Jornal Diário da Manhã , domingo 25 de setembro de 1994
Por que os planos anteriores de combate à inflação fracassaram, e o Plano Real vem sobrevivendo até agora – a despeito de ameaças crescentes que vão ganhando corpo? É infindável o número de explicações para o contraste de situações. Mas, em um ponto, há convergência total de opiniões, a saber, o papel impressionante, básico, que o vício da correção monetária, a tal indexação, desempenhou para a volta da inflação, nos planos anteriores – e a ameaça que esse vício continua a representar, hoje. Ameaça, diga-se desde já, equivocadamente alimentada pelo próprio Governo, pela própria equipe econômica e pelo próprio ministro Ciro Gomes.
No Brasil, desde a criação da correção monetária, nos idos de 1964, criou-se na população, de empresários a trabalhadores (em que se inclui a classe média, a convicção de que é preciso “recuperar a inflação passada”, isto é, reajustar todos os preços e ganhos com base na inflação do mês anterior. “Se eu não fizer isto”, é o raciocínio coletivo, “estarei mais pobre, ou reduzindo meus lucros. Isto é, estarei perdendo da inflação”.
Resultado: a inflação não podia mesmo cair, já que os reajustes começavam sempre, no mínimo, com base na inflação “velha” – e a esses reajustes se somavam ainda aumentos provocados por uma série de situações, desde o aumento do consumo (permitindo às empresas imporem preços mais altos) até problemas como a quebra de safras, criando escassez.
Nos planos anteriores de combate à inflação, muitas armas eram usadas. Mas o alvo principal era sempre o mesmo: tentar convencer a sociedade que, enquanto persistisse o reajuste automático de preços e custos, isto é, enquanto prevalecesse a mentalidade da correção monetária automática, as taxas de inflação acabariam subindo outra vez. Para isso, tentou-se o congelamento de preços, os reajustes de salários limitados a 50%, 60% da inflação anterior, as alterações salariais com base na média e assim por diante.
Tudo inútil. Por quê? Tão logo um setor qualquer promovesse aumento de preços, por aquecimento do consumo ou redução na oferta (mais uma vez, quebra de safras, por exemplo), a desconfiança se espraiava por toda a economia, por toda a sociedade. “A inflação está de volta, vai disparar de novo, e nós vamos ficar para trás, perdendo” – era a reação imediata, desencadeando-se uma onda de reajustes de preços que se traduziam em taxas de inflação mais altas e que arrastavam a nova onda de reajustes. Aí, adeus, Plano.
No caso do real, como foi registrado nesta coluna há quase dois meses, o alvo principal continuou sendo o fim do vício da correção automática, ou indexação. Mas, ironicamente, muito ironicamente mesmo, seu êxito em obter baixas taxas de inflação – até agora – foi obra do acaso, isto é, não teve ligação com as armas usadas pelo Governo. Como assim? O que acabou derrubando as taxas de inflação foi exatamente a incrível remarcação de preços nos meses de maio a junho, tão exagerada, que levou o consumidor à total retração em junho, provocando uma “paradeira” na economia. Resultado: as empresas, com margens de lucro ampliadíssimas (já tinha havido outra remarcação violenta em fevereiro, à época da criação da URV), e sem consegui vender, deixaram de lado os reajustes. Isso fez com que as taxas de inflação despencassem e trouxessem, então, uma trégua fundamental para que a sociedade começasse a “enxergar” que é possível viver sem reajustes automáticos, nos preços e custos. A mentalidade da indexação sofreu o primeiro abalo sério, em décadas. Foram abertas as portas para a queda da inflação de forma permanente, no Brasil. Mas elas podem ser fechadas de novo – se a própria equipe econômica não mudar sua atuação.
