Jornal Folha de S.Paulo , sábado 16 de fevereiro de 1985
Há cerca de dez dias, o governo anunciou um brutal corte em suas despesas e pagamentos: nos meses de fevereiro e março, o Tesouro só liberará 20% dos recursos necessários para cobrir os gastos – já previstos no orçamento de 1985, note-se – de todos os Ministérios. Esse misto de corte e “congelamento” de pagamentos, da ordem de 80%, foi interpretado, em análise publicada pela Folha, como uma iniciativa radical para atender a exigências do Fundo Monetário Internacional. Principal “pista” para chegar a essa conclusão: o presidente do banco Central, Affonso Celso Pastore, havia passado vários dias em Nova York e regressado ao país sem conseguir fechar o novo acordo com os banqueiros, porque – apontou-se então, na Folha – tanto o FMI quanto os credores não haviam “engolido” o violento estouro da base monetária (emissão em dinheiro) em dezembro (expansão de quase 40%, em um mês).
Todas essas hipóteses estão plenamente confirmadas, com a divulgação, na quinta-feira, do telex do diretor-gerente do FMI, Jacques de Larosière, aos banqueiros internacionais, pedindo que eles não suspendessem os empréstimos ao Brasil, diante da demora da obtenção do novo acordo. De Larosière elogiou alguns êxitos alcançados pelo país, como o grande saldo de balança comercial – mas deixou claro que o Brasil, ou o governo brasileiro, vai ter de adotar medidas drásticas para evitar novas emissões de dinheiro – e para conter a inflação.
Na verdade, esse arrocho já começou: apesar de, em janeiro, ter havido uma contração na base monetária (isto é, o governo recolheu pequena parcela do dinheiro que havia emitido em dezembro), ainda assim o governo foi forçado a adotar o remédio amargo de reduzir seus gastos em 80%, em fevereiro e março, além de conter o crédito nos bancos oficiais.
Uma das primeiras consequências desse “arrocho”: como não pode emitir para atender às exigências do Fundo Monetário, o governo está deixando de comprar a produção das novas safras do Centro-Sul do País, provocando protestos violentos dos agricultores (veja página 15). Esse será, a propósito, o primeiro problema grave, imediato, que o novo governo enfrentará: a inquietação, nas zonas agrícolas, diante da falta de dinheiro para a comercialização de safras.
Se o novo governo não conseguir certo “afrouxamento” nas exigências do FMI, enfrentará problemas sérios nessa área. E o telex do diretor-gerente do Fundo Monetário aos banqueiros indica que não há nenhuma possibilidade de que isso vá ocorrer. A comunidade financeira internacional exige que o Brasil contenha seus gastos, como foi feito por outros países. Quer metas “duras”. E que sejam cumpridas.