Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 23 de março de 1979
O empresariado brasileiro e suas entidades de classe poderão ser colocados, dentro de poucos dias, diante de uma questão concreta, real, e que exigirá resposta imediata: a classe empresarial prefere um "tratamento de choque" na luta contra a inflação, com recessão, falências de empresas, desemprego, crescimento das tensões sociais, ou está disposta a dar alguma contribuição concreta para que o ritmo de alta de preços reduza a sua velocidade? Nas áreas oficiais, em Brasília, predomina, agora, a certeza de que a inflação brasileira deixou de caracterizar-se por fatores de ordem econômica e que (em tese) podiam ser enfrentados com as armas da teoria monetarista.
Agora, é o pensamento corrente na capital federal, a alta de preços está sendo determinada por forte componente psicológica: a expectativa inflacionária tomou conta da economia, de novo, e os reajustes de preços estão sendo feitos de forma injustificável e irrazoável. 0 clima de exacerbação inflacionária, segundo o diagnóstico também de ministros não situados na área monetária, foi alimentado neste começo de ano por uma sucessão de acontecimentos: a fase de transição de governos, as inundações e a seca (que não afetaram decisivamente as safras, mas abriram caminho para especulação), o nível dos reajustes salariais que vão sendo concedidos, o próprio destaque dado aos índices de preços de janeiro e fevereiro (que foram usados para projeção de tendência para o ano todo, o que está errado) e, evidentemente, os desdobramentos do processo de abertura democrática.
Isso é tudo? Não: na base da questão, nessa visão oficial está ainda um fenômeno muito mais amplo, visto mesmo como a questão fundamental para a vida econômica (e futuro político do País), hoje, a saber, o total isolamento a que o governo está confinado, com os canais de comunicações, com a sociedade destruídos por anos de "regime fechado" e decisões impostas de cima para baixo. Não é apenas a credibilidade do governo que foi afetada nos últimos anos, dizem os diagnósticos oficiais, mas a própria "vontade de participação" por parte da coletividade, que não oferece qualquer resposta, qualquer suporte, a iniciativas governamentais, num alheamento que se torna particularmente dramático no terreno do combate à inflação, onde o comportamento de cada um acaba determinando o índice de aumento de preços.
Essa falta de credibilidade, de interesse mesmo, está patente na repercussão, quase nula, do pacote de medidas já adotadas (é apenas o começo) para combater a inflação. Ao realizar cortes no orçamento, ao reduzir os gastos estatais, ao aumentar a redução da dívida interna, ao reduzir os juros das Letras do Tesouro Nacional, o governo, no entender de autoridades de Brasília, procurara reduzir os eventuais focos de inflação em sua própria área. Mas esperava-se, principalmente, que as decisões servissem para uma "reversão de expectativas", um embrião de credibilidade com pronta resposta da classe empresarial, e um abrandamento no clima inflacionário. Nada disso aconteceu, por ora, deixando nas áreas oficiais a impressão de que, hoje, a comunidade empresarial e a sociedade brasileira como um todo, acreditam que o governo possa, magicamente, reduzir o ritmo de alta de preços — mesmo que, em todas as áreas, os reajustes injustificáveis continuem a ocorrer.
A frustração que essa falta de resposta coletiva trouxe às esferas do governo vai-se transformando em preocupação intensa, na medida em que se aproxima a data de divulgação dos índices de preços do mês de março, e que podem reforçar as expectativas altistas. Esperando evitar o pior, a máquina do governo já se prepara para violenta arrancada antiinflacionária — da qual as ameaças do ministro Delfim Netto contra os especuladores com hortifrutigranjeiros foi um "trailer". Mas, tendo em mente aqueles dados hoje estruturais — falta de credibilidade do governo e inércia coletiva —, teme-se que, fracassando também esta tentativa, não reste ao governo senão a alternativa de um "tratamento de choque" a que ele procurou e procura fugir até agora.
Essas perspectivas dramáticas são um alerta à classe empresarial. Pode parecer utópico sugerir a entidades de classe que se reúnam com urgência para debater a questão e, mais ainda, para verificar que contribuições concretas podem dar, já, para a redução da expectativa inflacionária. Na verdade, porém, as grandes vendas dos últimos meses e os lucros daí decorrentes permitem acreditar que, em alguns setores, as empresas poderiam, coletivamente, decidir por reduções de preços — e, sobretudo, da margem de intermediação. A decisão — que teria reflexos positivos em cadeia — nada teria de magnânima ou cristã. Seria, isso sim, um ato de inteligência. Para evitar o pior.