[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  O país que não quer ser “tigre”

quarta-feira 21 de agosto de 1991


Há poucos meses, líderes de CUT, CGT e Força Sindical não se falavam, derramavam críticas violentas uns aos outros, em feroz discordância quanto a políticas e propostas para o país. Na semana passada, as lideranças das três entidades estiveram reunidas, em São Paulo, em amplo seminário destinado a discutir os rumos que o Brasil deve adotar. De quebra, no debate, também havia entidades empresariais como a Fiesp. A mudança de comportamento tanto dos sindicalistas quanto dos empresários, surpreendente em si, tem outro componente que também merece reflexão. Ela não ocorre a partir do registro de taxas de inflação explosivas que poderiam mostrar a todos a necessidade de um entendimento para enfrentar a conjuntura. Mais ainda: não é tanto a conjuntura que se discutiu, mas, exatamente, os programas de transformação e “modernização” da economia e da sociedade brasileiras, adotados pelo governo Collor. O seminário, como as lideranças deixaram claro, é apenas o início de um processo de debate permanente desses planos. Debate sem preconceitos, complementam, apontando que podem aceitar até a política de privatização (à qual entidades sindicais se opunham, dentro de determinadas restrições). O debate estava tardando, deixando totalmente desimpedido o caminho para os segmentos da sociedade, e os lobbies, que vêm apoiando a política de total “abertura” da economia, em condições nem sempre aceitáveis, para felicidade e enriquecimento de certos grupos. Não há dúvida de que essas propostas, e sua implementação, vão ter que ser acompanhadas mais de perto pela opinião pública – para que o país não pague preços terríveis por determinadas distorções no futuro, e que nunca mais poderão ser corrigidas, sangrando o país para todo o sempre. Mais uma vez, é o próprio exemplo dos “tigres asiáticos” que pode ser usado para desvendar os riscos a que o Brasil está sendo exposto com a política de “abertura” indiscriminada de sua economia. Tanto Hong-Kong quanto a Coréia estão enfrentando déficits avassaladores em sua balança comercial (exportações menos importações). Para a Coréia, o “rombo” deste ano já passa dos 8 bilhões de dólares, enquanto para Hong-Kong ele este em torno de 2,5 bilhões de dólares. Esses maus resultados vêm sendo objeto de análises e estudos dos governos e economistas locais. Conclusão a que se chegou de pronto: o “rombo” não é um fenômeno passageiro (resultante, por exemplo, de uma eventual alta de preços de determinadas mercadorias). O “rombo” corre o risco de eternizar-se, porque o desequilíbrio entre exportações e importações é um reflexo do próprio modelo de industrialização adotado pelos “tigres asiáticos”. Mais precisamente: com a instalação de fábricas, filiais de empresas japonesas em seu território, Hong-Kong e Coréia passaram a depender intensamente da importação de peças e componentes fabricados pelas matrizes, no Japão. Resultado óbvio, facilmente detectável nas estatísticas: saldo crescente para o Japão, “rombo” crescente para os “tigres asiáticos”. O mesmo perigo a que o Brasil fica exposto, com o modelo pretensamente liberal. Ninguém acredita que o risco é remoto, e que os problemas somente ocorreriam a longo prazo. Nada disso. Para comprová-lo, basta lembrar um único exemplo, dos últimos dias: a General Motors do Brasil já anunciou oficialmente que tenciona reduzir a compra de peças e componentes de fornecedoras brasileiras, elevando para até 25% a fatia de partes importadas utilizadas em seus veículos. Atenção: como no caso da Coréia, as partes importadas são exatamente as mais caras, e as mais avançadas do ponto de vista tecnológico. Resultado: a sangria de dólares do país é violenta. E o avanço tecnológico que a “abertura” deveria proporcionar transforma-se, na verdade, em retrocesso. Tudo isso pode ser evitado, se o governo brasileiro passar a dosar cuidadosamente a política de abertura. E os banqueiros e empresas dos países ricos, que desejam as mudanças, não vão chiar? Ora, toda a onda de críticas ao Brasil tem sido mero jogo de pressões, para comprar empresas mais baratas, ou para conseguir privilégios do governo brasileiro. Para comprovar que tudo é mera encenação, basta atentar para outro dado surgido nos últimos dias: neste ano, antes mesmo que as “exigências” dos credores tenham sido atendidas, a entrada de dólares no país duplicou. O desinteresse pelo Brasil é um mito – cultivado inclusive por maus brasileiros. Não há vantagem em repetir o modelo dos “tigres asiáticos”.



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