Revista Isto É , quarta-feira 11 de abril de 1979
Quem ganha 70% sobre o capital em um ano não pode reduzir os seus preços?
Será mesmo tão difícil reduzir o ritmo de alta de preços no Brasil? Quando se olha ao redor, percebe-se que não apenas a velocidade da alta poderia ser contida, como ainda — dependendo de iniciativas governamentais — o país poderia até mesmo conseguir reduções de preços em praticamente todas as áreas. O país criou o vício, nos últimos anos, de ver ganhos excessivos apenas na área da intermediação de produtos agrícolas. Na verdade, porém, as margens de lucros substanciais são um fenômeno generalizado. Vejam-se, por exemplo, os resultados obtidos por cinco empresas, conforme a análise de seus balanços divulgada pelo jornal Gazeta Mercantil, e escolhidas ao acaso:
MAPPIN. A grande loja de departamentos de São Paulo aumentou suas receitas de 1,9 para 5,8 bilhões de cruzeiros nos últimos três anos. Os lucros cresceram mais depressa que as receitas: 59%, 86% e 74% contra 64%, 72% e 70%.
CREMER. Empresa de porte médio, produtora de materiais têxteis e cirúrgicos, aumentou o capital em 119%, em três anos. O lucro líquido cresceu 393% nesse período.
LACTICÍNIOS POÇOS DE CALDAS. Obteve em 1978 um lucro de 120 milhões de cruzeiros, para um capital de 170 milhões de cruzeiros, isto é, 71% sobre o capital, melhor ainda que os ótimos 61% em 1977 e 52% em 1976.
REFRIGERAÇÃO CÔNSUL. Apenas no semestre de junho a dezembro de 1978, teve um lucro de 74% sobre o capital. Em seis meses suas vendas cresceram 51% - e o lucro 114%.
METAL LEVE. Em 1978, seu faturamento cresceu 35%; os lucros, em 81%, para 311,3 milhões. Para encerrar, há ainda o caso da Sadia Concórdia, organização que se dedica ao abate e industrialização de aves e suínos. Somente as empresas do grupo que atuam nesse ramo — frigorífico — lucraram 640 milhões de cruzeiros em 1978, para um capital, no início do exercício, de 754 milhões de cruzeiros. Uns 85% de lucro.
Como se vê, os empresários brasileiros não têm razão para se queixar. É bom notar duas coisas: 1) Esses lucros são reais, isto é, já foi descontada a inflação (por quê? A nova Lei das Sociedades Anônimas padronizou os balanços, e agora se "desconta" a inflação). 2) Os lucros (já descontada a inflação, repita-se) de 60%, 70%, 80% sobre o capital em um ano são ainda mais expressivos porque esse capital vem sendo aumentado ano a ano, com os próprios lucros anteriores.
Ninguém é contra o lucro, ele é o caminho para as empresas se capitalizarem etc. etc. etc. Mas, neste momento de combate à inflação, os ministros do Planejamento e da Fazenda poderiam muito bem reunir uma série de análises de balanços e chamar os líderes das entidades de classe e pedir colaboração – pra valer. Mais ainda: não há motivo para preocupações ante os aumentos salariais pedidos pelos trabalhadores, nem o temor de que as empresas tenham que aumentar seus preços por causa disso. Os lucros revelam que elas podem absorver os custos extras.
NO DIA-A-DIA. No comércio, entende-se que alguns produtos sejam vendidos com margem de 100%: afinal, o empresário tem certos custos a cobrir, como o aluguel e impostos. Mas, no Brasil, a praxe está sendo 100% no mínimo, e não no máximo. No comércio de refeições (lanchonetes, bares, restaurantes), por exemplo, tudo deixa margens astronômicas:
FRANGO. O quilo de frango, no atacado, está a 30 cruzeiros; um frango de 1,6 kg sai a 48 cruzeiros. Pois tem-se a coragem de vender uma coxa ou sobrecoxa, no balcão de bar, a 12 cruzeiros. Lucro: 300%. E uma coxinha, salgadinho em que o recheio não tem mais de 30 g de carne picadinha, isto é, 90 centavos de "frango", a 12 ou 15 cruzeiros. Lucro: 1.000%.
FAROFA. Numa porção, não vão mais do que 100 g de farinha de mandioca, que custa 5 cruzeiros o quilo. Portanto, 50 centavos de farinha. E a farofa é vendida a 20 cruzeiros a porção, ou até a 35/40 cruzeiros, se tiver meia dúzia de azeitonas.
OVO. Hoje a 19,40 cruzeiros a dúzia, isto é, a 1,60 cruzeiro cada. Cozido com casca, em botecos, custa 6 cruzeiros. Lucro: quase 300%. Frito, de 8 a 10 cruzeiros. Lucro: 600%.
SANDUÍCHES. De queijo prato, a 15/20/25 cruzeiros. No entanto, tem 50 a 80g de queijo, que custa 60 cruzeiros o quilo no atacado. No sanduíche vão, portanto, de 3 a 4,80 cruzeiros de queijo, mais um pãozinho de 80 centavos. Custo final: 3,80 a 4,60 cruzeiros.
SUCOS DE FRUTAS. Nunca é demais repetir o exemplo da laranja, uma caixa, aí com 15 dúzias, custa atualmente 90 cruzeiros; a dúzia, portanto, a 6 cruzeiros; cada laranja a 50 centavos. Com três laranjas - ou 1,50 cruzeiro - se faz um suco que custa de 15 a 25 cruzeiros, em bares e restaurantes de hoje. E um suco de maçã? Idem: com meia maçã, um suco, isto é, com 2,50 cruzeiros um suco de 15 a 20 cruzeiros. Com abacate, manga, mamão, a mesma coisa: lucros de 700, 1.000, 1.500%.