Revista Imprensa, Agosto de 1988
Ao completar 33 anos de trincheira, o combativo jornalista Aloysio Biondi continua alerta. Perdeu algumas batalhas, mas não a guerra.
As primeiras rajadas não puderam ser ouvidas. Ficaram ricocheteando na consciência daquele adolescente caipira que de forma insaciável mergulhara nas obras de Monteiro Lobato para dali emergir com um profundo interesse pelo seu país e uma visão crítica construtiva que, ao longo dos anos, o transformariam num nacionalista obsessivo, sentinela e guerreiro que demarcou o jornalismo como campo de batalha e optou pela pena como arma. Despontava assim, na pacata Caconde, no interior paulista, o brasileiro Aloysio Biondi, neto de italianos, filho de hoteleiro, segundo de uma prole de seis, hoje já aos 52 anos, casado e três filhos, e no fim de sua segunda carteira de trabalho.
Confessa-se um pouco chamuscado. Na minha opinião, devia dar graças a Deus de ainda estar vivo. Ignorando, por princípio, a patente do inimigo, e ao não poupar munição contra a empulhação econômica e política, o jornalismo superficial e de gabinete, o modelo concentrador, a ciranda financeira, os conservadores que imobilizam qualquer avanço social ou progressistas que fazem do pessimismo sua estratégia, o bravo Biondi muitas vezes recebe como resposta ao ratatatá de sua metralhadora algumas bombas de efeito imoral que já lhe tiraram bons empregos, calaram-no por algum tempo e feriram sua dignidade. Já foi acusado de tudo. Vem sendo absolvido pela história.
Sua história é feita de passagens tão rápidas quanto seu gatilho. Na Folha de S.Paulo começou como copy, foi chefe de produção, editor de economia e repórter especial – passou três vezes por lá. Revista Direção, Fator, Visão, Veja, Gazeta Mercantil, Correio da Manhã, Jornal do Comércio, Istoé, Diário da Manhã, de Goiânia, e, hoje, editor-geral do DCI e Shopping News completam seu extenso currículo. Nesta entrevista aos editores de IMPRENSA, Biondi dispara mais uma vez. Protejam-se!
Imprensa: Você é, há anos, uma voz discordante no jornalismo econômico. Isso não te cansa?
Aloysio Biondi: Digamos que eu tenha sido uma voz discordante de 79 para cá. Antes, talvez a discordância tenha vindo mais dos veículos para o qual eu trabalhava, que tinham uma linha toda de oposição, tipo Visão em 67, Opinião em 72, Jornal do Comércio em 71 e 72. Mas foi a partir de 79 que ficou clara minha discordância em função de um diagnóstico meu em relação aos problemas do Brasil, que não batia com o catastrofismo da imprensa em geral. Ultimamente, a discordância parece ser maior ainda. E não é que eu não canse. Eu acho que um jornalista de 52 anos, com 33 de jornal, não merece o castigo de continuar chefiando um jornal diário e saindo à meia-noite. Eu acho que, realmente, o cargo de chefia no jornalismo diário é para outra faixa etária. Mas quando penso em deixar o jornal diário e vejo as primeiras páginas de jornal feitas hoje, acho que ainda tenho um compromisso com a informação. Vou dar um exemplo: neste momento, mais importante do que a briga sobre se a inflação cai ou não, ou sobre o acordo com o FMI, é a política de modernização que o governo lançou e as diretrizes que o BNDES anunciou. Porque elas representam a volta ao modelo Delfim Netto, à filosofia concentradora. Então, fala-se em concentrar na informática e em áreas nas quais a experiência internacional mostra que a pequena e média empresa têm até mais chances do que a grande empresa de inovar tecnologicamente. O pretexto é o mesmo do Delfim: eu preciso ganhar escala para exportar. Hong Kong, Coréia, Formosa não aumentaram exportação a partir da grande empresa. Até em artesanato eles ganharam o mercado. Essa “nova” política brasileira, então, é anunciada sob o pretexto de modernizar a economia, e, inclusive, dessa vez eles descobriram um filão que agradou à opinião pública, que é criar a concorrência, acabar com os cartéis – do que eu sou a favor – e baratear o produto para o consumidor. Mas, na verdade, o governo vai financiar a concentração de renda, de propriedade, de novo. O