Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 16 de abril de 1975
Ao proibir o financiamento da venda de automóveis (e outros bens) ao consumidor por prazos superiores a 24 meses, no segundo trimestre do ano passado, o Conselho Monetário Nacional visava a objetivos de dois tipos: de curto e longo prazo. No curto prazo, ou conjunturalmente, a intenção era “esfriar” a economia brasileira, que, como a economia mundial, vinha de uma fase de “super-excitamento” em 1973. A expansão de quase 50% nos meios de pagamentos, naquele ano, trouxera um excesso de liquidez à economia, criando um ambiente propício à especulação com estoques ou terras agrícolas, com títulos de renda fixa no “open market” ou imóveis e terrenos urbanos. A par dessa expansão (e alimentada por ela), houve a conivência com a “explosão” do crédito direto, utilizado no financiamento até de objetos de 10,00 cruzeiros de valor, através das promotoras de vendas, subsidiárias das financeiras. Esse quadro havia ativado loucamente a demanda, com a formação de “filas” para a compra de automóveis e a imposição de “sobre-preços”, através de expedientes, para um sem-número de artigos. Paralelamente, verificava-se a escassez de matérias-primas, real na medida em que o parque industrial as consumia violentamente, e irreal na medida em que sobravam recursos para a estocagem especulativa.
Estruturalmente, a mudança no crédito direto ao consumidor tinha objetivos mais amplos. Nascia a política de “reciclagem” da economia, com ênfase na produção de bens de maior essencialidade para o país, abandonando-se a utilização dos bens de consumo (modelo “consumista”) como motor propulsor da economia.
OS MOTIVOS ESQUECIDOS
A tentativa de amortecer o choque da “reciclagem” levou porta-vozes do governo a frisarem, repetidas vezes, que a nova opção tinha motivações profundas. Mudava-se o “modelo brasileiro” pelo simples fato de que ele, tal como implantado em anos anteriores, acumulara distorções que estavam criando novos pontos de estrangulamento na economia. Os investimentos maciços na produção de bens de consumo haviam “roubado” recursos para aplicação na produção de bens básicos. E, o que era mais grave, embora compreensível, tornava esses bens básicos ainda mais necessários à medida mesmo em que crescia a produção dos bens de consumo: o Brasil abandonara ou negligenciara, por exemplo, os investimentos na produção de metais não-ferrosos, como o cobre, o chumbo, o alumínio. E a produção de carros e televisores, liquidificadores, ou “grills” exigia volumes crescentes desses metais. Como conseqüência, cresciam as importações desses metais, da mesma forma que avançavam rapidamente as compras de fertilizantes, aço, papel e celulose, sem falar no petróleo – isto é, os setores esquecidos pelo “modelo consumista”. Foi, assim, para “poupar” recursos que permitissem investimentos maciços nesses setores, que se lançou a “reciclagem do modelo”. Para poupar. E para evitar o agravamento da balança comercial.
A NOVA CONJUNTURA
Ontem, o Conselho Monetário Nacional decidiu permitir que os carros sejam novamente vendidos a 36 meses de prazo, admitido portanto que o setor enfrenta dificuldades e que o prazo mais longo para o pagamento a prestações pode atrair o consumidor. Sabendo-se que há outros setores de bens de consumo em dificuldades, por que o privilégio à indústria automobilística, restringindo-se a nova dilatação exclusivamente ao setor Também esta questão comporta duas respostas: uma, conjuntural. A outra, de caráter estrutural. Conjunturalmente, evitar dificuldades, para o setor automobilístico pode ter importante efeito sobre a economia como um todo, já que o setor tem um “efeito multiplicador” decisivo sobre as atividades de outras áreas (inclusive através das suas encomendas de plásticos, metais, vidro, borracha, etc.).
Uma resposta estrutural pode ser buscada na opinião do ministro Severo Gomes, de que somente a redistribuição de renda criará um mercado de massas no país. Ela parece traduzir uma convicção governamental em relação aos bens de consumo de massa, como têxteis, eletrodomésticos, roupas e outros bens não-duráveis (financiados pelas promotoras de vendas, embora oficialmente se negue que a prática exista). As vendas desses bens, nessa ótica, não reagiriam a estímulos conjunturais, pois as faixas da população de baixa renda, que deveriam sustentar seu consumo, estão com seu poder aquisitivo deteriorado, e em grande parte endividadas com a liberalidade do “crédito ao consumidor” em 1973. Já para os automóveis, a “resposta imediata da classe média – seu mercado – parece provável; um comprador em potencial poderia ser afugentado por uma prestação de Cr$ 800,00 em 24 meses, mas poderia aceitar prestações na faixa de Cr$ 500,00, em 36 meses.
OS DESVIOS VISÍVEIS
Qualquer política econômica tem que ser essencialmente dinâmica. Não se pode, em nome da “reciclagem da economia”, condenar a adoção de uma medida destinada a fazer frente a uma conjuntura nova, que poderia trazer sérios impasses à produção industrial. Resta saber, porém, até que ponto a presumida “inevitabilidade” da medida não foi criada pela inércia de algumas áreas do governo, que não atacaram pela raiz os males da economia brasileira. Entre eles, a própria inflação que, reconhecidamente, através de todas as suas formas (inclusive correção monetária), beneficia a alguns setores da coletividade, concentrando a renda, reduzindo o poder de compra da população; estreitando o mercado. Resta questionar, ainda, se essas mesmas áreas governamentais não poderiam ter resistido mais algumas semanas, à espera de um dado: os efeitos que a comercialização das safras, e conseqüente aumento da renda no interior, teriam sobre a demanda de bens industriais, inclusive automóveis.
O aumento da demanda meramente através da expansão do crédito pode abrir perigosas brechas no novo modelo econômico que se pretendia implantar no país, com conseqüências em cadeia. Por ora basta indagar: Como ficará a balança comercial com uma volta ao “consumismo”