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  Os negócios vão bem? Então comece a chorar

Revista Isto É , junho de 1980


Embora os números digam exatamente o contrário, os líderes empresariais afirmam que os negócios vão mal — e desatam numa choradeira sem fim, na esperança de comover os ministros da área econômica.

Entre sarcástico e arrogante, um conhecido líder empresarial gosta de dizer que "ninguém segura a economia brasileira". E acrescenta: "Por mais que os ministros da área econômica tentem sentar-se em cima das taxas de crescimento, como forma de combater a inflação, a economia consegue driblá-los, e acaba crescendo acima das previsões."

Nessa brejeira constatação, a economia deixa de ser uma expressão abstrata, usada para designar o conjunto de atividades econômicas do País, e transforma-se numa coisa, entidade viva, com esperteza suficiente para também valer-se da instituição do "jeitinho brasileiro" — e enganar ministros. Ora, sabendo-se que a economia não é um ente que age por si mesmo, "melhor seria, para a compreensão do momento nacional, dar alguma lógica à observação do empresário, e traduzi-la em termos de realidade: quem sempre tem driblado as políticas de contenção da economia não é a própria — e sim os agentes econômicos, a saber, empresários, banqueiros, trabalhadores, a máquina do governo e assim por diante. Como assim? São eles que se rebelam contra toda e qualquer política que tente dar o mínimo de racionalidade à economia do País. E que, logicamente, depois protestam violentamente porque "o governo não faz nada". Neste final de semestre, há um violento esperneio dos agentes econômicos, em todo o território nacional, porque o governo reafirma a cada momento que, dentro da política de combate à inflação, não tolerará estouros na expansão do crédito, além das metas fixadas desde o começo do ano, já que crédito à larga significa negócios a todo vapor — e inflação.

"Será o caos", "será a crise", "teremos, então, um Natal sem compras" — estas, são choradeiras constantes nas entrevistas concedidas por respeitáveis líderes empresariais e adjacências.

Mais uma vez está em cena o "coro nacional dos chorões", o maior do mundo, inegavelmente, e que em sua longa carreira tem conseguido ganhar prêmios memoráveis. Sua cantoria-choradeira é tão lancinante que Brasília sempre afrouxa um parafuso aqui, outro parafuso ali, mais outro acolá — e invalida toda a política que havia traçado para combater a inflação. E, o que é pior, para reduzir o crescimento acelerado da dívida externa. O trágico dessa encenação é que o País, atordoado com a cantilena infernal, vive há anos dizendo que "tudo vai mal", nos momentos, mesmo, de maior prosperidade econômica. E, pior ainda, o País entra em franco delírio, dominado por emoções violentas despertadas pelo coro, e não consegue colocar os pés na terra, isto é, raciocinar um minuto para tentar entender os problemas que o afligem — e as formas de enfrentá-los. De cantoria em cantoria, o Brasil rodopia na vertigem da inflação e mergulha de cabeça numa crise cambial cada vez mais grave — para a qual só haverá uma de duas saídas: uma recessão, esta sim real, ou o "pagamento da dívida externa" através da desnacionalização violenta de setores que ainda poderiam ser mantidos sob controle nacional — como o Proálcool e os programas de fontes alternativas de energia em geral.

De janeiro a abril deste ano, as vendas a prestação em São Paulo provocaram um aumento de mais de meio milhão de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito: de 1,8 em 1979, para 2,3 milhões no primeiro quadrimestre de 1980. Perda de poder aquisitivo do consumidor, obrigado a recorrer ao crediário? Balela. Os dados do Clube dos Diretores Lojistas de São Paulo mostram que, em fevereiro e março, as vendas do "ramo mole" (roupas, calçados, alimentos) subiram 100% em relação a 1979, e os do "ramo duro" (eletrodomésticos, principalmente) alcançaram 101,6% sobre 1979, em abril. Alguém viu algum líder empresarial falar nesses dados? Reconhecer que a economia está a todo vapor? Claro que não. E quando o assunto surge, logo vem a afirmação de que, descontada a inflação de 85% no período, o crescimento real seria muito menor, "apenas" de 15%, e que o comércio e a indústria vão mal, estão esmagados pelo CIP, blá-blá-blá, blá-blá-blá, essa infindável choradeira que é o noticiário econômico no Brasil. Ora, 15% de crescimento, descontada a inflação, é algo paradisíaco em qualquer país. E esse "desconto da inflação" está errado: as vendas cresceram até 100% — no varejo. E há um índice que mede o aumento de preços no varejo, que é o índice do custo de vida (ou índice de preços ao consumidor).