Delfim criou na época dele os incentivos fiscais para fusões e incorporações. Agora, o BNDES não vai ter os incentivos fiscais, mas vai priorizar financiamentos para fusões e incorporações. Então, a política econômica está caminhando no sentido contrário, já que deveria se dirigir no sentido de evitar a formação de monopólio e oligopólio, que é mais do que reconhecido como uma das causas da inflação brasileira. Então, o BNDES soltou essas diretrizes e os jornais deram 60 linhas como se estivessem falando da morte da bezerra! Foi publicado quase da mesma forma que a notícia “Goodyear comprou uma máquina nova”. Só que é o tema fundamental daqui para a frente: o que vai ser do Brasil? Que modelo vai ser de novo? Vai concentrar renda? Vai voltar ao milagre? Isso já está aí, anunciado como diretriz oficial. Então, você perguntou se eu fico cansado. Eu não tenho cansaço. Quando você chefia jornais com essa linha bastante polêmica, discordando da orientação oficial, das distorções estruturais e da omissão da imprensa em relação às distorções estruturais, você apenas tem que impedir o cara de sentar na máquina e xingar a mãe do fulano. Não é isso. Você tem que sentar na máquina e analisar, não é só xingar. O que desanima é você saber que três anos depois esse mesmo cara estará regiamente pago numa grande editoria escrevendo as mesmas 60 linhas sobre as diretrizes do BNDES...
Imprensa: Por que isso acontece?
Biondi: Eu acho que, na verdade, as pessoas são muito radicais só mesmo enquanto não são chefia ou não estão na categoria de repórter especial. Ou eles são muito inteligentes ou eu sou muito burro. Alguma coisa está errada aí...
Imprensa: Eu gostaria que você detalhasse o que está errado no noticiário econômico.
Biondi: Primeiro, eu acho que acompanhar economia dá trabalho. Se você não consegue ler jornal num dia, você tem que ler no dia seguinte o jornal velho. Se você tirar férias, você tem que ler os jornais de 20 dias quando voltar. Como é que você pode ficar com um buraco na informação? É preciso fugir um pouco do chavão e tentar ver como as coisas são realmente. É não ter preconceito, ter cabeça aberta. No noticiário político você vê a mesma coisa: “a eleição do Jânio, a direita se rearticulou, vai tomar conta do Brasil!” Eu esperei dois meses e mandei um repórter ao banco de dados do Tribunal Eleitoral para provar que quem avançou mesmo foram o PT e o PDT, isto é, a esquerda. O Jânio era um fenômeno totalmente isolado, localizado. A Constituinte: se cansou de dizer que a Constituinte era conservadora, porque tinha sido a eleição mais cara do mundo. Aí a Constituinte começa a funcionar e o empresariado entra em pânico. Houve uma renovação de 60% e você continua dizendo que ela é conservadora. O único cara que analisou direito a vitória do Centrão foi o Jânio de Freitas, da Folha de S.Paulo, que mostrou que o Centrão tinha 110, 120 caras, e que na verdade tinha havido uma aliança com os demais. Os demais foram aqueles cujas emendas tinham sumido com o projeto do Cabral e eles queriam ficar com o nome deles registrado, para que quando fossem aprovadas eles explorassem aquilo no futuro. Então, você teve editoriais dizendo que a esquerda era uma porcaria, que tinha levado uma lição do Delfim... Acho que isso é herança da ditadura, a gente adere rapidamente a versões que são maniqueístas. É claro, há grandes interesses em desmoralizar a Constituinte; mas a maioria das vezes o jornalista ficou também impregnado desse negativismo em relação a tudo o que acontece no Brasil. Se existe uma coisa que me desagrada profundamente no jornalismo de hoje, não é o sarcasmo, é o deboche. Sarcasmo é uma arma. Mas o que se conversa com o empresário, com o político, vai desde sobre sua vida amorosa, se ele é motoqueiro ou não, esse tipo de coisa, como se o País fosse um grande pantanal. Não se discute a sério, não se leva ninguém a sério, se pensa em tom de deboche com relação às coisas.
Imprensa: Você acha que essa postura é puramente preconceituosa ou traz uma ideologia embutida por parte de jornalistas e patrões?
