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  As Bolsas interessam ao povo?

Jornal Diário Popular , quarta-feira 22 de setembro de 1999


Quando estouraram as crises dos países da Ásia e, depois, da Rússia, o noticiário diário, principalmente na TV, fez enorme estardalhaço em torno do desabamento das Bolsas de Valores, dando a impressão de que o fim do mundo estava perto. Na cabeça de milhões de pessoas vinha sempre a pergunta: "Como é que a quebradeira nas Bolsas pode provocar uma crise mundial?" E mais: "Qual o interesse que as Bolsas têm para os trabalhadores e para a classe média, se eles não têm negócios nesse mercado?"

Na verdade, essa aflição das pessoas é criada por uma grande confusão feita pelos meios de comunicação. O noticiário cria a impressão de que as "crises" nas Bolsas é que dão início à crise da moeda, que despenca (como aconteceu com o real), e provocam a crise da economia do País. Isso está completamente errado. O que acontece é exatamente o contrário: a queda nas Bolsas é o fim da novela, isto é, elas desabam quando a economia de um país vai acumulando problemas meses a fio, até chegar a um ponto em que banqueiros, credores, empresas, investidores começam a "fugir", a mandar seu dinheiro para fora porque temem sofrer prejuízos quando tudo explodir.

É isso que, conforme esta coluna procurou mostrar algumas vezes, está acontecendo neste momento, com os EUA — onde as Bolsas de Valores estão despencando e recuaram 2% ontem.

A "virada" veio — de uma hora para a outra? Não. Os EUA, repita-se, há muitos anos têm um imenso "rombo" em seus negócios com o resto do mundo, com o valor das importações superando astronomicamente as exportações. E os EUA têm, além disso, uma dívida externa astronômica, isto é, o governo norte-americano e as multinacionais norte-americanas tomaram empréstimos ou venderam títulos ("papagaios") fora do País em valores maciços, que chegam a mais de 6 trilhões (veja bem, são trilhões) de dólares. Agora, você pode juntar as duas peças do quebra-cabeças: se um país tem uma dívida imensa, e todos os meses "gasta mais do que ganha" (isto é, tem "rombo"), só poderá pagar os juros e outros compromissos com novos "papagaios", ou emitindo, moeda, o dólar, no caso, que por isso deveria estar "valendo" cada vez menos. Isto é, deveria ser desvalorizada — como aconteceu com o Real.

Agora, com o crescimento do "rombo", a ameaça de desvalorização do dólar no mercado mundial está virando uma realidade, já refletida, por exemplo na violenta alta da moeda japonesa, o iene. Banqueiros, investidores, credores passam a vender seus dólares, para comprar ienes ou moedas européias, e começam a vender títulos do governo ou ações de empresas norte-americanas, para fazer investimentos mais seguros em outros países. Por isso o dólar e as Bolsas dos EUA desabam. Pode, anotar: 1999 vai ser o ano da crise norte-americana.



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