Jornal Diário Popular , dezembro de 1999
O governo FHC está irritado com as previsões de que a inflação vai continuar ameaçando. Para o ministro Pedro Malan, é preciso parar com essa mania de olhar a inflação só de uma semana, ou um mês, e avaliar as tendências de médio prazo. Se o ministro Pedro Malan seguisse os conselhos do ministro Pedro Malan, o Brasil lucraria muito, pois esse é, exatamente, o defeito do governo FHC: todo e qualquer problema que aparece nos últimos anos foi sempre classificado com “passageiro”, “insignificante”, cometendo-se erros de diagnóstico que levaram o País ao buraco atual.
Se o ministro Malan não se lembra, a sociedade não se esqueceu de que em 1994 e 1995, quando as importações dispararam e começaram a provocar “rombos” na balança comercial (exportações menores que as importações), ele e seus colegas de equipe diziam exatamente isso: o rombo é temporário, só os ignorantes não entendem isso, porque os resultados semanais ou mensais nada significam, é preciso olhar a tendência de longo prazo etecetera e tal. A vaca foi pro brejo, o Real desabou, a indústria foi engolida.
A mesma coisa com a recessão e com o desemprego. O presidente da República, em outubro de 1995, dizia ter “vontade de gargalhar” quando ouvia alguém falar em recessão. E o governo “plantava”, nos jornais da TV e em revistas mau-caráter, reportagens dizendo que o desemprego era “localizado”, só em São Paulo e Sul do país, porque as indústrias “estavam indo para o Nordeste.” Hoje, o desemprego chega aos 20% também no Nordeste, inclusive no Salvador de ACM, e o total de vagas fechadas pela indústria chega a astronômicos 2,1 milhões.
Incapaz de rever caminhos, ou impedindo de rever caminhos por seus “comandantes” dos países ricos, o governo FHC ainda se dá ao direito de “dar lições” a quem aponta riscos de sua política. Pior ainda: o governo FHC continua a tratar a sociedade brasileira como um bando de imbecis, repetindo manobras para segurar o valor do dólar, como já tinha feito no final de 1998, para garantir os resultados eleitorais. O povo brasileiro, sem saber, está pagando um alto preço por essa nova palhaçada, que apenas adiará nova crise do Real.
O Banco Central está vendendo maciçamente dólares no mercado, queimando reservas e conseqüentemente abrindo caminho para o enfraquecimento do Real – a médio prazo, como diria o ministro Malan. Está vendendo títulos com valor em dólar, ampliando o “rombo” do Tesouro. E mesmo assim está sendo obrigado a vender também títulos cada vez mais altos – acima de 22% anteontem, terça-feira. Então, alguém deve avisar o ministro Malan: a médio prazo, ministro, a médio prazo todas essas manobras, toda essa palhaçada, somente aumentam a estabilidade da economia, abrindo caminho para mais inflação. Quando o governo FHC vai abandonar essa palhaçada e adotar nova política econômica?