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  Bom senso para a agricultura - II

, segunda-feira 19 de agosto de 1974


Dizem os técnicos, em milhares de laudas que o noticiário de imprensa sintetiza todos os dias, que o principal problema da agricultura mundial é, no momento, o preço dos fertilizantes e defensivos (inseticidas, pesticidas) produzidos a partir do petróleo. Há uma espiral de preços para os produtos agrícolas, afirmam, porque à medida em que aqueles produtos duplicam ou triplicam de preços a cada dois meses, o agricultor precisa também de preços mais altos para suas safras — ou enfrentará prejuízos. Mas, à medida em que a espiral evolui, surge um dado novo: a impossibilidade de o consumidor continuar pagando, cada vez mais, pelos alimentos (ou fibras, como o algodão), fornecidos pela agricultura. Tem-se então, ao lado da inflação, um problema de retração do mercado que acaba resultando em safras “encalhadas” ou perdidas — e os estoques de carne acumulados na Europa, porque a população já não podia pagar os altos preços pretendidos pelos criadores, são apenas um dos primeiros exemplos de episódios a que o mundo deverá assistir, em escala crescente, nos próximos meses ou anos.

Safras encalhadas significam prejuízos ao produtor, da mesma forma, e desestímulos ao plantio — com futura redução na produção, e, novamente, preços mais altos para o consumidor. Fica claro o impasse.

O Brasil é atingido por esse quadro no exato momento em que se pretende “modernizar” a agricultura, aumentando a produção e a produtividade, e assegurando-se um nível de produção que atenda não apenas ao mercado interno mas, também, deixe excedentes exportáveis.

Qual o objetivo do aumento da produtividade? Teoricamente é obter um barateamento da produção, como explicam os técnicos: um lavrador colhe 100 sacas de arroz em seu pequeno lote; se vendê-lo a Cr$ 50,00 a saca, e tiver gasto Cr$ 30,00 para produzi-lo, conseguirá uma renda de Cr$ 50.000,00, para gastos de Cr$ 30.000,00. Suponha-se, agora, que o lavrador gaste não Cr$ 30.000,00 em sua lavoura, mas sim Cr$ 33.000,00, com o acréscimo de Cr$ 3.000,00 resultante de compras com adubos. Se ele obtiver uma safra de 150 sacos, para obter a mesma renda de Cr$ 50.000,00, poderá vender cada saca a apenas Cr$ 33,00 (Cr$ 50.000,00 divididos por 150 sacas). Assim, em um mesmo pedaço de terra, a produção pode crescer em 50% (150 sacos contra 100 sacos) com um aumento de despesas de plantio de apenas 10% (Cr$ 3.000,00 de fertilizantes, sobre os Cr$ 30.000,00, sem fertilizantes, anteriormente gastos).

Teoricamente, o avanço tecnológico, representado no caso pela utilização de fertilizantes, deveria trazer fartura e baixos preços.

PALAVRA MALDITA
Já há vinte anos o economista J. K. Galbraith vertia contra o fascínio pela tecnologia, contra a crença de que no “refinamento” tecnológico estava a solução para os problemas da produção.

País em desenvolvimento, recém-saído da industrialização, o Brasil tem sido, nos últimos anos, uma das maiores vítimas do fascínio não pela tecnologia, mas pela tecnologia refinada — importada.

Por tecnologia, no bom sentido, entende-se qualquer método que racionalize a produção, levando a um aumento da produtividade — a custos mais baixos. No caso da agricultura brasileira, porém, o que se tem visto, nos últimos anos, é a busca do aumento da produção e da produtividade a custos que o consumidor não pode enfrentar. Fiados em “vender” produtos agrícolas ao mercado externo, os técnicos brasileiros não se preocuparam com os custos da “modernização” — mesmo que eles fossem insuportáveis para o consumidor brasileiro.

A nova situação da economia mundial mostrou — e está mostrando cada vez mais — a inconsistência desse raciocínio. A agricultura brasileira terá que adotar uma tecnologia onde os desperdícios dos últimos anos não poderão ser tão ostensivos, simplesmente porque, se os custos continuarem a crescer na produção, na proporção atual, não haverá compradores, externos ou internos, para suas safras.

A TECNOLOGIA INGÊNUA
Frangos com gosto de penicilina — porque a “tecnologia” foi entendida como engordar aves em três ou quatro meses, às custas de maciças — e caras — doses de rações devidamente enriquecidas com penicilina. Batatas, tomates, hortaliças com nefando sabor de enxofre — porque maciças e caras doses de adubos são lançados à terra.

Não é preciso ser hippie para ter vontade de comer coisas “com gosto de infância” — a voracidade dos turistas em cima das comidas caipiras, feitas com produtos de fundo de quintal, é também uma contestação às vantagens da tecnologia.

