Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 20 de novembro de 1981
O ministro Delfim Neto vem apresentando três argumentos principais para vetar a implantação do plano de criação de 250 mil empregos nas principais regiões metropolitanas do País. Nenhum deles é válido:
Falta de dinheiro — o programa custaria algo como 35 bilhões de cruzeiros. Seria possível fazer mil comparações, com outros gastos do governo, para mostrar que a desculpa é ridícula. Basta apenas uma esmagadora, a partir de uma revelação feita no mesmo dia da entrevista do ministro (anteontem): segundo o diretor da Dívida Pública do Banco Central, Cláudio Haddad, a divida do governo, representada pela venda de LTNs e OHTNs, vai chegar a 3,0 trilhões de cruzeiros, até o final do ano. No começo do ano, era de 800 bilhões de cruzeiros. Até a semana passada, os ministros diziam que ela iria a 2,4 trilhões até dezembro. Um aumento já descomunal, de 200%. Agora, o aumento vai ser de 2,2 trilhões de cruzeiros em um ano. Mais de 250%. É a "guitarrona" do governo, a nova forma de emissões de dinheiro sob a forma de títulos. Para quê? Para aumentar a especulação financeira. Para sustentá-la. Um ministro que emite 2.2 trilhões de cruzeiros em um ano não pode emitir tostões para criar empregos? No Brasil, pode. Até que o Congresso se manifeste.
Mecânico não é peão — sempre inteligente, o ministro Delfim Neto encampou um argumento da oposição-repetldora-de-chavões, segundo a qual os operários especializados do ABC atingidos pelo desemprego não podem ser transformados em "bóias frias" ou "peões". De nada adiantaria, assim adotar um plano de obras de emergência baseado na execução de obras públicas ou projetos agroindustriais. A oposição-repetldora-de-chavões diz isso porque se contenta com chavões. O ministro Delfim Neto diz Isso por vivacidade mental: ele sabe multo bem que o Ministério do Trabalho fez pesquisas para verificar qual o destino dos operários especializados, demitidos pela indústria automobilística e de autopeças do ABC. A pesquisa revelou o chamado "efeito cotovelo”, isto é, o demitido da Volkswagen conseguiu um emprego, um pouco pior, numa indústria equivalente (não-automobilística) ou numa oficina, desalojando um trabalhador que por sua vez também desceu um degrau no mercado de trabalho (mas não permaneceu desempregado), e assim sucessivamente. No final das contas, e no final da linha de cotoveladas para abrir vaga no mercado de trabalho, sobrou o trabalhador menos qualificado, que ocupava o degrau mais baixo nesse mercado. O ministro Delfim Neto sabe disso, já que cuida de Planejamento (ou não cuida?), centraliza tudo, e deve forçosamente ter sido Informado pelo Ministério do Trabalho. Quem está desempregado é o trabalhador não qualificado. E o peão, ou o peão recentemente "promovido" a um degrau mais alto.
Para ele, o programa de emergência serve, sim. Matará sua fome, e da sua família. Ou enganará.
Dinheiro não leva carimbo — um argumento mais sofisticado, porém igualmente falso, diz que o dinheiro ganho pelo peão utilizado em obras de emergência não leva carimbo, vai circular da mesma forma dentro da economia – e isso aumentará a divida externa. Mas claramente: o peão empregado pelo plano de emergência gastaria o seu dinheiro na compra de comida, remédios, roupas etc. Isso significará maiores vendas dessas indústrias, o que não traria nenhum mal a economia, já que seus produtos quase não dependem da importação de matérias-primas, peças etc. Acontece porém – esse o argumento do Planejamento – que, ao vender mais, essas indústrias contratariam mais operários, que por sua vez também consumiriam mais, e assim sucessivamente. Em outras palavras: o salário pago aos peões acabaria, no elo final da corrente, aumentando também os negócios e os ganhos dos setores que empregam os profissionais da classe média que, então, passariam a consumir aqueles bens dependentes de importação: carros, eletrodomésticos, petróleo. A dívida externa voltaria a crescer.
O ministro Delfim Neto não pode acreditar que haja mesmo essa "reação em cadeia", até aumentar os salários e ganhos da classe média – e aumentar a dívida externa. Não pode, por um fato multo simples: a política que os banqueiros internacionais obrigaram o Planejamento a adotar (correta, repita-se uma vez mais) veio exatamente corrigir um erro grosseiro que o ministro cometeu em 1979 e 1980, semeando a crise de 1981. Em 1979, o ministro "esqueceu a economia", dizendo que o "importante é crescer", alegando que havia capacidade ociosa em alguns setores industriais e, portanto, eles podiam aumentar a produção sem provocar inflação (porque produzir um número maior de produtos, nas mesmas máquinas, reduz os custos de produção). Nessa época, sim, o ministro se esqueceu de que o dinheiro circularia dentro da economia, que nenhum setor é "estanque", e que o aquecimento acabaria atingindo todos os setores – inclusive os dependentes de importação. Sua política deu no que deu: inflação incontrolável e dívida idem, exigindo os freios na economia, a crise de 81. Para este ano, os banqueiros internacionais e o FMI ensinaram o caminho, ao Planejamento; pode-se desaquecer o consumo de terminados bens reduzindo-se o poder de compra da classe média. Foi o que o governo fez, ao aumentar indiretamente o Imposto de Renda recolhido na fonte, ao elevar os juros no crediário, ao limitar os aumentos para os salários mais altos. Hoje, em resumo, pode-se criar empregos para os peões, sem que o efeito multiplicador chegue até as indústrias de bens dependentes de importação. Sem provocar crescimento da divida externa. O ministro sabe disso. E o que está fazendo.