Jornal Folha de S.Paulo , domingo 16 de dezembro de 1984
Desde o “boom” e posterior desabamento das cotações nas Bolsas de Valores, no início dos anos 70, o investidor comum voltou a encarar este mercado como algo “misterioso”, marcado por grandes “jogadas”. Enquanto o grande público se afastava das Bolsas, os aplicadores tradicionais continuavam a realizar lucros, ora modestos ora inimagináveis, isto é, variáveis de acordo com as próprias fases atravessadas pela economia e, conseqüentemente, pelo mercado de ações. A partir do final do ano passado, a progressiva recuperação da economia abriu nova temporada de grandes lucros para os aplicadores insistentes; as ações, que estavam com preços extremamente baixos, começaram o processo de alta reforçado pela divulgação de balanços trimestrais que mostravam lucros crescentes – após, muitas vezes, um ou dois anos de prejuízos para as empresas. Segundo levantamento da Bolsa de Valores de São Paulo, de dezembro de 1983 a novembro último, houve ações que proporcionaram lucros de até 7.123% a seus compradores, isto é, quem aplicou Cr$ 1 milhão em dezembro de 1983, havia multiplicado seu capital em 71,73 vezes, em novembro último, isto é, o Cr$ 1 milhão havia virado Cr$ 71,73 milhões, onze meses depois; e quem aplicou Cr$ 10 milhões, apurou o equivalente a Cr$ 717,3 milhões, no caso dessa ação. (v. tabela)
Como foi possível obter lucros assim fabulosos? A “lucratividade” de uma ação não é representada apenas pela “alta” de suas cotações em Bolsa, isto é, pela sua “valorização” na Bolsa. Além desta valorização, os lucros dos compradores são representados também por três outros tipos de rendimentos, que dependem exatamente dos lucros obtidos pelas empresas em seus negócios.
* Os “filhotes”, ou bonificações, que são ações distribuídas de graça, pelas empresas, a seus acionistas, sempre que elas fazem um aumento de capital através da utilização de lucros acumulados (“reservas”) ao longo de anos.
* Os “direitos de subscrição”, isto é, a preferência que os acionistas têm para comprar ações novas, quando uma empresa decide aumentar seu capital. Estas ações novas podem ser compradas, geralmente, pelo preço “real” da ação, isto é, mesmo que ela esteja cotada a Cr$ 4 nas bolsas, por exemplo, o acionista pode comprar a ação nova por Cr$ 1 lucrando 300%.
* Dividendos: lucros distribuídos aos acionistas (como se fosse uma espécie de “juros” sobre o dinheiro gasto na compra das ações) Como descobrir, a partir destes três fatores de “lucratividade”, as ações que podem oferecer ganhos ao investidor? Essa continua a ser a questão que o cidadão comum, não habituado às operações em Bolsa, não consegue responder. Por isto mesmo, as Bolsas de Valores, sobretudo de São Paulo, vêm estimulando a formação de “clubes de investimentos” para a compra de ações. Grupos de amigos, colegas de trabalho, familiares, formam uma espécie de “mini-fundo de investimentos”, com cada participante assumindo o compromisso de aplicar, por exemplo, Cr$ 100 mil por mês em “quotas” deste clube. O dinheiro coletado e aplicado na compra de ações, através de corretoras que podem, inclusive, assumir a incumbência de administrar o “clube”, para seus quotistas.