Revista da Fenae , maio de 1999
Puxa vida, hein? Olha só as manchetes cor-de-rosa deste abençoado país: safra agrícola recorde, recuperação da indústria, saldo positivo para o Tesouro e até, quem diria, "reconquista" da credibilidade nacional. Outro "milagre" brasileiro? Não. Continuação da farsa dos últimos anos - até que venha uma nova crise do real, ou, antes dela, uma explosão das tensões sociais ampliadas pelo desemprego na faixa dos 20%, segundo o Seade/Dieese. Qual é a realidade brasileira?
Enganosamente, compara-se o desempenho de março com os resultados de fevereiros, mês com menos dias e de retração total da economia, desorganizada com a derrocada do real. Mas, na comparação com março de 1998, há uma queda na faixa dos 8% e 10%. Detalhe: ironicamente, a Petrobras, vitima de uma conspiração do governo, mas continua a ajudá-lo. Como assim? A produção de petróleo vem crescendo continuamente - e ela é incluida nas estatísticas do desempenho da indústria, já que o setor tem a classificação oficial de "indústria extrativa mineral". Se não fossem os resultados positivos da Petrobras, para compensar a queda de outros segmentos, as estatísticas industriais seriam ainda piores.
Diz-se que as vendas dos supermercados cresceram em fevereiro e março. Mesmo? Esse movimento é medido com base no faturamento, isto é, valor das vendas - e ele subiu nos dois meses em função dos aumentos dos preços generalizados (inclusive de produtos não-importados) após a desvaloriação do real. O melhor termômetro da tendência das vendas em geral voltou a ser o número de consultas ao Telecheque e Serviço de Proteção de Crédito. Em São Paulo, as consultas do comércio ao SPC desabaram praticamente 25% na abertura do mês de abril. Isto é, mesmo depois de passado o "trauma psicológico", o consumidor sofreu com a desvalorização do real.
Nenhum economista mentalmente sadio pode supor que a economia de qualquer país possa entrar em "recuperação" sem que haja capacidade de consumo - demanda, encomendas à indústria e gastos com serviços. Nada mudou no Brasil, para justificar qualquer aumento na capacidade de consumo. Ao contrário. O avanço do desemprego continua a reduzi-la. Somente Polianas incorrigíveis podem falar em "superação" da recessão.
Claro que a comercialização das safras agrícolas, ao injetar dinheiro na economia, poderia dar um impulso nos negócios da indústria e comércio - ainda que passageiro. O governo anunciou uma safra recorde, de 84 milhões de toneladas (como tinha anunciado uma safra recorde em 1998, que não se concretizou. Como tinha anunciado uma safra recorde em 1997, que...). A previsão escondeu um engodo, ao qual a imprensa, mais uma vez não atentou. Qual era? A safra do Centro-Sul cresceria apensa 3,5%. O grande "salto", de 20%, era esperado para o nordeste, que o governo havia decidido considerar "livre da seca". Não estava. A safra nordestina sofrerá "quebra". Pior ainda: La Ninã provocou estragos também nas colheitas do Rio Grande do Sul.
Além da safra recorde, o governo previa um "salto" na renda dos agricultores, graças ao aumento dos preços (em reais) trazido pela desvalorização do real. Mas os preços agrícolas estão em queda, por influência do desabamento das cotações internacionais, resultante de supersafras mundiais (a Rússia, devido à seca, colheu 48 milhões de toneladas de cereais em 1998. Este ano, obterá 22 milhões de toneladas a mais). O faturamento dos agricultores será inferior ao previsto. E, para agravar, um problema: os produtores devem US$ 4 bilhões aos fornecedores de fertilizantes, inseticidas, fungicidas. Pagarão muito mais, por essas dívidas, por causa do real. Por que recorreram aos fornecedores? Porque não houve praticamente crédito rural para o plantio da safra deste ano. Segundo o insuspeitíssimo economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-equipe do governo, é "falso" o calor de R$ 10,5 bilhões que Brasília diz ter emprestado à agricultura. Daquela cifra, R$ 7 bilhões foram apenas "rolagem" das dívidas agrícolas renegociadas. Sobraram de dinheiro para o plantio, mesmo, apenas R$ 3,5 bilhões. Tudo somado, preços menores e gastos maiores, a agricultura terá ua renda abaixo do previsto, sem fôlegi para ativar a demanda.
Não haverá recuperação da economia sem criação de poder de consumo. Demanda. Reajustes do salário mínimo e aposentadorias, e mesmo abono salarial para a massa de trabalhadores, seriam um bom começo para a reversão da política recessiva que o governo FHC abraçou.
E a recuperação da "credibilidade internacional", refletida - segundo as manchetes - na colocação de US$ 2 bilhões em bônus no exterior? Vergonha. O Brasil vai pagar as taxas de juros mais altas dos últimos 176 anos: 11,8%. Mais que o dobro das taxas internacionais.
Isso não é "confiança". É esfola. Baile de Ilha Fiscal.