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  Inflação, uma vitória?

Jornal Diário Popular , sexta-feira 10 de março de 2000


Toda e qualquer sugestão para reduzir o desemprego e abrandar a recessão é prontamente rejeitada pelo governo, com um argumento fulminante: ‘‘Isso não pode, porque traz a inflação de volta.’’ Uma desculpa, sempre espertamente completada com a pergunta: ‘‘Vocês querem o descontrole da inflação?’’

Ora, o povo brasileiro está sendo tratado como criança, que os adultos atemorizam com um ‘‘bicho papão’’ — que não existe. A principal causa da inflação brasileira, antes do Plano Real, e da qual poucos ainda se lembram, era uma só: a correção monetária, isto é, o reajuste automático de preços, tarifas, aluguéis, contratos, salários de acordo com a ‘‘inflação velha’’, dos meses anteriores.

Naquela época, qualquer aumento de preços do feijão por causa de uma seca, por exemplo, aumentava as taxas de inflação do mês — e tudo era reajustado com base nessa alta. Mesmo depois que o governo Collor extinguiu oficialmente os índices de correção monetária, substituindo-os pela desastrosa TR, a cabeça dos brasileiros, de fazer reajustes automáticos nos preços, não mudou.

Hoje, essa mentalidade não existe mais. O que provocou a mudança? O Plano Real? A resposta é negativa. Empresas e população em geral abandonaram a prática de reajustes automáticos por um motivo determinante: a crise prolongada, a queda nas vendas, o desemprego, que tornaram impraticáveis os reajustes de preços e até abriram caminho para o achatamento dos salários e rendimentos em geral da população (segundo o próprio IBGE, no ano passado eles ficaram 8% abaixo dos níveis de dez anos atrás).

Isso significa que o governo está certo, ao manter a política recessiva como arma para evitar o ‘‘descontrole inflacionário’’? Absolutamente, não. Em qualquer país, quando um problema qualquer faz a inflação disparar, o governo pode aplicar um ‘‘aperto recessivo’’, temporário, para esfriar a economia, reduzir as vendas, derrubar os preços. Mas é um remédio amargo, temporário. Basta olhar, por exemplo, os países que enfrentaram crises mais violentas que as do Brasil, como a Rússia ou a Coréia do Sul e outros países asiáticos. Todos eles passaram a combater a recessão há muito tempo, e suas economias já voltaram a crescer aos saltos, na faixa de 8% a 9% ao ano — sem que a inflação voltasse. No caso da Rússia, em particular, sua economia sofreu uma alta de preços de mais de 40% em uma única semana, com a crise de agosto de 1988, e acumulou uma inflação de mais de 120% nos últimos três meses daquele ano. A partir daí, mesmo com o crescimento econômico, a inflação russa vem caindo mês a mês.

O Plano Real já vai completar seu sexto aniversário, o hábito de corrigir preços automaticamente já está esquecido, o Brasil passou a ser um país igual aos outros. Não há nenhum motivo para o governo FHC continuar condenando a economia à recessão, o povo brasileiro ao desemprego, sinônimo de miséria para milhões de famílias, e chegando a festejar ‘‘a inflação negativa, abaixo de zero’’. Afinal, que vitória é essa?



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