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  Otimismo excessivo? Cuidado com ele

Revista Nova , outubro de 1982


Em 1979, o México descobriu gigantescas jazidas de petróleo em sua plataforma submarina, provocando imensa euforia na população. Técnicos do governo mexicano tentaram aplicar uma ducha de água fria no otimismo exagerado, e aconselharam:

- Vamos fazer planos para usar muito bem o dinheiro do petróleo. Vamos até evitar o aumento muito rápido na produção e nas exportações, para não termos problemas no futuro.

Por que tanta cautela? É simples: quando um país aumenta rapidamente suas exportações, que são pagas em dólares, isto provoca inflação e – o que parece paradoxal – aumento da dívida externa.

Não há mistério nenhum nesse fenômeno. O rio de dólares que começa a entrar no país, de uma hora para outra, significa aumento da renda do governo, aumento da renda da empresa produtora do petróleo – que começam gastar, realizar obras e investimentos, numa escala muito maior do que antes do “aquecimento”. Esses gastos, logicamente, representam crescimento nas encomendas às fábricas ou empresas prestadoras de serviços, que também aumentam seu volume de compras – com ampliação do nível de emprego em todas as áreas, do governo até as empresas, o que significa maior renda para a população, aumentando o consumo de todos os bens. Há, em resumo, efeitos em cadeia dentro da economia, com verdadeira explosão de consumo. Tudo isso ocorre em curto espaço de tempo, surge uma onda de tempo, surge uma onda de carestia: não há fábricas com capacidade para aumentar rapidamente a sua produção (o fenômeno equivalente ocorre com a agricultura), e, diante da “corrida” dos consumidores, estabelece um verdadeiro “leilão” de mercadorias, com majoração de seus preços.

Assim, o enriquecimento súbito de uma país pode provocar a inflação. Mas, e o aumento da dívida externa? Por que ele ocorre? Com o aumento da renda da população e a explosão do consumo, surgem as importações de mercadorias que antes não tinham compradores. Isto, numa primeira etapa. Logo a seguir, verificando que existe mercado comprador para esses produtos, as empresas se interessam em fabricá-los no próprio país – e começa a importação de máquinas para instalação de fábricas, matérias-primas, peças, componentes. As indústrias, finalmente, exigem que o governo construa ou amplie ferrovias, sistemas de telecomunicações , usinas hidrelétricas, etc – e para isto o país recorre novamente a importações e empréstimos. A dívida também dispara.

Foi tudo isso que os técnicos mexicanos quiseram evitar. Não foram ouvidos e, no começo deste segundo semestre, seu país apresentava uma das maiores dívidas externas do mundo (100 bilhões de dólares). Não podendo mais pagar as prestações e juros desses débitos, foi obrigado a renegociá-los com os credores, que exigiram uma política de “cintos apertados”, sinônimo de recessão, desemprego e problemas sociais para o povo mexicano.

A crise do México trouxe uma grande lição a que o Brasil deve atentar, especialmente nestes próximos meses, em que o país terá que rediscutir a sua política econômica. Apesar de rico em petróleo, o México chegou à insolvência por falta de uma política econômica racional. O Brasil vem aumentando sua produção de petróleo, mas durante muitos anos ainda gastará bilhões de dólares com a importação do produto. Precisa mais ainda, portanto, de seriedade, já que sua dívida externa também é ameaçadora, devendo esperar os 80 bilhões de dólares até o final deste ano, ficando cada vez mais difícil pagar os seus juros e prestações.

Acontece que, como o exemplo mexicano mostrou, poderosos interesses podem levar a opinião pública a rejeitar ponderações, e dar ouvidos aos otimistas que procuram evitar grandes mudanças na orientação da economia.

O risco é grande, no Brasil, onde mesmo áreas intelectuais, bem intencionadas, insistem em que é necessário estabelecer com prioridade, a manutenção do ritmo de industrialização do país. Em outras palavras, defende-se que o governo, a Nação, mais uma vez, crie privilégios para o setor industrial – como perdão de impostos, crédito também favorecido (idem, ibidem) para a “modernização” – e, até, o achatamento dos salários dos trabalhadores, para aumentar os lucros e permitir que as empresas cubram os gastos com a expansão e modernização.

Essa proposta trará sacrifícios para toda a população, a pretexto de que só a industrialização trará o desenvolvimento econômico – o que é falso (v. NOVA, julho de 1982, página 26, “A Ameaça dos Robôs”). O Brasil precisa, exatamente, dar prioridade aos setores que criem empregos – como a agricultura, pois o aumento da renda dos trabalhadores desses setores manterá a economia em crescimento. Sem provocar o aumento incontrolável da dívida externa – e uma crise semelhante à mexicana. Mais do que nunca é preciso resistir ao “canto das sereias”.



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