Revista Nova , novembro de 1982
Logo no começo do segundo semestre, nós avisamos à leitora da NOVA: planeje seus gastos, faça economia, cuide bem do seu emprego, e avise toda a família para fazer o mesmo – pois o Brasil, por causa de sua dívida externa e da situação mundial, vai ter que passar por uma fase de cintos apertados. Vai haver, novamente – dizíamos então –, queda na produção das indústrias, desempregos, crises, a partir do momento em que, por falta de dólares, o governo adotar medidas para conter o consumo e, assim, reduzir as importações. Vai haver um “video tape” de 1981. Só que numa versão ainda mais amarga, para a população brasileira.
Agora, o aperto chegou. Os problemas poderiam ser menores, a necessidade de sacrifícios poderia ser mais branda, se os ministros da área econômica tivessem tomado providências para evitar o agravamento da dívida externa, já que por volta de março, quando era possível prever que ela deveria chegar a um ponto insustentável, se não houvesse correções na política econômica. Teimosamente, os ministros nada fizeram. Continuara, arrogantes, a despejar ironias contra os autores de críticas ou advertências. Agora, não há saída, a não ser o “aperto”.
A esta altura, só resta a cada brasileiro dar a sua contribuição à solução dos problemas do país, apesar da responsabilidade pelo desastre caber aos ministros. Colaborar, porém, não significa aceitar passivamente novos erros de política econômica, que representem sacrifícios exagerados para a maioria da população. Chegou o momento em que, como em outros países, cada cidadão e cada entidade que os representa deve opinar ao máximo, deve protestar insistentemente diante das distorções. Deve exigir que não haja privilégios pois, sem eles, a quota de sacrifício que caberá a cada um será menos – e os problemas serão, também, contornados em um prazo de tempo mais curto. Em lugar de deprimir-se, amargurar-se, com o novo período de “vacas magras”, cada brasileiro, você em particular, deve sair do comodismo, na importância, e mobilizar-se ao máximo, participar ao máximo, na defesa dos interesses de todos.
Ninguém deve aceitar desculpas, argumentos vazios de ministros, afirmando que não há recursos, dinheiro, para evitar o desemprego em grande escala, a falência de milhares de empresas. Não é verdade, e vamos das provas: ainda há pouco tempo, o governo “socorreu” uma empresa de um grande grupo paulista, entregando-lhe nada menos de 100 milhões de dólares, ou quase 25 bilhões (trilhões velhos) de cruzeiros. Outra prova: sabe-se que os maiores bilionários do país, os 30 mil mais ricos, não pagam nem 5% de Imposto de Renda por ano sobre seus ganhos de bilhões de cruzeiros. Isto porque há perdão do imposto para os lucros realizados com certos negócios (aplicações na especulação financeira, principalmente). E assim por diante.
Está claro, então, que o mal do Brasil não é a falta de dinheiro. É o mau uso do dinheiro, é a concessão de privilégios a poucos grupos e indivíduos. Essa situação, já odiosa em termos normais, é inaceitável em tempos de crise, como o atual. Por isso, a sociedade, você, tem que vigiar as decisões dos ministros, exigir justiça, dizer “não” aos sacrifícios atirados somente sobre as costas dos mais fracos.
Na recessão de 1981, centenas de milhares de trabalhadores ficaram desempregados – e os ministros da área econômica rejeitaram um programa de emergência para a criação de empregos, alegando falta de dinheiro. Desta vez, a aberração não pode repetir-se – e não se repetirá, se não houver aceitação, bovina, da indiferença oficial aos problemas da população.
É preciso defender medidas, também, para evitar a falência de milhares de empresas. Não pense que a “quebra” de uma empresa é um drama apenas para o dono. Ela significa, obviamente, desemprego para milhares de trabalhadores. Mais ainda: de um ponto de vista amplo, cada falência é um “empobrecimento” do país e sues cidadãos: o capital, a “poupança” de um país, é representado pela soma do capital, da “poupança”, que seus cidadão e empresas conseguiram juntar ao longo dos anos. Quando há falências, destroem-se patrimônios, perde-se poupança já feita. Empobrece-se todo o povo, prolongando a duração dos problemas.
O aperto é inevitável. Mas não se pode aceitar distorções em sua execução.