O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Uma universidade na redação
por Nilson Gomes

Diário da Manhã, 22/07/1994

Ganhador de dois prêmios Esso de Jornalismo, Aloysio Biondi reforça o DM com seu talento, experiência e capacidade de se indignar

O jornalista Aloysio Biondi é o crítico que nenhum ministro da Fazenda gosta de ter e o calo que eles têm, ainda que não queiram. É assim desde 1956, quando foi aprovado em concurso público para redator-final da extinta Folha da Manhã, hoje Folha de São Paulo. Três meses depois, trabalhava em jornada dupla: das 8 h às 18h, dirigia sucursais: daí até o fechamento do jornal, era editor de Economia. Com a mesma disposição e uma jornada de trabalho pouco menor, Biondi é o novo editor-geral do Diário da Manhã, onde esteve por três meses em 1983.

Quem lê seus textos e não sabe que tem 57 anos de idade, pode imaginar que tamanha indignação venha de jovem iniciante, recém-saído da faculdade. Não. Biondi sequer tem curso superior (fazia Sociologia na Universidade de São Paulo, mas não agüentou mais que um ano). As críticas ácidas diferem porque têm dados irrefutáveis.

Biondi começou a recortar jornais aos 13 anos. Aos 9, já lia o tempo todo. Coleta informações de onde quer que venham, cruza-as e parte para o abraço. De tamanduá, porque desmente todas. Não se compactua com a política do “sim senhor”, que domina a imprensa brasileira.

Filho do italiano Pedro Biondi e da mineira Dulce, tem cinco irmãos: Amaury e Silas, comerciantes; Marizia e Guido, professores; e Solange, secretária. Pedro morreu em 1970, após o tri no México; Dulce permanece firme e forte, aos 83 anos. Foi casado com a artista plástica Ângela Leite, que em 1973 começou o movimento de defesa das baleias. Tem três filhos: Pedro, 18, entrou este ano na Escola de Comunicação e Artes da USP, onde cursa jornalismo; Antonio, 16; e Bia, 15.

As fortes ligações com os filhos pesaram na hora de se transferir para Goiânia. Mas mudou de mala e cuia e veio pra ficar:

- A meta é transformar o DM num jornal de repercussão nacional.

Para isso, vai aproveitar o pessoal de que dispõe, com novo direcionamento e responsabilidades. Tivesse aceitado os conselhos da mãe, Biondi estaria rico no ramo hoteleiro, mas insiste com o jornalismo. Acredita que a imprensa tem o papel social de informar para transformar a situação do povo. Uma das razões de optar pelo DM foi a de ter um patrão jornalista (o diretor-geral Batista Custódio), “preocupado com a ética”.

A ética é tão importante para Biondi que sua regra é duvidar. A notícia, diz, deve ganhar as ruas apenas depois de checada e analisada, para não induzir ao erro.

Nem sempre a imprensa se interessa por analisar a aparência. Um exemplo:

- Os tecnocratas dizem que há um rombo no Tesouro, que é a causa da inflação. Combati essa mentira e hoje até Delfim Neto, que a usou à exaustão em seus diversos ministérios, concorda comigo.

Não gosta amizade com políticos, por isso rejeita propostas para assessorar equipes econômicas (um emissário de FHC recebeu um sonoro “não”). Garante que político trata bem os jornalistas que lhe dão respaldo; aos críticos, haja ante-sala para tantas horas de espera.

Biondi se preocupa com as loucuras dos economistas, ainda que sejam sociólogos. Há alguns meses, leu na Folha de São Paulo que FHC parcelará em sete anos o Cofins, dinheiro da previdência e da saúde. Teve uma crise de hipertensão e começou a gritar impropérios contra o então ministro. Estava dentro de um ônibus e a platéia ouviu as primeiras palavras do que seria um de seus mais contundentes artigos. “Carta aberta ao professor Fernando Henrique Cardoso”. Voz firme, conversa agradável, língua ferina, Biondi enriquece o jornalismo goiano com sua experiência e credibilidade. Os tecnocratas não perdem por esperar.