Biondi: A resposta é múltipla, todos esses fatores estão presentes. Para mim, jornal também produz informação. Por exemplo: a balança comercial começou a dar déficit no Brasil no começo do ano passado. Todo mundo disse: “A última coisa que segurava a economia era a balança comercial, e agora ferrou”. Nós, no DCI, pegamos três claras projeções para provar, inclusive em manchete, que era exagerado o pessimismo em torno da balança comercial brasileira. Por quê? Porque você estava fazendo o jogo do lobby da máxi. A gente fez projeção: a produção de soja é tanto, pode vender tanto; laranja pode vender tanto... e assim por diante.
Imprensa: E em dois meses a balança estava quebrando recorde em cima de recorde.
Biondi: É, você também produz informação. Agora, é muito mais cômodo você chegar da entrevista e reproduzir o que o cara falou, em vez de pesquisar. É preciso checar a tese que está predominando no momento. Vamos ver se ela é ou não verdadeira. Geralmente, no Brasil, em 90% dos casos a tese é furada. Ideologia existe tanto no caso do jornalista quanto no do jornal, e eu acho que, no caso do jornalista, ela é equivocada. O jornalista se volta para o pessimismo, como foi o caso no final da Velha República, porque ele acredita mesmo que esteja contribuindo para acabar com aquela coisa toda. Eu acho que isso não procede, porque você só democratiza democratizando a informação, na medida em que a sociedade como um todo fica melhor informada e é capaz de enxergar a realidade. Isso ficou claro este ano. Os principais argumentos contra a eleição presidencial este ano eram que a economia não ia agüentar. Então, quem ideologicamente acreditou que estava tudo horrível e que haveria um momento em que chegaria a hora do basta, e que com isso a gente teria eleição, renovação, na verdade acabou jogando contra seus próprios interesses.
Imprensa: Pode-se concluir então, que, com raras exceções, a imprensa é um organismo burro, que está servindo como porta-voz de setores da sociedade mais influentes, como os empresários, os políticos?
Biondi: Eu não seria tão veemente. Mesmo porque eu acho que houve uma mudança. Houve uma fase em que as minhas discordâncias eram encaradas até como provocação. O fato de você fazer jornalismo procurando retratar a realidade acaba fazendo você ser acusado de estar a serviço de não sei quem. Isso aconteceu comigo. Então, existia a negação daquilo que para mim é jornalismo. Hoje penso que isso não existe mais, já há um movimento dentro da própria imprensa questionando essas colocações.
Imprensa: Você se considera um franco-atirador. Nunca foi de partido, nunca foi engajado em nada. Você nunca se sujeitou a nenhum tipo de pressão, de esquerda ou de direita, que pudesse violentar a sua bandeira do jornalismo crítico e independente. Você acha que é por isso que surgiu essa animosidade contra você?
Biondi: Infelizmente, acho que é. Em 79 quando comecei a criticar nossos economistas, surgiram pressões com o argumento de que não era hora de dividir. Um dos grandes problemas do jornalismo do Brasil nos últimos anos é exatamente este: há muito componente ideológico forte no trabalho da notícia. Aparentemente, todo mundo quer defender a democracia e tem medo do retrocesso, mas o fato concreto é que essa postura tem sempre conduzido o jornalismo a fechar com teses do PMDB. Se surge o Partido Verde, ele é chamado de irracional, porque vai roubar voto da classe média. A melhor coisa que aconteceu na última eleição municipal de São Paulo foi que os cronistas políticos perderam. Porque eles não faziam crônica política, eles diziam que todo mundo que estava contra o PMDB estava favorecendo o fechamento. Em 78, a briga pela anistia era provocação aos militares; em 79, voltaram os exilados e era provocação aos militares... A volta do Brizola, tudo é provocação... Então, na visão dos cronistas políticos, existe uma tentativa de dizer para a sociedade brasileira que ela só pode fazer coisas, entre aspas, “que não provoquem o retrocesso”. Por isso, a derrota dos cronistas foi a melhor coisa que aconteceu nas últimas eleições paulistanas. A população não deu bola para eles. No fundo, a gente é elitista pra burro. O fato do radialista Afanásio Jazadji ter 600 mil votos é considerado atestado de que o povo não sabe votar. Em primeiro lugar, se democracia é pluralismo, tem que representar todas as camadas da população, e ela vai votar no candidato que parecer mais perto dela. Então, o povo renovou 60% do Congresso e a gente continua dizendo que ele não sabe votar. Que é o que o Figueiredo dizia.