Problemas gastronômicos à parte, há sempre oculto o problema econômico. Neste primeiro semestre, choveram notícias sobre morte de gado por excesso de DDT nas pastagens, contaminação de plantações por pesticidas, intoxicações de lavradores por defensivos ou adubos (sem falar em centenas de milhares de sacas de cacau brasileiro retidos em Nova York por excesso de DDT). Por toda parte, indícios de uso excessivo dos chamados “insumos modernos”, levando, inevitavelmente, ao encarecimento da produção além dos níveis necessários — e que já seriam excessivamente altos a esta altura.

Com base em pesquisas oficiais, o governo já detectou o problema. Para desestimular esse uso abusivo, reduziu ligeiramente o financiamento para a soja, algodão e arroz este ano (com menor disponibilidade de crédito, na hora do plantio, espera-se que o lavrador dose melhor a aplicação de inseticidas e adubos).

Trata-se, porém, de medida conjuntural e isolada. A agricultura brasileira, a esta altura, está precisando de uma revisão global quanto à tecnologia que vem adotando, com desvantagens de toda ordem:

a) Importações desnecessárias — o país gastará mais de 500 milhões de dólares na importação de fertilizantes, este ano.

b) Investimentos mal programados — para livrar-se das importações, gastará também bilhões de dólares na montagem de indústrias do setor nos próximos anos.

c) Encarecimento da produção — já a um nível insuportável para o consumidor, levando a um estreitamento do mercado, que pode tornar-se progressivamente mais grave.

OS CAMINHOS POSSÍVEIS
Se o país não tivesse adotado o “modelo tecnológico” dos países desenvolvidos, estaria dispondo, a esta altura, de meios baratos e igualmente eficientes para “modernizar a agricultura” — sem as desvantagens atuais, em que se inclui a poluição dos alimentos.

Dois exemplos ao acaso demonstram a falta de imaginação dos teóricos que pregaram o uso maciço de “insumos modernos” para aumentar a produção e a produtividade:

1) Fertilizantes — há vinte anos, em São Paulo, divulgava-se a utilização de fertilizantes “verdes”, agora novamente repesquisados por institutos de agronomia. O que são os fertilizantes verdes? Simplesmente, plantas que servem de adubo. A soja perene, por exemplo, é plantada não para a colheita de seus grãos, mas para restaurar a terra. Planta rasteira de folhagem exuberante e compacta, é cortada, ao atingir a idade adulta — suas folhas apodrecem, formando uma camada de humo no solo, reiniciando todo um ciclo de restauração biológica (através de microorganismos). A própria soja, também, tem outro papel de “fertilizante verde” — em suas raízes, formam-se nódulos que retém o nitrogênio. Cortada a planta, esse nitrogênio integra-se no solo, fertilizando-o (é preciso lembrar que o nitrogênio é a base de toda uma família de fertilizantes extraídos do petróleo).

2) Rações — o leite é caro por causa das rações para as vacas; a carne é cara por causa das rações para alimentar o gado. Veterinários em contato diário com os criadores, porém, apontam que a ração deveria apenas complementar a alimentação normal do gado, e não ser sua componente única. “Dar só ração a gado é o mesmo que tratá-lo a pão-de-ló, sem qualquer força de expressão. Não há custo que agüente”.

Os criadores realmente enfrentaram períodos de agruras e desestímulo, nos últimos anos. Hoje, porém, parecem contagiados pela febre tecnológica (no mau sentido), e não se preocupam com custos, esperando sempre a concessão de preços majorados — que o consumidor não pode suportar. Também há vinte anos, estudos do Departamento de Produção Animal em São Paulo já mostravam que era possível aumentar a produtividade — e a lucratividade —da pecuária através da alimentação do gado com rações produzidas na própria fazenda, à base de cana picada, batata doce, mandioca e gramíneas. Se o DPA tivesse sido ouvido, a famosa entressafra, que todos os anos joga o preço da carne às alturas, já teria acabado há muito tempo. Quando as pastagens estivessem queimadas pela seca, haveria esses outros alimentos à disposição, sem necessidade do uso maciço de rações. Qual o efeito que essa modernização, não-sofisticada, mas cabocla, teria? Um boi que já está com 200 quilos, ao chegar à entressafra perde cerca de 30 quilos. Quando volta a época de boas pastagens, esse boi precisará recuperar esses 30 quilos, antes de retomar seu crescimento. Com as idas e vindas de boas pastagens e entressafras, um boi, no Brasil, leva até 4 anos para chegar ao ponto de corte contra dois anos a dois anos e meio em outros países. Quatro anos comendo — não só para engordar e chegar ao ponto de corte, mas também para recuperar peso perdido. Quatro anos de capital empatado, de mais gastos com mão-de-obra (por pequenos que sejam), de pasto ocupado, com um mesmo boi. Tudo isso encarece a carne. Mas não é preciso rações caríssimas para modificar o quadro. Há fórmulas caboclas à disposição.

Sobram exemplos para mostrar a possibilidade de uma reformulação nas diretrizes na agricultura. Resta ver quais seriam os seus agentes.



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