Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 12 de agosto de 1982
A decisão dos banqueiros, de adotar a correção monetária pós-fixada nas operações de empréstimos, terá efeitos bem mais amplos sobre a economia do que as análises tem apontado até agora.
A curto prazo, o sistema poderá funcionar como um freio à especulação financeira, no País – reduzindo, inclusive, os gastos que o Tesouro vem enfrentando para pagar os encargos da sua dívida interna, superior a 5 trilhões de cruzeiros. Seus efeitos a médio prazo são ainda mais importantes: ele abre caminho, também, para a implantação, na surdina, da proposta de reduzir a correção monetária gradualmente, como forma de acelerar o ritmo de queda da inflação.
CONTRA A ESPECULAÇÃO
Até o presente, a especulação financeira tem-se mostrado incontrolável no País (já que Brasília se recusa a adotar o tabelamento, vetado, de resto, por organismos internacionais como o Fundo Monetário). Os aplicadores no mercado financeiro – compradores de certificados de depósitos bancários, letras de câmbio, etc. – aproveitam todos os pretextos para ganhar juros elevadíssimos dando às instituições financeiras a argumentação de que precisam para também cobrar juros explosivos, em seus empréstimos: “Se pagamos caro na captação, temos de cobrar caro ao emprestar.”
A adoção da correção pós-fixada pode extinguir esse quadro. Se os bancos – e demais instituições – utilizarem o sistema em seus empréstimos, terão obviamente, que respeitá-lo também na captação, pois não poderão pagar, aos aplicadores, juros mais altos do que os juros a serem pagos pelos tomadores de empréstimos – ou terão prejuízos.
Corta-se, assim, o problema da especulação financeira pela raiz, com queda nas taxas de juros em todo o sistema financeiro. O que significará, ainda, que o governo não precisará oferecer as altíssimas taxas de juros atuais aos compradores de Letras do Tesouro.
O DESTINO DA CORREÇÃO
A universalização do uso da correção pós-fixada pode ser interpretada ainda como um primeiro passo para a implantação da proposta de reduzir gradativamente os índices de correção, como forma de acelerar o ritmo de queda da inflação.
A imensa diversidade de taxas hoje praticadas no mercado impedirá a adoção da fórmula para reduzir a correção, pois, logicamente, haveria uma fuga maciça de dinheiro rumo às aplicações mais rentáveis: se as letras de câmbio oferecessem rendimentos maiores que as cadernetas de poupança, por exemplo, logicamente estas perderiam bilhões, em depósitos. Ou, pior ainda: se os juros nos empréstimos dos bancos fossem inferiores aos juros pagos aos compradores de determinados títulos, empresas e pessoas procurariam conseguir financiamentos para aplicá-los na compra desses títulos (como já ocorre, hoje, com o desvio de recursos do crédito subsidiado à agricultura e às exportações).
A unificação da correção suprime esse risco e abre caminho para a sua futura redução.
PS – Está na moda dizer que os ministros da área econômica não têm culpa de nenhum problema que o País enfrenta, que eles são competentes, fizeram “o possível”, etc. A fórmula agora adotada para reduzir os juros e a inflação é mais um desmentido a essa “teoria”: por que não foi importada antes?