Imprensa: A imprensa estimula isso?
Biondi A imprensa tem esse ranço.
Imprensa: Mas a imprensa não diz que o povo não sabe votar...
Biondi: Como não diz? Você vê nos editoriais o tom que a imprensa trata determinados candidatos. Por que o Jânio ganhou? Se você conversar com o povo, com o balconista, se você andar de ônibus, você vai saber. Eu sabia que o Jânio ia ganhar, e apostei no jornal que ele ia ganhar. Por que o povo queria a volta do autoritarismo? Não, porque o povo estava de saco cheio, porque não tinha condução, porque tivemos recessão, não tivemos frente de trabalho, porque o PMDB – e eu falo do PMDB porque é quem está no governo, que fique claro – sempre falou contra a recessão e fez o orçamento mais recessivo da história de São Paulo, prevendo que a economia ia mal, que o emprego não ia se restabelecer antes do ano 2000, e, por isso tudo, acabou não realizando nada. Não gosto do Brizola, mas ele fez coisas do tipo “mulher grávida entra pela frente do ônibus”, e isto é saber o mundo real do povão, que é pegar um ônibus onde cabem 70 e tem 140.
Imprensa: Você votou no Jânio?
Biondi: Não. Votei para presidente, mas, para prefeito, em hipótese nenhuma.
Imprensa: E no Quércia?
Biondi: Eu até convenci muita gente a votar nele, mas eu não votei.
Imprensa: Por que convenceu, então?
Biondi: Porque entre ele e o Antonio Ermírio, o Quércia era melhor. Politicamente era melhor. Todo o discurso do Antonio Ermírio é conservador demais para mim. No caso do Ermírio, sim, a gente teria um fortalecimento da ala conservadora.
Imprensa: Como é o seu relacionamento com os empresários? Você os visita, almoça com eles?
Biondi: Não. Eu procurei empresários, almocei com eles, quando estava na Folha de S.Paulo. Nas minhas chefias eu tenho cargas horárias imensas. Eu sempre pego coisas para reconstituir, trabalho muito, e, para dizer a verdade, não sou muito paciente. Eu vou almoçar com o cara, aí ele começa com toda aquela choradeira... Ninguém gosta de ser criticado. De ministros a empresários, todos acham que você analisa com isenção até o momento em que não pise no calo deles. Isso me lembra coisas inomináveis. Como repórter especial, fiz uma entrevista de quatro horas com o Funaro. Sempre tive a maior admiração por ele como empresário, pelas colocações dele. Nós, eventualmente, nos falávamos por telefone. Quando surgiu o Cruzado, eu fiz o primeiro artigo de apoio. Mas deixei a ressalva: “É um arrocho salarial”. E eles não sabiam que a economia ia crescer, que os salários iam crescer porque a economia ia crescer. Antes do Funaro fazer o Cruzado, eu criticava as coisas como sempre analisei. Em toda aquela briga Dornelles x PMDB, o Dornelles estava tentando fazer o que o Maílson está fazendo agora. Colocar um mínimo de ordem na casa. O PMDB acha que, se você controla gastos, está fazendo recessão. Inclusive quando eles reduziram o IR, no começo daquele ano, eu disse que era uma loucura, porque a demanda ia estourar. Era antes do Cruzado. E por isso passei a ser o persona non grata. Depois que assumi o DCI, o Funaro e os assessores dele nunca atenderam um repórter nosso, a não ser em coletiva. Esses são os democratas. Não quero falar mais, mas há coisas que você realmente não espera que aconteçam na sua vida.
Imprensa: Você recebe pressão dos políticos, dos empresários, do governo. Como você se posiciona politicamente no meio disso tudo?
Biondi: Eu me sinto como todo brasileiro. Gostaria que houvesse um partido novo, sério. Acho que o PT, num certo momento, representou essa esperança. Acho que o que ajuda o PT é que os analistas políticos chamam de ingenuidade, mas que na verdade é a tentativa de não fazer política fisiológica. Democracia é um pedaço de cada um, não precisa ser o poder. Mas o PT, o movimento sindical, eu vejo emburrecidos por bandeiras. Acho que o PMDB criou um partido de conchavos, de negociação. Ulysses é isso, um conchaveiro. É o medo, é o partido do medo. Tudo tem que fazer concessão, senão vai virar a mesa. Então você acaba realmente não fazendo nada de significativo, porque sempre vai virar a mesa. Seguramente, o meu partido não é o PMDB.
