Jornal Folha de S.Paulo , domingo 21 de março de 1982
Em 1981, a indústria automobilística brasileira produziu pouco mais de 800 mil veículos, com uma queda de praticamente 400 mil unidades em relação ao ano anterior.
O "tombo" só não foi maior graças às exportações de aproximadamente 210 mil veículos, que resultaram em cerca de US$ 1,1 bilhão para o setor.
Esses resultados trazem a impressão — enganosa — de que a política econômica do ministro Delfim Neto está acertada, isto é, a contenção do consumo interno realmente teria o dom de forçar as empresas a exportarem, ajudando o País a reduzir o ritmo de crescimento de sua divida externa. A verdade, porém, é bem outra — e preocupante: os dados globais de 1981 escondem que, já nos últimos meses do ano, as exportações da indústria automobilística haviam despencado: após chegarem à faixa de 25.000 veículos em junho, elas caíram para 18 mil em setembro, 14 mil em outubro — e não mais que 10 mil mensais, em média, no último trimestre do ano. Pior ainda: os mercados em que a indústria automobilística (e, certamente, também outros setores industriais) concentrou seus esforços de exportação estão em crise, ou saturados, incapazes de realizarem novas importações de vulto, em 1832.
Os problemas da indústria automobilística não são um caso isolado, mas apenas um dos exemplos demonstrativos de que, por mais que os ministros da área econômica queiram esconder, as exportações brasileiras estão em crise, e a queda que elas sofreram de janeiro e fevereiro não foram fenômenos passageiros. O governo não pode continuar ignorando esse quadro novo, sob pena de o País enfrentar mais retração e desemprego.
OS DADOS REAIS
A gravidade da situação exige que se comprove minuciosamente, com base em dados, a crise do mercado externo — para evitar respostas evasivas, como é habitual, dos antiplanejadores brasileiros.
Um exaustivo levantamento realizado pela "Folha", com base em dados oficiais da Cacex, comprova plenamente que a indústria automobilística (como outros setores) ampliou suas exportações, em 1981, graças aos chamados mercados "novos", agora em crise, a saber: países produtores de petróleo e países latino-americanos.
No primeiro grupo, figuram como grandes clientes, além do México, a Nigéria, a Argélia e a Venezuela, os três países da Opep que figuram entre os mais atingidos pela redução nas receitas obtidas com o petróleo. No segundo grupo, destacou-se o Chile, embora o Peru, Bolívia, Paraguai e Uruguai também tenham realizado substanciais importações de veículos brasileiros, a níveis que dificilmente poderão manter.
As conseqüências dessa dependência — e a falta de perspectivas em 1982 podem ser facilmente avaliadas a partir destes dados: as exportações de autoveículos (automóveis, caminhões, utilitários) somaram, como dito, cerca da US$ 1 bilhão, tendo havido ainda exportações de US$ 200 milhões em tratores e cerca de US$ 500 milhões em autopeças (cuja situação será analisada em outras reportagens).
Do total de US$ 1,1 bilhão exportados em autoveículos, cerca de US$ 950 milhões foram proporcionados por 15 grupos principais (v. tabela). Para esses US$ 950 milhões, um pequeno grupo de oito países contribuiu com nada menos de US$ 530 milhões, quase 60% do total. Pior ainda: apenas quatro países responderam por vendas de US$ 496 milhões ou mais da metade (53%) do total.
FIM DO SONHO
Qual a situação desses quatro mercados — Chile, Nigéria, Venezuela e Argélia -, hoje?
Chile - foi inundado por veículos brasileiros, a ponto de, ainda no começo deste mês, estar com milhares de veículos estocados, embora as importações tenham sido suspensas praticamente desde dezembro. Comprou a enormidade de US$ 220 milhões, em 1981, em veículos brasileiros — ou 24%, isto é, um quarto, das exportações daqueles 15 grupos (v. tabela), com participação decisiva não apenas nas vendas de automóveis, mas também de caminhões (mais de US$ 100 milhões importados). E de ônibus.
Nigéria - já se mostrou, em análise publicada sexta-feira última pela “Folha”, sobre a cria dos "mercados novos", que em 1981 este País aumentou suas importações de produtos brasileiros em 177%, com US$ 700 milhões contra US$ 250 milhões em 1980. A Nigéria foi responsável por 17% das vendas brasileiras (dos 15 grupos) de autoveículos, com US$ 160 milhões. Segundo todos os analistas internacionais, é o país da Opep mais violentamente atingido pela perda de receitas. Terá forçosamente que controlar as importações, este ano. O país liderou as importações de automóveis, caminhões desmontados, e também de ônibus, em 1981.
Venezuela - também atingida pelos problemas que afligem a Opep, foi o segundo mercado importador de automóveis a gasolina, em 1981, o quarto maior comprador de veículos desmontados, e praticamente único mercado importador de microônibus. Respondeu por praticamente US$ 60 milhões do total de USS 950 milhões correspondentes aos 15 grupos - e sua importância é multo maior na absorção das exportações brasileiras de autopeças.
Argélia – respondeu por mais de 50% das compras camionetas, furgões e utilitários, e absorveu praticamente a totalidade das exportações de ambulâncias.
Observação final: os resultados de US$ 100 milhões correspondentes ao grupo 3 – automóveis a diesel – não está incluído em todos esses cálculos. Por que? Porque a maciça exportação desses veículos pra a Itália revela outro tipo de problema: as vendas da filial brasileira a matriz européia, como saída temporária para a crise. Uma solução de emergência, que poderá ou não ser mantida, e que não altera o quadro geral, de crise no mercado externo do setor.