Revista Isto É , sábado 24 de junho de 1978
Já é alguma coisa. Até que enfim os analistas econômicos e os arraiais intelectuais descobriram que a dívida externa brasileira deixou de ser um problema urgente, ante a sobra de dólares no mercado internacional (embora, a médio prazo, ela continue a exigir a mudança do modelo econômico brasileiro). Mas é evidente, também, que, na falta do chavão da "dívida esmagadora", era preciso arrumar outro chavão — catastrofista. Então, começou agora a avalanche de análises e entrevistas estúpidas sobre "os problemas que a folga na situação cambial traz ao país". Mais claramente: diz-se que, se o país obtém muitos dólares emprestados no exterior, a troca desses dólares por cruzeiros, feita pelo Banco Central, resulta em crescimento do dinheiro em circulação, isto é, no "inchaço dos meios de pagamento" — o que seria inflacionário. Realmente, os dólares entrados no país já elevaram as reservas a um nível recorde, na casa dos 7,5 bilhões de dólares trocados por cruzeiros. Mas o que está faltando nesses raciocínios é apenas uma coisa : raciocínio. O Brasil pode continuar tomando empréstimos no exterior, sem aumentar a dívida e sem aumentar as reservas e os cruzeiros em circulação. Como? Já foi dito, aqui, que o Brasil tem 5 bilhões de dólares de dívida a amortizar este ano, e outros 5 bilhões em 1979. É lógico que o país pode, simplesmente, pegar esses 10 bilhões de dólares emprestados — para começar a pagar daqui a cinco anos — apenas para liquidar os empréstimos que vencem nestes dois anos. Ele continuará devendo os mesmos 10 bilhões de dólares, a um prazo muito maior — sem necessidade de emitir cruzeiros. Como é que não se enxerga isso? Bloqueio mental decorrente do sectarismo, ou má fé?
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A economista Maria da Conceição Tavares tem sido, ao longo dos anos, mestre entre os mestres, com sua implacável inteligência e lucidez. Sempre apaixonante, arrasta multidões às suas raras aparições públicas, em conferências, simpósios, debates; e suas críticas sempre ganharam amplo espaço na imprensa. Há duas semanas, Maria da Conceição, em palestra em São Paulo, pediu aos economistas e arraiais intelectuais que "afastassem seus demônios", isto é, abandonassem seus chavões em torno do PIB (vai crescer ou não?), inflação, redistribuição da renda, e, ainda uma vez, estudassem problemas para poder propor. Sua conferência, desta vez, sequer figurou na maioria dos jornais e revistas. A mestra superestimou seus pupilos: nos arraiais intelectuais, convém ser "isento do lado de cá", mas nunca também "do lado de lá". No Brasil, a isenção também é relativa: só o sectarismo é absoluto. Ele e seus companheiros: o bloqueio mental e a má fé ("imagine-se a ousadia da Conceição: chegou a dizer que o endividamento externo, neste momento, embora não a médio prazo, chega a ser vantajoso, já que os juros cobrados pelos banqueiros internacionais estão abaixo da inflação nos países ricos: a desvalorização da moeda desses países acaba por anular os juros pagos"). *
Paulo Viana, secretário da CFP, tornou-se um ídolo da imprensa, nos últimos meses, quando começou a fazer críticas à política agrícola, afirmando que a atual quebra nas safras não era apenas culpa da seca, mas dos baixos preços estabelecidos pelo governo. Por bloqueio mental ou má fé, nunca lhe foi retrucado que ele estava sendo unilateral em suas análises, dignas de um desses líderes rurais ou políticos da Arena e do MDB, que caçam votos da agricultura. Mais do que ninguém, o dirigente da CFP sabia e sabe que houve preços mínimos menos satisfatórios para o arroz, milho e algodão porque, no ano passado, o país acumulara imensos estoques desses produtos, devido à "superprodução" (não cabe relembrar, aqui, que o que existe no Brasil não é superprodução e, sim, subconsumo). Além de reproduzir prazerosamente as críticas de Paulo Viana, a imprensa divulgou, ainda, previsões catastrofistas sobre as quebras nas safras, abrindo as portas à especulação. Na última semana, Viana reuniu a imprensa e fez um balanço geral da situação das safras deste ano: a produção e os estoques vindos do ano passado garantem o abastecimento (exceção: o milho, que precisará ser importado, como já se sabia, para evitar a alta de preços). Desta vez, sua entrevista não deu IBOPE; Nos maiores jornais do Rio e São Paulo, ela foi ignorada ou reduzida a 10 linhas. Um excelente serviço prestado à especulação e aos especuladores. No mínimo.
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Continua-se a falar na "crise da indústria de construção", isto é, continua-se a ajudar a campanha dos Dourados e Almeida Fernandes pela volta à pepineira dos imóveis de luxo. Continua-se a esconder que, no ano passado, os financiamentos para casas populares e imóveis, na faixa de renda média, subiram a 160 mil, o dobro dos 80 mil (ainda um número elevado) financiamentos para as faixas mais altas. Em uma página interna dedicada à necessidade de dar incentivos à indústria de construção, um dos principais matutinos do Rio, na última semana, mostrava a "queda nas plantas aprovadas na Zona Sul e Tijuca", no título. Quem conhece o Rio, sabe que não daria mais, mesmo, para manter o ritmo de aprovação de plantas na Zona Sul —já que ela foi atingida pelo boom desde 1972, e o que tinha de ser aprovado já o foi. Mas o título era ainda por cima mentiroso: no último parágrafo da notícia, vinha a situação da Tijuca — com avanço na área licenciada.
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Para terminar: os jornais estão cheios de análises mostrando que, com a seca, houve um "déficit" de 5 milhões de dólares na balança comercial do país no primeiro trimestre, acenando com graves perspectivas para essa área, este ano. Bloqueio mental ou má fé? Essas análises cometeram o pecado elementar de omitir que, em março, a exportação cresceu 300 milhões de dólares sobre o ano passado, isto é, o fato mais recente é uma substancial melhora, após o déficit dos dois primeiros meses do ano, praticamente eliminado com o resultado do último mês do trimestre.
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Para Maria da Conceição Tavares, não se deve ter ilusões: "Numa ditadura, as multinacionais e os grandes grupos subornam ou pressionam os burocratas, os políticos; numa democracia, subornarão os deputados, as empresas jornalísticas" – e tudo ficará na mesma. Aqui, não se pode concordar com a mestra. Com a abertura política, pode-se confiar aos próprios sindicatos de jornalistas a tarefa de debater e questionar os rumos que a imprensa brasileira tem tomado. Falar, hoje, nos demônios "do lado de cá", não é visto como "isenção", e, sim, recebido com nomes feios. A "abertura" pode acabar com o sectarismo. Logo, com o bloqueio mental e a má fé.