Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 13 de junho de 1979
Em seu novo leilão semanal de LTN, o Banco Central voltou a reduzir acentuadamente as taxas de juros pagas aos compradores dos títulos federais, oferecendo agora uma rentabilidade em torno de 40% ao ano (para os papéis de 90 dias de prazo). A iniciativa das autoridades monetárias mostra claramente que a intenção do governo é mesmo promover a queda no custo do dinheiro no País, apesar das resistências do sistema financeiro.
Não importam, por isso mesmo, eventuais elevações das taxas de juros no "open". Elas serão circunstanciais e incapazes de deter a tendência geral, já esboçada, de queda para o custo do dinheiro, em função da estratégia abraçada pelos ministros Simonsen e Rischbieter (detalhadamente analisada em “As taxas de juros caíram. Por que não houve festa?", Gazeta Mercantil de 11/06/79).
É preciso que os empresários fiquem atentos, neste momento, a essa tendência de queda de juros, evitando tomar empréstimos a um custo alto, pois, amanhã, suas empresas certamente não conseguirão repassar os custos financeiros aos preços de seus produtos. E a resistência por parte das empresas vai depender, certamente de elas perceberem que são falsos os argumentos ainda usados para tentar impedir a redução do custo do dinheiro. Qual o principal desses argumentos? Dirigentes ligados ao mercado financeiro afirmam que a decisão governamental é “artificial” e que será impossível manter os juros em declínio, inclusive por causa da inflação, que continuaria elevada.
Comece então a analisar o problema exatamente sob angulo, da inflação – e seus efeitos sobre as taxas de juros. A inflação acumulada em doze meses, até abril, era de 47%. Para maio, com o resultado de 2.3%, a taxa acumulada caiu para 45,6% e, em junho, deverá ocorrer novo recuo, já que o resultado deste ano deverá ser inferior ao nível alcançado no mesmo mês do ano passado (3,6%). Assim, mesmo com uma "inflação velha" de 44/45%, já haveria condições para reduzir ainda mais as taxas de juros pagas pelos bancos aos compradores de seus certificados de depósito a prazo, que andaram pela casa dos 58% ao ano e recuaram para os 54% ao ano.
Mas o que todo mundo está esquecendo – e mesmo os líderes empresariais – é que a taxa de juros não deve ser determinada pela "inflação velha", pela inflação que já passou e se acumulou nos doze meses anteriores. Quem aplica o seu dinheiro no mercado financeiro tem, evidentemente, o direito a uma remuneração (os juros) por ele, para compensar a inflação.
Mas, se ele está aplicando nesse momento (esse o detalhe fundamental), é lógico que a remuneração deve ser suficiente para evitar a desvalorização que a inflação provocará sobre seu dinheiro daqui para a frente. E daí? Em maio, a inflação foi de 2,3%. Mesmo que se considere esse dado difícil de se repetir e se admita uma inflação média de 3% ao mês ainda por algum tempo, neste caso a taxa anual de inflação daqui para a frente estará na casa dos 40% ao ano, isto é, 5% abaixo dos 45% da "inflação velha", dos doze meses passados. Com a inflação de 40% ao ano, as taxas de juros ainda podem cair, substancialmente, dos seus níveis atuais, que os aplicadores estarão sendo bem remunerados (possivelmente os juros se deteriam, neste momento, entre 46 e 48% ao ano).
Esse declínio da inflação, estranhamente, não tem sido levado em conta nas análises sobre a tendência das taxas de juros — o que pode ser compreensível, no caso dos aplicadores, que, com base na "inflação velha", continuam a reclamar altos rendimentos para suas aplicações. Mas, no caso dos empresários, ignorar o declínio da inflação pode ser um suicídio: aceitar taxas de juros excessivamente altas neste momento, na casa dos 70%, 80%, 120% ao ano, significa criar uma carga insuportável para as empresas, a médio prazo, já que a diferença entre a inflação (que justificaria reajustes de preços) e as taxas de juros se tornou excessiva.
Todos os cálculos estão corretos, tudo indica a possibilidade de maiores reduções nos juros.
Mas, e o mercado, como reage ante a redução de seus lucros? Já se disse que a estratégia oficial criou condições para levar o mercado a praticar juros menores (ver artigo citado). E, acrescente-se, a própria realidade atual do mercado aponta na mesma direção: o aplicador vai ter de sujeitar-se a ganhos menores, por falta de opções.
Como assim ? As LTN já estão rendendo apenas 40% ao ano, restando então como alternativas as cadernetas de poupança, as letras de câmbio e os certificados de depósitos dos bancos. Mas, em relação às cadernetas de poupança, a opção é apenas aparente: fala-se que elas renderam 22% no primeiro semestre, só em correção monetária, e poderão oferecer até 50% ao ano, no final de 1979.
Ora, eis aí o mesmo vício de raciocínio, de basear-se na inflação velha — e esta não importa para o mercado. Quem aplicou no começo do ano, pode ganhar aqueles hipotéticos 50%. Mas, quem for aplicar agora, neste momento, ou melhor, no começo do terceiro trimestre, vai ter como rendimento futuro a correção monetária baseada no Índice de Preços no Atacado (IPA) de junho, julho e agosto, isto é, um período de inflação muito abaixo dos desastrosos resultados do começo do ano.
Finalmente, a terceira opção, as letras de câmbio, que já estão também oferecendo rendimentos inferiores, ante a menor procura de financiamento junto às financeiras, devido a retração no crediário. Fica claro, assim, que não nenhum motivo para as taxas de juros pagas pelos bancos, na venda de CDBs, continuarem tão elevadas: elas estão totalmente fora dos níveis dos demais papéis no mercado.
Com a estratégia oficial, e com o declínio da inflação, o mercado mudou totalmente, dificultando a imposição de taxas pelos aplicadores. Em outras palavras: as instituições financeiras podem pagar menos aos aplicadores – e cobrar menos juros às empresas. Se elas resistirem, isso acontecerá mais depressa.