Quando metalúrgicos solicitaram reposição das perdas salariais de julho e agosto, medidas pelo índice do próprio Governo, o IPC-r, houve violenta reação da equipe econômica. O ministro Ciro Gomes, recém-empossado, veio a público dizer que a volta da “indexação”, isto é, do reajuste automático de salários, era um crime contra o País, pois traria a inflação de volta, e o real naufragaria da mesma forma que planos anteriores.
Aparentemente, o ministro tem razão. Mas ele e a equipe econômica estão equivocados. Estão demonstrando até uma certa confusão, digamos assim, entre o que seja indexação e reajuste correto para compensar perdas:
Indexação – Como o próprio nome está dizendo, a indexação se baseia no índice de inflação passada. Esse procedimento é uma aberração, que não existe em nenhum país, porque a taxa de inflação é calculada com base na variação dos custos de todos os bens, serviços, salários etc., dentro da economia. Num exemplo muito conhecido: suponha-se que a taxa de inflação dispare, em determinado mês, por causa da escassez e encarecimento dos preços do feijão. É óbvio que não tem nenhum sentido a indústria automobilística reajustar os preços dos carros porque o feijão subiu inversamente, porém, uma indústria que venda feijão em lata certamente precisará cobrar mais pelo seu produto, porque a matéria-prima, o próprio feijão, encareceu. Da mesma forma, o trabalhador deve ter o direito de receber um reajuste de salário, para continuar comprando a mesma quantidade de feijão de antes.
Reajuste correto – Resumindo, no Brasil, com o vício da indexação, todos os setores reajustam preços quando o feijão (no exemplo) sobe. Nos demais países, cada setor reajusta seus preços somente quando seus custos, somente os seus próprios custos, sobem. Neste caso, a inflação não é realimentada, não dispara. Por quê? Porque os demais setores da economia poderão estar reduzindo seus preços, já que não existe o hábito de reajustá-los com base na taxa de inflação geral.
O ministro Ciro Gomes e a equipe econômica cometem um erro estratégico, gravíssimo, ao confundirem indexação (geral) com legítimo reajuste de preços ou salários em função de custos (setoriais). Estão fazendo a sociedade acreditar que qualquer reajuste de preços ou salários é volta à indexação – e volta à inflação. Sua função seria exatamente oposta: explicar à sociedade a diferença entre as duas coisas, convencendo-se de que os reajustes isolados não exigem que todos setores também partam para a remarcação – isto é, não exigem a volta à indexação.
Mais ainda: O ministro Ciro Gomes e a equipe econômica precisam mostrar à sociedade, que os reajustes isolados – quando necessários – podem pesar pouco na taxa de inflação, exatamente como nos demais países. No caso dos salários dos metalúrgicos, por exemplo, talvez maquiavelicamente, os técnicos de Brasília deixaram de fazer umas continhas muito simples: no Brasil, os salários pesam de 10% a 20% no custo final das empresas. No caso da indústria automobilística, ele não passa dos 10%. Portanto, o reajuste de 13% para os metalúrgicos encareceria os automóveis, na fábrica, em apenas 1,3% (isto é, 13% de 10%, peso dos salários). Como os impostos, margem dos revendedores etc. permaneceriam inalterados, isto significa que o encarecimento final do carro seria ainda menor, talvez 1%.
O Governo criou uma tempestade em torno do reajuste dos metalúrgicos. Por causa de 1% de aumento no custo dos carros, e que, na taxa de inflação, calculada com base em milhares de produtos, representaria algo perto de zero. Ingenuidade ou maquiavelismo político.
Nos últimos dias, a imprensa tem trazido notícias sobre reajustes de preços em áreas básicas: cimento, papel, embalagens. E a seca já está trazendo pressão sobre os preços de alimentos, devido ao atraso no plantio. O Plano Real passa a enfrentar ameaças concretas. Ou a equipe explica que esses reajustes não são uma volta à indexação, mas fruto de situações de mercado. Ou vão desencadear uma onda histérica de remarcações “porque a inflação voltou”.