atual era apenas uma questão de tempo – mas matematicamente inevitável.
O quadro de terra arrasada em que o país está desembocando deixa lições marcantes para a sociedade brasileira, que podem ser sintetizadas em uma única: desgraçado do país que dá “carta branca”, coloca seu destino nas mãos de um pequeno grupo alojado no poder, e mergulha na unanimidade bovina.
O desastre brasileiro não é de responsabilidade exclusiva do governo Fernando Henrique Cardoso. Ele jamais teria sido possível se aqueles a quem cabia o papel de porta-vozes da sociedade não tivessem silenciado – e não apenas silenciado, mas chegado a pactuar com a manipulação da informação.
Nesse comportamento acovardado, merecem destaque as entidades de classe empresariais. Mesmo porque, até hoje, algumas delas insistem em distorcer dados estatísticos, na tentativa de encobrir a realidade.
A Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – divulgou, na semana passada, estatísticas sobre o desempenho do setor em junho. Seu porta-voz, Boris Tabacof, espalhou uma nova história de Polyana, otimista, alegremente trombeteada pelos formadores de opinião.
Segundo Tabacof, as vendas de eletroeletrônicos realmente estão despencando. Mesmo assim, a indústria paulista cresceu 3,9% em junho. Por quê? Diz a Fiesp que, agora, a indústria de máquinas e equipamentos, sobretudo na área de telecomunicações, está em expansão, compensando o recuo dos bens de consumo.
Não é verdade. As próprias estatísticas fornecidas pela Fiesp mostravam que o “crescimento” de 3,9% em junho foi puxado por um salto de 37% nas vendas de carros – das fábricas às concessionárias. Isto é, carros “empurrados” para as revendedoras, que acumulam estoques – e reduziram as compras em julho. A transformação anunciada por Tabacof não existe.
Os investimentos da Telebrás realmente deram um salto, de R$ 2,7 bilhões em 1995 para R$ 8,5 bilhões em 1997. Forçosamente, os fornecedores da área devem aumentar a produção – mas é preciso descontar as importações maciças de peças e componentes, autorizadas pelo ministério do ministro Sérgio Motta.
A Telesp esperava de 4 milhões a 4,5 milhões de inscrições em seu plano de venda de linhas de telefone celular. Apareceram só 2 milhões de inscritos. Outro erro de previsão, de superdimensionamento de mercado. É só esperar para ver: a demanda prevista para o setor de telefonia no Brasil é outro grande equívoco.
A Federação do Comércio de São Paulo distribuiu “análise” à imprensa, reafirmando que as vendas de alimentos cresceram 60% desde o Real. Distorção pura: escolheram, para comparar, um mês de vendas baixíssimas, véspera do Real, quando a remarcação de preços afugentou o consumidor.
O próprio “comunicado” da federação traz, em letras miudinhas, a informação verdadeira: de 1992 a 1997, em cinco anos, as vendas (e o consumo) de alimentos passaram do índice 100 para 109. Isto é, em cinco anos, expansão de 10%. Nada do “salto” alucinante proclamado pela entidade e repetido pela “banda de música” do Real.
A Associação Comercial de São Paulo escondeu durante meses que o número de carnês em atraso havia superado o número de 3,5 milhões, para chegar aos 4,2 milhões e a 4,5 milhões. Agora, a entidade vem com a interpretação cor-de-rosa de que o aumento é “proporcional”, isto é, apenas acompanhou o aumento das vendas a prazo.
Engraçado. As próprias grandes redes varejistas estão admitindo que a inadimplência dobrou, de 4% para 8% de suas vendas. Também o número de cheques sem fundos foi multiplicado cinco a seis vezes: de 1,3 por 1.000 para 6 a 8 por 1.000. Um salto. Desproporcional.