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  A paixão brasileira pela inflação

Jornal Gazeta Mercantil , terça-feira 29 de julho de 1975


Se a inflação der novos pinotes no Brasil, nos próximos meses, vão sobrar explicações – teóricas e empíricas. Mas vai faltar o óbvio. Para os teóricos, novas altas de preços poderão resultar de mudanças na política monetária: na melhor linha da escola monetarista surgem advertências de que, diante das calamidades climáticas no Sul e no Nordeste, o governo vai precisar emitir para auxiliar as economias locais e, com a expansão monetária, haverá inflação. Essas análises admitem um dado: hoje, o Tesouro da União não é a única fonte de recursos para a execução de grandes programas no país. As obras de “reconstrução” de Recife e outras regiões do Nordeste, atingidas por inundações, podem ser financiadas com recursos do BNH, por exemplo. Longe de provocar distorções, na área monetária, os planos vão até corrigir distorções hoje existentes. Nadando em recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, o BNH não pode manter essa dinheirama oclusa, pois precisa remunerar os depósitos dos trabalhadores. Com isso, chegou-se a uma situação esdrúxula: o Tesouro da União emite títulos, através do Banco Central, para que o BNH tenha que comprar e possa “ganhar” juros e correções monetárias para os donos dos depósitos.

Mas – pergunta-se – e a necessidade de bilhões de cruzeiros a serem emprestados aos lavradores para que eles possam proceder à recuperação de seus cafezais e outras culturas? As cifras envolvidas, certamente, não serão superiores aos bilhões de cruzeiros que o governo teria que aplicar este ano na compra de milhões de sacas de café que não vinham tendo compradores, antes da perda da safra do próximo ano.

O EMPIRISMO INÚTIL

Os desastres climáticos não trouxeram assim, maiores traumas à política monetária. Não é desse lado, certamente, que virão tensões inflacionárias. Mas, e a “escassez” criada pelo fenômeno? Há “escassez” e escassez. No Brasil, diante da passividade oficial diante da inflação e da especulação, predomina a primeira.

Já se sabe que a paixão brasileira pela inflação conseguiu o que nenhum país que adota uma economia de mercado, como o Brasil, pensou ser possível: cancelou a lei da oferta e da procura, isto é, quando se trata de baixar preços. Primeiro, o governo tolera altos preços para o alumínio ou o chumbo, a carne ou os tecidos, quando se afirma haver “escassez”. Quando surge a “mão invisível”, e a demanda cai devido à retração no consumo, não sobrevém a baixa de preços porque o governo (isto é, a coletividade) arma esquemas para evitar que isso ocorra. Estoca-se maciçamente, como no caso da carne, ou impede-se as importações, como no caso dos fertilizantes ou do chumbo.

Os Ministérios e órgãos incumbidos de exercer vigilância sobre os preços aceitam rapidamente os argumentos de “escassez”, despreocupando-se em verificar margens de lucros ou imposições de preço ao consumidor. Isto está acontecendo neste momento, com o café (quando ele voltar a sobrar daqui a três anos, a Nação pagará para evitar que os preços caiam). Isso está acontecendo neste momento com o óleo de soja, majorado subitamente, sob a alegação de que os preços da soja subiram no mercado mundial e, portanto, o produto ficou mais caro: a indústria se “esqueceu” de que, no ano passado, impôs brutais aumentos de preços ao consumidor sob o argumento contrário. (Em 1974 estavam baixas as cotações mundiais do farelo, resultantes do esmagamento da baga, para a produção do óleo, e alegou-se que era preciso aumentar os preços do óleo para “compensar” os prejuízos com o farelo. Nos últimos dias, o farelo também está em alta, no mercado mundial – e no entanto o preço do óleo é reajustado no mercado interno). É assim, também, com os hortigranjeiros, com os intermediários realizando lucros de até 90% sobre o preço pago aos produtores, os únicos a sofrerem as conseqüências das geadas.

A inflação tem razões objetivas, de caráter econômico. Mas ela se acelera principalmente por força de componentes psicológicos. O Brasil começa a reviver um clima altamente inflacionário, que facilita os reajustes injustificáveis. Combater esse clima não é mera preocupação social: é uma tarefa básica de política econômica, pois ele impulsiona os preços em uma primeira etapa e, depois, numa sucessão de distorções, desorganiza a programação financeira das empresas, engorda a correção monetária, desestimula os investimentos, reduz a demanda através da perda de poder aquisitivo do consumidor. Compromete a tranqüilidade econômica e social.



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