Imprensa: O que você procura passar para os jornalistas mais jovens?
Biondi: Jornal, para mim – e o nome está dizendo –, é veículo de comunicação. Mas não comunicação só do que é ruim. Ele tem que retratar o que está acontecendo. E ele deve também produzir informação e questionar informação. É a verdade. A sociedade avança pelo nível de informação que ela tem. Mas a nossa informação é asfixiada. Inclusive a maioria dos cronistas de economia são mesmo “cronistas de economia”. Está todo mundo falando e ele fala também, dando uma aparência de veracidade a uma coisa que não é verdadeira. Eu procuro dizer isso aí, como eu entendo o jornalismo. É claro que é difícil você convencer as pessoas de que está “jogando limpo”, está agindo com isenção. Mas as pessoas acabam acreditando, por terem liberdade de escrever. Mas tem que haver dados para se provar o que se falou. Por exemplo, dizer: “O BNH só financia casas de luxo”. Pega as estatísticas e você vai ver que aumentou o número de casas populares. Então, a primeira prova que os jornalistas têm de que minhas propostas são honestas é que eles têm um grau de liberdade – mas exercida com responsabilidade. Minhas reuniões de pauta são coletivas, com repórteres, fotógrafos, diagramadores. Eu acredito na democracia. A democracia é a melhor coisa para evitar fofoca, rumor, boato.
Imprensa: Você faz um jornalismo editorializado, contrariando a tese de que a notícia e o comentário têm de estar separados...
Biondi: Meu jornalismo é editorializado no bom sentido. Porque a nossa prioridade é dar a notícia, favorável ou desfavorável. A gente não seleciona. Por exemplo, a manchete “Terrorismo estatístico em torno da inflação. A quem interessa?” é editorializada. Eu estou colocando uma proposta de reflexão. Eu não estou dando uma resposta. A gente induz o leitor a refletir em cima daquilo.
Imprensa: Você não estudou economia nem fez faculdade de jornalismo. Você se considera um entendido em economia?
Biondi: O importante é trabalhar. Um dos principais problemas hoje é convencer um jornalista de que ele tem que ler jornal todo dia, ou pelo menos o setor que ele cobre. A única forma de acumular informação é acumulando informação.
Imprensa: Você se considera com conhecimento suficiente para ter uma discussão, por exemplo, com o ministro da Fazenda?
Biondi: Só vendo.
Imprensa: Mas você toparia?
Biondi: Eu não vou discutir teoria econômica, mas realidade brasileira ou mesmo internacional. Eu lido com informação o tempo todo. Mas não é vantagem nenhuma eu ter mais informação. Por isso, digo que jornalista não pode se fiar em informação do empresário, do ministro, do economista. O economista está dando aula, trabalha numa corretora financeira, e ele raramente vai ler a íntegra de um plano do BNDES, a íntegra de um plano de política econômica. O empresário, idem. Ele pode ter informação do setor dele, mas depois ele repete a informação corrente. E acadêmico está pesquisando há vinte anos atrás. Eu tive uma briga uma vez no Rio, com um cara da Unicamp que lecionava Economia Brasileira. Eu tinha escrito um dos primeiros artigos sobre a dívida externa, no antigo jornal Opinião. Eu sentei na mesa e o cara começou a dizer: “Vocês estão errados politicamente, porque o País está bem...” Eu falei: “Escuta, você viu a conjuntura econômica, você viu os dados?”. Não é ler o texto, é guardar aquela cifra. Eu tinha o relatório de 68 do Banco Central, com duas versões. A preliminar saiu no começo de 69, toda favorável; a segunda, do final de 69, mostrava o rombo real. Eu cansei de descobrir erros em relatórios oficiais... Então, lidar com informação não é almoçar com empresário, com economista.
Imprensa: Faça uma comparação entre os seguintes ministros da Fazenda: Delfim Netto, Simonsen, Funaro, Bresser e Maílson.