Em São Paulo, esse índice não subiu mais que 70% em doze meses até abril, quer dizer, o aumento de 100% nas vendas, descontado o aumento de preços no varejo, significa um aumento real, na venda de mercadorias, de 30%. Em quantidade, mesmo. Maravilhoso? Catastrófico. Os líderes empresariais brasileiros — e a Nação, de um modo geral, não entenderam até hoje uma verdade de um óbvio ululante: crescer tem um preço. Tomados de estranho complexo de superioridade, parecem acreditar que o Brasil é o único país do mundo que "sabe" crescer, que cresce quanto quer — enquanto todos os demais países do mundo não o fazem. Por incapacidade. Por falta de "esperteza". De seus homens. E de sua economia.

"O Brasil de hoje tem o vício do ‘catastrofismo’: cada um de nós acredita que a ‘crise definitiva’ pode ser desencadeada a qualquer momento. A simples tentativa de ordenar o crescimento econômico é vista como o abismo,a catástrofe."

Os líderes empresariais, e a Nação, parecem nunca terem entendido que qualquer país pode crescer desordenadamente, se quiser, isto é, se estiver disposto a "pagar a conta". Que conta é essa? É simples. Crescer desordenadamente significa depender de importações e de empréstimos externos, isto é, endividar-se exageradamente no Exterior. A conseqüência inevitável é uma só: crises cambiais, incapacidade de pagar a dívida. Que pode ser cobrada de duas formas: ou os credores exigem uma "parada" na economia, isto é, uma recessão, uma crise — como em 1964/65. Ou os credores internacionais pedem certos "pagamentos extras", para se mostrarem dispostos a renegociar a dívida, conceder novos empréstimos e prazos maiores de pagamento. Foi o que aconteceu em 1968. Com a crise cambial daquele ano, o Brasil teve que abrir os setores de mineração, papel e celulose e petroquímica — até então monopólio estatal da Petrobrás — ao capital estrangeiro. Foi o que aconteceu depois de 1975 — quando o preço cobrado foi a abertura da exploração do petróleo às multinacionais, através dos "contratos de risco". E agora, em 1980? O cerco dos credores já tem alvos certos: os grandes projetos de mineração na Amazônia, os grandes projetos agropecuários no Maranhão, e o Proálcool e demais programas de fontes alternativas de energia.

Como é que, os outros países evitam que sua situação econômica se deteriore a ponto de perder o controle sobre seus próprios objetivos — e fontes de riqueza para o futuro? É preciso entender que os EUA ou a França, o Japão ou a Alemanha, vivem "ciclos" alternados de crescimento e de contenção da economia. Uma fase de prosperidade, como no início dos anos 70, desemboca em inflação e problemas de balanço de pagamentos (dívida externa)? Começa-se, então, através de uma política econômica de austeridade, um novo ciclo de controle de crescimento, para importar menos, exportar mais — e pagar a conta. Reequilibrada a situação, em um ou dois anos, soltam-se novamente as rédeas da economia — até que os problemas ressurjam, e venha nova fase de aperto de cintos.

Tem faltado, no Brasil, a compreensão de que, assim como na vida das pessoas, também na vida dos países nada é eterno, "crises’ e "anti-crises" se alternam. Mas, principalmente em função da situação política dos últimos anos, o Brasil viciou-se no "catastrofismo", isto é, no habito de acreditar que "a grande crise", a crise "definitiva" pode ser desencadeada a qualquer momento. Essa visão radical dos problemas torna extremamente difícil, ao País, aceitar uma fase temporária de contenção ou ordenação do crescimento econômico — porque ela é confundida com o "abismo", a "catástrofe final".

No estágio de desenvolvimento que o Brasil já alcançou, não há como fugir aos ciclos alternados de desenvolvimento e contenção — como ocorre nos demais países também desenvolvidos. Pensar que a "economia brasileira sabe driblar ministros" é fruto de uma fantasia: a fantasia de que o Brasil está condenado à prosperidade eterna — ou do contrário mergulhará no caos. Essa fantasia tem custado caro ao Brasil: 1968 e 1975 que o digam.



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