Revista Visão , quarta-feira 11 de setembro de 1991
A próxima semana poderá ser de festa para o ministro Marcílio e sua equipe. E, também, o grande desafio de sua atuação frente ao Ministério. Festa porque, com 90% de probabilidade, começarão a surgir índices mais baixos de inflação, para os casos em que eles são divulgados semana a semana (embora relativos a quadrissemanas, isto é, refletindo taxas mensais de inflação). Desafio, porque será o momento de o ministro dar início a um processo de redução das taxas de juros, que chegaram a níveis exageradamente altos e poderão, por isso mesmo, acabar tendo conseqüências inflacionárias. Tão logo, portanto, surjam informações mostrando um declínio na inflação, a equipe econômica deverá capitalizar esse resultado, proclamá-lo intensamente e mostrar – sobretudo – que não se trata de um recuo temporário, e sim de uma tendência que se consolidará, se a maré da histeria que havia tomado conta do debate econômico entrar em processo vazante. Como prever, ou afirmar mesmo que os índices devem entrar em baixa? Além de todos os fatores favoráveis da evolução da economia (relacionados nesta coluna na semana anterior), veja-se o que já está sendo mostrado pelos dados estatísticos da Fipe, que calcula a taxa de inflação em São Paulo. Eles mostram, antes de mais nada, que a aceleração de reajustes de preços, provocada pela histeria nacional, já perdeu força, ficando para trás em muitos casos: para Educação, a taxa de alta recuou de 16,2% para 13,8% entre a segunda e a terceira quadrissemanas de agosto; para Saúde (remédios e médicos) a mesma coisa: queda de 14,7% para 11,45%; para Vestuário, recuo, de 9,98% para 8,51%, naqueles períodos. Permaneceram em alta, mas com aceleração modestíssima – nos estertores, para ser correto – os índices de Alimentação, Despesas pessoais e Habitação. E é exatamente do item Alimentação, que pesa quase 40% no cálculo das taxas de inflação no país, que já na próxima semana devem surgir motivos de alegria para o ministro – e para quem está farto das previsões pessimistas. Os dados relativos aos preços pesquisados pela Fipe na terceira semana de agosto já mostravam que estava ficando para trás o auge do impacto da alta dos preços da carne e derivados, bem como do leite e derivados (com aumentos de 100% em junho/julho/agosto). Este simples fato – esgotamento do impacto dos reajustes “velhos”, de meses anteriores – já seria suficiente para dar início ao processo de redução das taxas de inflação. Mas a situação é ainda mais favorável: não só os reajustes de alimentos estão caminhando para níveis abaixo da inflação do mês (o que puxa a taxa futura para baixo), como começou o processo de redução de preços e produtos, em cruzeiros mesmo. É o caso das próprias carnes. Na segunda-feira, a maior rede de supermercados do país deu início à venda de carne bovina com redução de até 18% para os tipos mais nobres, e de 14% para a carne de primeira comum. A partir desses níveis, pode-se concluir que mesmo em plena entressafra o mercado de carnes acusa declínio, já que a rede varejista certamente só está oferecendo descontos tão substanciais graças a preços mais baixos obtidos também junto aos frigoríficos fornecedores. A tendência de queda não se limita à carne bovina. Para suínos, houve queda de 10% no Sul. E a produção de frangos, nestas próximas semanas, será recorde. Como conseqüência do novo quadro no mercado de carnes, também os embutidos (os tradicionais frios) apresentam uma reviravolta no comportamento dos preços: de 20 produtos, nada menos de 16 apresentaram altas de preços inferiores à faixa dos 14% para qual a inflação se encaminhava, o que significa que ela tenderá a recuar. Assim, mais do que o próximo índice da Fipe ou mesmo o celebérrimo IGP-M da Fundação Getúlio Vargas, o que deve merecer a atenção da equipe ministerial é o comportamento dos preços de determinados alimentos, de grande peso nos cálculos das taxas de inflação. Eles devem ser diariamente acompanhados por técnicos do Ministério, para pronta avaliação da queda e seus efeitos sobre os índices, permitindo que Brasília faça simulações sobre a taxa de inflação futura com toda a segurança. Poderá, então, reduzir prontamente as taxas de juros, para evitar que elas puxem os preços para cima – num momento em que, até ironicamente, a tendência das taxas de inflação é declinante. Sem choque. E apesar da histeria.