“PLANO REAL É COMO OS OUTROS, SÓ QUE PIOR”
A cena se repete a cada dois anos.

Um bando de economistas sisudos convoca a imprensa, anuncia medidas que prejudicam meio mundo e sai direto para o Olimpo do amém.

Aloysio Biondi diz não. Quando o presidente José Sarney e seu ministro da fazenda Dílson Funaro lançaram o Plano Cruzado, em 1986, apenas meia dúzia de três ou quatro analistas econômicos discordou. Entre eles, Biondi.

- Nunca apoiei os planos de estabilização, porque são todos iguais, mas o cruzado e o real foram os mais criminosos – acredita Biondi.

Maior crime de Sarney/Funaro: perdoar dívidas de especuladores, grandes empresários, usineiros e industriais, reduzindo em até 80% milhões de dólares que o Estado receberia.

Como o cruzado, foi criada a falsa expectativa de que “todos conseguiriam o que quisessem”. Mais uma vez, os pobres entraram bem. Biondi chama de mentiroso quem culpa o consumo excessivo pelo fracasso do plano.

Nos demais pacotes, as mesmas fórmulas e o mesmo protesto de Biondi. No Plano Collor, diz que a então ministra Zélia Cardoso “fez o que deveria fazer”: tirou o dinheiro de circulação. Acertou na concepção, errou na execução.

Zélia deveria ter imitado o Imposto de Renda. Quem tinha mais, teria mais dinheiro retido.

A Fernando Henrique Cardoso e seu Plano Real, bombardeio incessante. Segundo Biondi, a vaidade da equipe econômica de Itamar decretou o fracasso da crônica de um pacote anunciado. Se FHC tivesse seguido o ex-ministro do Trabalho Walter Barelli, que defendia reajustes pré-fixados, poderia ter dado certo. Mas não renderia voto, porque a inflação seria reduzida gradualmente e a candidatura de FHC exige impacto para o público.

Biondi rebatizou o Plano Real, porque acredita em “estelionato”: os empresários passaram um ano aumentando preços na expectativa de um congelamento, que não houve:

- O Plano Real é igual aos outros, só que pior, porque nos ameaça com uma recessão, e a quebradeira começou já no primeiro mês.

“A HISTÓRIA DOS GRANDES PRÊMIOS”
Em 1967, Aloysio Biondi saiu de São Paulo pela primeira vez, para ser editor de Economia da Revista Visão, no Rio.

Na viagem entre as duas cidades observou que as serras estavam sendo devastadas, com as árvores naturais sendo substituídas por eucaliptos. Pesquisou e descobriu que grandes empresas ganhavam do governo para desmatar. Escreveu a reportagem, criticando os incentivos que provocavam desastres nos cofres públicos e no meio ambiente. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo Econômico.

Em 1970, fez uma série de quatro reportagens sobre Imposto de Renda, com explicações minuciosas, publicadas na revista Veja. Mais um Prêmio Esso.

- Foi um reflexo da política autoritária. No período pós-AI-5, as análise econômicas foram substituídas pelo jornalismo de serviço.

A receita para merecer o mais importante prêmio do jornalismo brasileiro é simples, segundo Biondi: basta ter “olhos de ver”.

“LIGAÇÕES PARA O BOM JORNALISTA”
Aloysio Biondi resume em uma palavra a obrigação de quem trabalha na imprensa: duvidar. Veja dez dicas extraídas de quatro décadas de experiência:

- Ter cabeça aberta
- Não pré-julgar a favor nem contra
- Rejeitar modismos, desses que aparecem a cada estação e se repetem em círculos, infinitamente
- Duvidar e ter a continuada capacidade de se indignar
- Não ter medo do isolamento por não pertencer a grupos
- Trabalhar, trabalhar, trabalhar
- Ler, ler, ler
- Pesquisar, acumular dados, para discordar com segurança
- Não ser um cético vesgo, que só duvida das coisas boas
- Acreditar que vale a pena, mesmo que aspectos de sua vida sejam sacrificados.



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