O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  É uma grande farsa,
por Doralice Lopes de Almeida

Revista Espaço, Outubro de 1999

Com 43 anos de profissão, o jornalista econômico Aloysio Biondi faz uma análise crítica e fundamentada, nas colunas que assina em diversos jornais, da grave situação em que os jornais, da grave situação em que o país se encontra, demonstrando claramente a farsa do governo FHC e do Real. No seu último livro, O Brasil Privatizado – um balanço do desmonte do Estado, revela o que está por trás das privatizações que, ao contrário do que se divulga, não trouxeram dinheiro algum para os cofres públicos. Trouxeram, sim, muito prejuízo.

Biondi ganhou dois prêmios Esso de Jornalismo Econômico, ocupou cargos importantes nas revistas Veja e Visão, nos jornais Folha de São Paulo, Gazeta Mercantil, Correio da Manhã e DCI/Shopping News. Agora, prepara um novo livro somente sobre bancos públicos e energia, “para ver se conseguimos salvá-los”.

Espaço: Onde foi parar o dinheiro das privatizações?

Aloysio Biondi: Não houve dinheiro porque o governo gastou mais do que arrecadou. O levantamento que apresento no livro (O Brasil Privatizado) é parcial, com base em dados divulgados pela imprensa. O governo diz que arrecadou R$ 85,2 bilhões. No entanto, temos R$ 87,5 bilhões que não entraram ou saíram dos cofres públicos através de dívidas que o governo assumiu, investimentos feitos antes da privatização, juros, moedas podres e por aí vai. Ou seja, R$ 2 bi negativos. Mas os R$ 87,5 bilhões devem chegar a R$ 150 ou R$ 200 bilhões porque existem valores não calculados como indenização das demissões, perdas no IR, lucros que deixou de receber e prejuízos com empréstimos, entre outros, elevando ainda mais o prejuízo.

Espaço: Como os juros entram nesse contexto?

Aloysio Biondi: Da arrecadação de R$ 12 bilhões/mês, o governo gasta R$ 9 bilhões (custeio, salários, aposentadorias, etc) e tem de pagar R$ 10 bilhões só de juros. Estamos vivendo uma farsa porque o governo tem R$ 10 bilhões de juros que não paga. Emite novos títulos da dívida, aumentando-a ainda mais. O Real é ma farsa e os banqueiros sabem disso, tanto que estão comprando do governo títulos com correção cambial para se proteger.

Espaço: Como está o país?

Aloysio Biondi: O Brasil quebrou em maio/98 quando os banqueiros deixaram de comprar títulos porque já sabiam que o governo só rola a dívida, que está em R$ 400 bilhões. O juro médio este ano deve ficar em 22%, ou R$ 88 bilhões. Com a desvalorização, o juro saltou para R$ 120 bilhões/ano, ou R$ 10 bi/mês.

Espaço: A credibilidade do país foi reconquistada?

Aloysio Biondi: Com esse rombo é impossível. Não houve ajuste. A CPMF arrecada R$ 10 bi/ano; o governo mexeu na aposentadoria do funcionalismo público para economizar R$ 6 bi/ano e o juro continua a R$ 10 bi/mês. Em março, o BC lançou US$ 2 bilhões de títulos no exterior pagando 12,99% de juro, o maior da historia dos últimos 159 anos. Só que os banqueiros não voltaram a emprestar. Uma prova é que, no 1º semestre do ano passado, as empresas que estão no Brasil conseguiram US$ 17,5 bilhões de empréstimos externos. Em 1999, foram apenas US$ 3,5 bilhões, ou seja, nem os empréstimos foram renovados. Outra é a sobretaxa de risco nos empréstimos externos. Em 1998, era de 3,7%, em maio/99 foi para 7.4% e em junho para 11%.

Espaço: Como os bancos públicos entram nessa história?

Aloysio Biondi: Os banqueiros não estavam renovando as linhas de crédito e para ganhar sua confiança, o Michel Candessus falou que poderiam emprestar sossegados porque a CEF, o BB e a Petrobrás seriam privatizados. Ele dedurou FHC para conquistar a confiança dos banqueiros, mas não adiantou.

Espaço: A meta do FMI resolve o problema?

Aloysio Biondi: Não, porque é na balança comercial que você tem os dólares que realmente pertencem ao país. NO ano passado o buraco foi de US$ 6 bilhões. De acordo com o FMI, a previsão é de saldo positivo de US$ 11 bilhões. Até integrantes do governo acham que a meta é otimista demais. O ministro Pedro Malan fala em saldo positivo de US$ 1,5 bilhão. Côo o déficit está em US$ 800 milhões, para se chegar a esse valor será preciso conseguir US$ 2,3 bilhões em cinco meses. Só que o grosso das exportações agrícolas é em março/julho. O FMI sempre exigiu que no déficit do setor público fosse concluído o juro. Em 99, excepcionalmente, aceitou que o Brasil fizesse o equilíbrio sem o juro. Esta bondade é para tentar segurar o governo FHC até as privatizações que interessam ao sistema financeiro internacional.

Espaço: Qual é a pedra no caminho?

Aloysio Biondi: É que a situação se deteriorou tão rapidamente que, apesar da farsa montada pelo FMI e governo FHC, o mercado está estourando, não tem mais como segurar. O governo só vai tentar privatizar o BB e a CEF para seguir o receituário do Banco Mundial e do FMI. Afinal, FHC e outros integrantes do governo já falaram várias vezes que os bancos privados não emprestam para a agricultura e para a pequena e media empresa. O governo inteiro diz que os bancos públicos são necessários como instrumentos da política econômica seja para exportar e obter os dólares de que precisa, seja para evitar a concentração de renda, para manter as empresas de pequeno e médio porte, para a criação de empregos.

Espaço: E o crescimento econômico?

Aloysio Biondi: O governo é inacreditavelmente delirante.Diz que haverá retomada do crescimento e, ao mesmo tempo, a renda familiar cai. O reajuste do salário mínimo foi de R$ 6, o funcionalismo está há cinco anos sem aumento, o desemprego é de 20%. Aí, o governo fala nos novos motores da economia baseados nos investimentos em infraestrutura graças à privatização da energia, telefonia e petróleo. Só que estão importando todos os equipamentos, logo, o problema da privatização vai além porque não se colocou mecanismos para proteger a industria nacional.

Espaço: Qual a saída?

Aloysio Biondi: É controlar a importação, porque o mundo todo protege sua produção, sua renda, seu emprego. É preciso romper com o FMI para reduzir os juros e o rombo. O Brasil tem que aplicar o modelo inverso e mais nada. Parece brincadeira, mas é isso mesmo. E tem que romper enquanto ainda tem reserva, porque até renegociar tudo terá de pagar as importações à vista para a economia não parar.

Espaço: Ou seja, tem que romper e logo?

Aloysio Biondi: Já devia ter rompido. É mentira que banqueiro, quando você dá o calote, não negocia. A Rússia declarou moratória em meados de agosto e em outubro os banqueiros já estavam negociando.

Espaço: E para salvar a CEF e o BB?

Aloysio Biondi: A CEF e o BB poderão ser salvos, eventualmente, porque a grande crise econômica vai gerar a rediscussão da política, inclusive do processo de privatização. O clima está mudando, a sociedade está começando a perceber a farsa.



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