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  Tadinhos dos cavalinhos...

Jornal Diário Popular , terça-feira 23 de maio de 2000


Manhã seguinte à pancadaria na avenida Paulista. O jornalista Daniel Lobato sentou-se em sua cadeira favorita, abriu os jornais — e seu queixo caiu. Não dava pra acreditar. Na capa de um caderno de jornal, uma fotografia tomando toda a extensão da página, e quase a metade da sua altura. O que ela mostrava? As cenas de violência da véspera, que Daniel Lobato havia presenciado?

Ele até se havia lembrado do auge da ditadura militar, às portas do Ato-5, em l968: a ‘‘tropa de choque’’ da PM avançando pelo asfalto, atirando bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, com soldados montados a cavalo investindo firmemente contra os manifestantes. Balas de borracha zunindo, sangue escorrendo pelo rosto ou corpo das pessoas, paus, pedras, cocos contra armas modernas. No passado, mesmo em plena ditadura, antes do ‘‘fechamento’’ dos anos 70, toda essa violência mereceria uma cobertura fantástica da imprensa pátria, ansiosa ela também pela redemocratização.

Mas não foi nada disso que Daniel Lobato viu nos jornais do dia. A foto gigantesca não retratava a briga coco versus balas. Não. Nem pessoas ameaçadas de pisoteamento pelos cavalos. Não. Na meia página de jornal, surgia um único manifestante, fotografado do peito para cima, mão erguida à altura da cabeça, empunhando uma pedra, prestes a atirá-la. É a moderna grande imprensa brasileira, pensou com seus botões um desolado Daniel Lobato: como sempre, está fazendo o jogo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Com essa foto, faz a opinião pública esquecer da truculência da repressão, e reforça a idéia, vendida pelo governo, de que o País está sendo tomado pela ‘‘baderna’’ e pelos baderneiros — e justificando medidas cada vez mais antidemocráticas dos governantes. Mal refeito do espanto, Daniel Lobato voltou seus olhos para uma outra grande foto, situada pouco abaixo na página. O que ela mostrava? Grupos de estudantes, funcionários, professores, mulheres, homens, jovens, sem armas, roupas comuns, cara e coragem tentando defender-se das bombas, dos cassetetes, dos cavalos, Davis contra Golias valendo-se do que tinham à mão, pedras, cocos, pedaços de pau — totalmente inúteis contra o capacete, o ‘‘uniforme blindado’’, os escudos dos repressores — e seus magníficos cavalos de raça.

Não. A foto era bem outra. Mostrava soldados da Tropa de Choque, parados em círculo, defendendo-se com escudos. Na legenda, a informação do jornal: ‘‘Soldados da tropa de choque, acuados pelos manifestantes, tentam se proteger’’. Na imprensa de FHC, os repressores são as vítimas. Enojado com tanta manipulação, Daniel Lobato dobrou o jornal. Abandonou a leitura, temendo encontrar, na página seguinte, a foto de cavalos pisoteando cidadãos brasileiros, e encontrar manchetes assim: ‘‘ Baderneiros assustam os tadinhos dos cavalinhos’’. Neoliberalismo, neojornalismo. Fujimori adoraria. E FHC/Covas?



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