Biondi: Eu não sei se você sabe que os principais assessores do Delfim, quando foram para o Ministério, em 67, todos eles eram extremamente progressistas. E eu assisti ao começo deles, porque eu estava na Visão em março de 67 e eles assumiram no mesmo mês. A inteligência do Delfim Netto é o conhecimento que ele tem das pessoas. Ele sabia perfeitamente como conquistar um jornalista, convidar para o café-da-manhã... Foi ele o precursor dos cafés-da-manhã. Passava informações só para eles, se queixava dos empresários, das pressões dos nacionalistas, da burrice etc. Com isso, ele inflava muito o ego do jornalista e percebia que, pelo menos naquela época, jornalista gostava muito de ficar perto do poder. Em agosto de 68, o Delfim dizia que o Brasil precisava de um líder carismático ou de uma ditadura. Eu guardo recortes de jornais, para provar que a notícia é verdadeira. Acho que ele foi o inspirador do fechamento político. Ele criou uma crise cambial. Ele permitiu a enxurrada de importação, ele queimou as reservas em um ano, aí desembocou numa crise cambial, precisou fazer a máxi e ele convenceu-os de que para sair da crise a inquietação social ia ser muito grande, e que tinha que fechar. Então, não vejo a tal história da inteligência dele, quando foi ele que semeou a crise cambial que levou a 68 e a todas as crises cambiais posteriores. Então, não concordo que ele tenha sido um bom ministro.
Imprensa: Tecnicamente, ele não é competente?
Biondi: Tecnicamente ele fez isso.Considero Delfim responsável pelos problemas que o Brasil passou a ter daí em diante, inclusive problemas políticos. Então, não sei o que é ser tecnicamente competente. Em 83, as importações estavam controladas para equilibrar a balança comercial, e o black subia porque as empresas estavam comprando para contrabandear equipamentos. Isso era sabido. E o Delfim vendia a idéia de que isso era bom para o País, porque não aparecia na contabilidade oficial. Havia superávit e o País continuava funcionando. Esse tipo de pragmatismo, de amoralismo, para mim é... Eu conheço mais de um repórter que saiu daqui anti-Delfim e chegou lá, gostou do Delfim e voltou dando razão. O Simonsen, evidentemente, é um representante do pensamento “liberal”. O problema do Simonsen é que ele tem pouca vontade de trabalhar e de brigar por suas idéias. Ele acabou sendo só um ministro bem conservador. Os outros, como o Roberto Campos e o Bulhões, tinham uma preocupação de modernização do capitalismo. O Simonsen se preocupava em fazer recessão para combater a inflação, era um cara que chegou a dizer que não podia subir o salário mínimo porque ia haver aumento de consumo de alimentos e isso provocaria inflação... Quanto ao Funaro, ele não era o democrata que eu pensei. No lançamento do Cruzado, eu acho que a banda que eles resolveram montar foi muito antidemocrática. Na segunda semana eu falei que era contra a unanimidade, dizendo que a unanimidade não era democracia. E começaram a caça às bruxas, artigos na Folha contra a CUT... E o negócio da redistribuição da renda era mentira, porque eles deram todos os incentivos para as empresas de novo. Aumentaram IR para assalariado de faixa mais alta, e reduziram lá embaixo, mas isso era redistribuição entre pessoa física. A nível dos grandes negócios, eles voltaram a dar mil incentivos. E eu não sei se realmente, por motivos políticos, por causa da eleição, ele manteve o congelamento, que foi o fracasso do Cruzado, mas, ainda assim, dizer isso depois não interessa. Depois de sair, dizer que tinha negociata, que as grandes empreiteiras é que mandam no País...
Imprensa: O Funaro tinha competência para assumir o Ministério da Fazenda?
