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  A crise mundial vem (mesmo) aí?

Revista da Fenae , novembro de 1998


Clinton apavora o mundo, com declarações bombásticas: estamos em meio à maior crise de todos os tempos, provocada pela quebra dos países asiáticos, que se estendeu à Rússia e, agora, ao Brasil. Bancos dos EUA sofrem enormes prejuízos, fundos de investimentos quebram nos EUA. E as profecias do presidente são repetidas pelo diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, pelo presidente do Banco Central dos EUA, Allan Greenspan, e por economistas e banqueiros de todos os quadrantes. Vem aí, mesmo, uma depressão mundial terrível como dos anos 30, ou até pior? Calma. Duvide. O mundo está em meio a uma guerra de interesses, decisiva para os banqueiros - e para os EUA. Nos últimos anos, a humanidade tinha sido convencida de que o mundo financeiro era povoado não por homens comuns, mas por gênios e deuses capazes de dar uma prosperidade sem limites ao mundo. Dizia-se: era preciso deixar que eles e seus dólares circulassem livremente, entrassem e saíssem de todo e qualquer país, para realizar o milagre da multiplicação do crescimento econômico. FMI e Banco Mundial se incumbiram de impor essa onda, chamada de neoliberal, a países de todo o mundo, aos quais era determinada, inclusive, a privatização dos bancos estatais. Agora o pesadelo acabou. O modelo quebrou os "tigres asiáticos" (sem ele, já estão em fase de recuperação), quebrou o Brasil - e chega aos EUA. O mundo está descobrindo as proporções gigantescas a que a especulação financeira chegou, com a tal da liberdade total para especular: o fundo de investimento que quebrou nos EUA, o LTCM, com capital de apenas US$ 2,2 bilhões, conseguiu comprar US$ 120 bilhões em ações e títulos diversos - e utilizá-los como garantia em contratos de operações no valor de fantásticos US$ 1,2 trilhão.

Azar dos EUA

O que Clinton, Camdessus, Greenspan querem evitar? Que a opinião pública mundial tome consciência de que o mundo vive sob uma ditadura financeira. E que organismos que se pretendiam respeitáveis, como o FMI e o Banco Mundial, além de governantes dos mais diversos países, nada mais fizeram esse tempo esse tempo do que o jogo dos interesses desse sistema financeiro - às custas de quebra de um sem-número de países, e desemprego e miséria para milhões de pessoas. Desmascarada a política fraudulenta, o congresso nacional dos mais diversos países (exceto, talvez, a imitação de congresso daquele país cujo nome você conhece) levará os respectivos governos a tomarem posição contra os desmandos do mercado financeiro. É essa a guerra que se trava no momento, com uma tentativa desesperada, dos porta-vozes do mercado financeiro, de evitar mudanças.

O desabamento do modelo neoliberal não colocou em xeque apenas a liberdade aos capitais especulativos. Questiona-se o direito negado de os países estabelecerem controles sobre as importações - quando houver necessidade de evitar a perda de dólares. E é este o grande temor de Clinton. Os EUA têm enormes rombos em sua balança comercial: nada menos de US$ 2 bilhões por mês, resultantes de importações superiores às exportações. Se países como o Brasil voltarem a defender seus mercados, dificultando a entrada de produtos dos EUA, esse rombo crescerá. Ao vender menos, os EUA serão atingidos pela redução no número de empregos, menor atividade econômica, arrecadação de impostos em queda. Na verdade, a economia norte-americana já começa a enfrentar essa realidade diante do aumento das exportações dos países asiáticos para seu mercado - e simultânea queda na venda de produtos dos EUA à Ásia. São essas perspectivas sombrias que levaram Clinton a correr tanto para montar uma operação de socorro ao Brasil. Redução de empregos, pausa na prosperidade, queda na arrecadação de impostos são fenômenos capazes de abalar o prestígio político de Clinton. Mudanças no cenário econômico não seria o mal maior para os EUA. Os EUA sempre tiveram saldos negativos, rombos na balança comercial - e conseguiram não quebrar, não precisar apertar cintos como qualquer outro país, pelo fato puro e simples de que podem emitir dólares. De Gaulle, o estadista francês, tentou combater esse privilégio dos EUA, há 30 anos. Nada conseguiu. Hoje, a Europa caminha para a unificação. E, com a vitória de Schroeder na Alemanha, todos os principais países europeus estão governados por partidos de esquerda. Mais do que uma crise mundial, o que está a caminho é um abalo na hegemonia mundial dos EUA. Fim de um ciclo.



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