Jornal Diário da Manhã , domingo 2 de outubro de 1983
O presidente Figueiredo anunciou, em meados da semana, que “vai pisar fundo” nos freios para conter a alta de preços, após a inflação de 142% em setembro, segundo os dados preliminares da Fundação Getúlio Vargas. O momento é favorável para rápida intervenção governamental. Se houver uma decisão firme por parte do planalto, os preços dos alimentos poderão até cair, imediatamente, derrubando também as taxas de inflação em outubro.
Não há necessidade de grandes malabarismos para atingir esse objetivo: bastaria o governo mexer no crédito para que o quadro atual se invertesse. Em relação à soja, milho, carne e feijão, o governo dispõe nos computadores do Banco Central e mesmo de bancos privados, da relação de principais grupos econômicos (indústrias, redes de supermercados, atacadistas, cooperativas) que receberam as centenas de bilhões de cruzeiros de crédito especialmente destinado à estocagem e comercialização de safras. Basta reduzir imediatamente em 10%, 20%, 30% os limites de crédito dessas organizações – deixando de renovar financiamentos, à medida que eles forem vencendo – para conseguir a desova dos estoques. Para a soja, o óleo e o farelo, ainda o presidente de república deveria cancelar imediatamente o privilégio concedido pela Cacex às tradings e indústrias que foram autorizadas a girar os financiamentos subsidiados (Resolução 674 e 643) a juros de apenas 60% ao ano, mesmo sem terem realizado as exportações para as quais receberam empréstimos. Paralelamente, caberia ao governo exigir uma declaração de estoques por parte daqueles grupos econômicos, especificando-se os locais de armazenagem, para imediata fiscalização como objetivo de verificar a existência de estoques clandestinos, que não seriam então confiscados.
Se o governo demonstrar a intenção de usar mão forte contra a especulação, os preços cairão imediatamente – sem prejudicar os produtores, que a esta altura retém parcela ínfima de suas safras anteriores. Se não, a especulação vai persistir, apesar das condições do mercado mundial e do próprio mercado interno já permitirem a queda de preços.
Soja cai 10%
Após ter atingido o pico de U$ 9,49 por bushel (um bushel tem cerca de 27 kg, no caso da soja) na Bolsa de Chicago, a soja recuou para U$ 8,66 com perda de quase 10%. Em cruzeiros, o preço atual equivaleria a Cr$ 235,00 por quilo ou Cr$ 14.100,00 a saca de 60 quilos. Apesar da queda dos preços internacionais, a especulação continua a aumentar os custos do produto aqui dentro com a saca valendo Cr$ 17.000,00, neste final de mês. Pior ainda: já há indústrias comprando soja, dos produtores gaúchos ao preço de US$ 10,00 por bushel (contra US$ 8,00, em Chicago), para entrega na nova safra, a partir de março de 1984. Quer dizer, a indústria continua a “puxar” os preços da soja, para continuar vendendo o óleo a preços acima do mercado internacional, aqui dentro. A manobra rende bilhões de cruzeiros, já que o óleo que vem sendo vendido hoje a preço de até Cr$ 1.000,00 a lata foi fabricado com soja comprada ao preço de até Cr$ 6.000,00 a saca em maio/junho de 1983 e não a Cr$ 16.000,00, nível “puxado” pela especulação a partir de julho. No próprio mercado a futuro, a Bolsa de Mercadorias de São Paulo, o preço da saca de soja caiu do “pico” de Cr$ 26.190,00, em 9 de setembro, para Cr$ 21.360,00 anteontem (dia 30).
Óleo e milho caros
O consumidor está pagando um “sobrepreço” cada vez maior pelo óleo de soja me relação ao mercado internacional. Em Chicago, sua cotação caiu de U$ 35,50 para U$ 31,60 entre 26 de agosto e anteontem, equivalendo a Cr$ 524,00 e Cr$ 515,00 o quilo, respectivamente. A diferença, em 26 de agosto, era de cerca de 20% (Cr$ 640,00 contra Cr$ 524,00); hoje, é de quase 60% (Cr$ 825,00 contra Cr$ 515,00).
Também em queda em Chicago, o preço mundial do milho seria hoje de Cr$ 103,00 o quilo, ou Cr$ 6.180,00 a saca de 60 quilos. Nada justifica, assim, o preço de Cr$ 10.000,00 (quase 70% a mais) para o milho, no mercado interno, encarecendo ovos, frango, suínos, óleo etc. No caso do milho, o próprio governo admite que os especuladores estão sentados em cima dos estoques e decidiu importar, ele próprio, 700 mil toneladas. O corte no crédito seria mais eficiente para reduzir os preços imediatamente.
Carne, nova puxada
Os preços do boi gordo e da carne entraram em declínio no mercado interno, nas duas últimas semanas – mas os frigoríficos ainda tentam impor novas altas, para o consumidor. Na quinta-feira, chegou a ser anunciado oficialmente pela Associação dos Supermercados de Brasília que os frigoríficos iriam aumentar os preços da carne congelada (estocada para evitar o aumento dos preços da carne fresca) em 18%, a partir desta segunda-feira, quando o produto passaria a custar Cr$ 1.350,00 o quilo. No começo de agosto, os frigoríficos declararam um custo para a carne congelada, de Cr$ 660,00 o quilo, ao acertarem, com o governo, o recebimento de crédito subsidiado para a estocagem. Quando a venda ao público começou, porém, foi adotado o preço de Cr$ 1.150,00 para o traseiro (carne de primeira), no atacado. O produto, com a disparada de agosto/setembro (Cr$ 1.800,00 o quilo de traseiro “resfriado”) estaca cerca de 50% acima das cotações mundiais (US$ 1.200 a tonelada para o “boi casado”, em média). Nas últimas semanas, ante a queda no consumo, houve recuo de 20% nos preços do atacado, em média, com o traseiro vendido ao preço médio de Cr$ 1.525,00 em Goiás, segundo o Ministério da Agricultura. A arroba do boi gordo, após chegar a Cr$ 18.000,00 em meados de setembro, declinou para Cr$ 17.000,00, em São Paulo.
Feijão, batata e arroz
Já há feijão da nova safra do Paraná entrando no mercado, em pequenas quantidades. Com isso, começou a desova de “estoques” acompanhada pela redução de preços – que poderia ser acelerada com a redução no crédito. O carioquinha especial, após atingir Cr$ 35.000,00 a saca no dia 16 de setembro, na Bolsa de Cereais paulista, declinou para Cr$ 34.000,00 na última semana. A CFP, isto é, o governo, vinha vendendo o feijão a Cr$ 9.000,00 a saca, aos atacadistas, isto é, a Cr$ 150,00 o quilo. Enquanto isso, a própria Cobal vende o produto a Cr$ 435,00 o quilo, para o consumidor. Os estoques do governo poderiam ser vendidos ao próprio consumidor, àquele preço de Cr$ 150,00, para que não “encalhem” com a nova safra.
Batata – também com a entrada da nova safra de batata (de Minas Gerais), os preços da saca caíram cerca de 20%, de Cr$ 25.000,00 para Cr% 19.500,00, na última semana.
Arroz – Ainda em alta, apesar da CFP vir vendendo seus estoques, a baixo preço, aos atacadistas, beneficiadores e supermercados. No leilão da CFP em Goiânia, esta semana, os preços caíram. No atacado aumentaram.