Biondi: Acho que sim. Quanto ao Bresser, acho que ele teve coragem de romper com alguns dogmas do PMDB. Ele teve o mérito imenso, em termos históricos, de ter sido o primeiro ministro da Fazenda nos últimos 25 anos a falar contra subsídio, contra o incentivo, e a explicar realmente o que é um rombo no Tesouro. Foi a partir dele que a sociedade começou a compreender isso melhor. Isso justifica a gestão dele. Acho que ele também fez uma colocação importante, que o movimento sindicalista mais uma vez não levou em conta: a de que o movimento deveria lutar pela reforma tributária, pela reforma agrária, e não ficar só na bandeira salarial. Você pode reduzir a renda temporariamente com a política salarial, mas assim que o mercado aquece... No entanto, você concentra a renda estruturalmente quando você subsidia, quando você tem legislação tributária regressiva, quando você tem um crédito rural concentrado. Aí, sim, você está concentrando estruturalmente não só a renda, mas propriedade, o patrimônio do País. E isso não é entendido. Nesse ponto, o movimento sindical brasileiro é uma droga, só pensa realmente em salário e sempre foi contra o Fundo de Garantia, como se eles não soubessem como era antes. Quando saiu o reajuste semestral de salário, eles disseram que isso era para esvaziar o movimento sindical, o Lula chegou a escrever isso Folha. Então, você tem um avanço e o avanço é encarado com ameaça. O movimento sindical é muito concentrado em salário. Você tem o exemplo da Itália: no ano passado, os sindicatos fizeram três dias de protestos contra a política tributária do governo, exigindo que o governo combatesse a economia clandestina, porque eles é que estão pagando.
Imprensa: O que faltou ao Bresser, então?
Biondi: Acho que não deu tempo. O Bresser, acredito, também aplicaria essa política de abertura forçada, imposta pelo FMI, que o Maílson está aplicando. Não estou dizendo que ele poderia vir a ser um grande ministro, mas que na sua passagem ele deixou isso. Discordo daquela escamoteação dos 26% de junho, passaram a mão naquilo. De qualquer forma, já se previa a URP, e era um choque diferente que se quis dar na economia, também temporário, mas já acenando com uma reposição à frente. Quanto ao Maílson, é isso que a gente está vendo. Eu sou a favor de qualquer cara que ponha a casa em ordem. Por quê? Por que se você tiver, finalmente, uma queda da inflação – com acordo com o FMI, com acordo com credores –, e assim sair da situação da crise, você pode discutir os problemas de longo prazo. Na situação atual da inflação, de todo dia falando em rombo do Tesouro, não há condições do País prestar atenção em outras coisas. Você tem que criar uma mentalidade, por exemplo, de que o produtor agrícola não tem pago, não tem assumido seus compromissos. Tem ano em que ele ganha muito dinheiro, então ele compra a chácara do lado, depois ele compra a chácara do outro lado, e no ano em que perde dinheiro ele quer anistia. Você tem que botar isso na cabeça das pessoas. Empresário, idem. Você não pode ter avanço desse tipo no Brasil, quando todo mundo acha que todo mundo foi vítima de desgoverno, de decisões erradas. Acho que, se o Maílson está sendo um ministro que resolveu bancar a briga para colocar a casa em ordem, ele vai ter esse papel na história. Com um saldo de 15 milhões na balança, você pode até discutir se mantém ou não um acordo com o FMI.
Imprensa: Existe crise na economia brasileira?
Biondi: Não existem problemas estruturais na economia brasileira, como no passado, mas só de governo.
Imprensa: Por quê?
Biondi: Você tinha problemas com o balanço de pagamentos. Toda vez que você crescia, você tinha uma crise cambial e tinha que fazer uma recessão. Você não tem mais isso.
Imprensa: Qual a sua opinião sobre o telejornalismo econômico?
Biondi: É como o telejornalismo em geral. Tem o mito de que deve ter dois minutos e sempre com informação de impacto, e em geral aquela não é a melhor informação. Tem uma seca no Nordeste e os caras mostram o chão rachado. Só que não tem chão rachado no Nordeste, não teve terremoto lá, né? Foi um fundo de açude que secou! Qualquer pessoa que é do interior já viu isso, as placas racham porque o solo, fundo, se desidratou. Isso não é seca do Nordeste. Você pode estar aqui em Guararema: quando chega a época da seca, a represa seca e acontece isso. A tevê, como jornalismo, é culpada pela piora do jornalismo escrito.
Imprensa: Você acha que a imprensa escrita está piorando?
Biondi: Como um todo, piorou muito. Na época da ditadura tinha muita gente preocupada em questionar. Então, o jornalismo era muito mais pesquisado. Agora é como se tudo estivesse resolvido. Até a crítica é superficial. Mas atenção: eu acho que desde o ano passado já há algumas mudanças a caminho.