Jornal Folha de S.Paulo , domingo 18 de agosto de 1996
Nada menos do que 4,5 milhões de empregos foram criados no Brasil em plena recessão, no período de 1990 a 1993.
Essa surpreendente revelação foi trazida ao conhecimento da sociedade pelo professor Paul Singer, em artigo publicado nesta Folha no último dia 14 de junho.
Dissecando dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em cima do relatório da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD, Singer produziu a mais importante análise divulgada pela imprensa nos últimos dois anos, marcados pelo monocórdico debate entre economistas em torno da taxa de juros e o preço do dólar.
Com a análise, mostrou que, enquanto os teóricos teorizavam, a sociedade encontrava caminhos para amenizar os problemas criados pela política econômica.
Qual a importância do fenômeno desvendado por mestre Paul Singer? Ele mostra que, se o presidente da República quiser, pode adotar soluções rápidas e baratas para um sem-número de problemas do país, como desemprego, marginalização de milhões de pessoas, oferta de alimentos e redução da violência que apavora cada vez mais classe média e povão nos centros urbanos.
Como chegar até lá? Basta aproveitar a tendência revelada pela própria sociedade, dar-lhe apoio, ampliá-la, oferecer-lhe recursos. Para isso, terá de colocar em questionamento alguns "dogmas" predominantes sobre as estratégias convenientes para o Brasil.
Mais surpreendente que a própria criação de empregos em 1990/93, é que ela ocorreu maciçamente no setor rural, na agricultura, com nada menos de 4 milhões de trabalhadores absorvidos, no período. Desse total, a esmagadora maioria foi enquadrada pelo IBGE na classificação de "sem remuneração", isto é, sem pagamento _em dinheiro_ por seu trabalho.
O que vem a ser isso? Mestre Singer explica: são milhões de pessoas que, sem emprego nas cidades, voltam para o campo, e vão trabalhar também no pedaço de terra pertencente à família, ou mesmo amigos.
Os teóricos de esquerda e de direita certamente torcerão o nariz a esses empregos, na verdade mera ocupação, a nível de subsistência, com as famílias trabalhando apenas para comer e sobreviver.
Realmente, do ponto de vista teórico, o raciocínio é absolutamente correto. Mas, na prática, a verdade é que essas milhões de famílias encontraram uma forma de matar a fome e fugir à miséria e marginalização nos centros urbanos.
Para quem tem a barriga periodicamente abastecida com queijos, confeitos e vinhos importados, essa "volta ao campo" pode soar como ridículo retrocesso. Mas é uma alternativa, descoberta pela própria sociedade, para contornar os efeitos da recessão e a escalada do desemprego.
Recém-saída do campo, gigantesca parcela da população brasileira _milhões de pessoas_ tem disposição para voltar às atividades agrícolas _essa a conclusão possível, a partir da análise do professor Singer.
A constatação, por feliz coincidência, foi soberbamente retratada na prática por uma reportagem da jornalista Elvira Lobato, publicada nesta Folha há dois domingos (4/8) sobre os sem-terra no Pontal do Paranapanema, no Estado de São Paulo.
Ambos, artigo e reportagem, merecem transformar-se em leitura obrigatória para formadores de opinião e tomadores de decisões, por sua capacidade de provocar reflexões e gerar uma nova visão sobre os problemas sociais no país, e soluções possíveis.
Ao presidente da República, fica aberto um caminho.
Neste momento, a escassez mundial de alimentos exige a expansão da produção agrícola brasileira. Ela deve ser buscada por meio do apoio efetivo às famílias de micro e pequenos produtores _que estão desde 1990 gerando milhões de empregos por esse Brasil afora. Mas apoio efetivo que continua a faltar.
Voltaremos ao tema na terça-feira.