[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Empresários, credores e sindicalistas

quarta-feira 17 de abril de 1991


Negociações entre operários e Fiesp, tempos atrás. O líder sindical veterano, raposa velha, pede 100% de atualização salarial. O empresário diz que há recessão e retruca com exato “zero por cento” de reajuste. Ameaças de greve, agitação, análises falando em exposição social e que tais. Semanas depois, surge o acordo, na faixa dos 50% - bem próxima da inflação semestral da época. Porque as posições tão radicais dos sindicalistas e empresários, ambos divorciadas totalmente até da taxa da inflação da época, quando se sabia que ambas eram insustentáveis? A pergunta foi colocada a um líder empresarial, por um ingênuo repórter veterano, complementando-a com o argumento de que teria sido melhor para a economia do país que desde o começo as propostas fossem realistas, evitando alimentar temores e análises sobre pressões salariais excessivas, capazes de revigorar a inflação... Com um sorriso matreiro, o líder empresarial, raposa velha, pôs a nu todo o jogo político dos bastidores, o empresariado tinha o maior interesse em fortalecer a posição de liderança do veterano dirigente sindical. “Sabíamos”, explicava o porta-voz da Fiesp, “que teríamos que dar algo em torno de 50% para os trabalhadores, porque essa era a inflação acumulada no período. Por que oferecemos zero? Se oferecêssemos 40% e déssemos 50%, a oposição sindical poderia dizer que o líder fulano de tal conseguiu um avanço muito pequeno dos 10% e até insinuar que ele deveria ter exigido mais. Agora, com a recusa total, criou-se uma vitória estrondosa, ao emplacar nada menos de 50%... Questão de tática, para fortalecer um líder bastante “compreensivo...” Negociação é isso aí: um pede demais, outro oferece de menos, embora se saiba desde o início que será preciso chegar a um meio-termo. Assim, de nada adianta ficar discutindo se o acordo entre governo e credores internacionais, para pagamento dos juros atrasados, representa um recuo ou um avanço em relação às posições defendidas anteriormente pela ministra Zélia e sua equipe. Interessa, mesmo, é avaliar seus efeitos sobre a economia e vida do país, daqui para frente. Concretamente, o acordo conseguido é um reforço para o plano de combate a inflação e de várias formas. Primeiro ponto: ficou acertado que o Brasil pagará somente US$ 2 bilhões em dinheiro, dos quais 45% (ou US$ 900 milhões) à vista e o restante em prestações mensais até o final do ano. Um resultado excelente, para a execução da política econômica, já que os juros atrasados superavam os US$ 8 bilhões e o Brasil conseguiu adiar por três anos o início do pagamento do saldo (os US$ 6 bilhões adiados serão convertidos em bônus, títulos, que serão resgatados em dez anos, mas com três sem nenhum pagamento). De que forma o adiamento do pagamento contribui para o programa de combate a inflação? É simples. Basta lembrar que o grosso da dívida externa hoje é das estatais e, conseqüentemente, a maior parcela dos juros também corresponde a elas. Para pagar juros lá fora, as estatais teriam de “comprar” dólares, vale dizer, teriam de aumentar preços para arrecadar os cruzeiros necessários a essa compra. Em outras palavras, sem o acordo, haveria necessidade de um novo tarifaço, agora descartado. Outra conseqüência antiinflacionária do acordo: com o pagamento dos atrasados, consegue-se a liberação de empréstimos de instituições como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) ou o próprio Banco Mundial. Isso significa recursos “extras” para investir – dispensando, mais uma vez, a necessidade de aumentos de preços e tarifas, na área oficial, para financiar a implantação de projetos. O acordo é a boa notícia que faltava, para o clareamento dos horizontes da economia. Quem quiser, pode tomar nota: a economia já está em recuperação, sim, e isso vai ficar patente muito em breve. Sintoma importante, ao qual os analistas não costumam atentar: nos jornais especializados, os anúncios de oferta de emprego do primeiro domingo do mês deram um salto para 34 páginas, contra os níveis anteriores de 16 a 24 páginas. As empresas estão recontratando – porque as vendas acusam recuperação e a produção precisa crescer. Os empresários ainda negam isso, mantém a choradeira, até por uma manobra maquiavélica (que vem ganhando o apoio das centrais sindicais): querem aterrorizar a opinião pública com o pretenso agravamento da recessão, para obter o descongelamento total e abrupto de preços. Não aceitam o descongelamento gradual, com controles, que o governo já começou a implantar. É pena. O empresariado brasileiro quer jogar no lixo os avanços já obtidos na luta contra a inflação e não dá mais para escondê-los: o índice da Fipe para março ficou em apenas 7,49%, muito abaixo dos 12% a 14% previstos por ex-ministros. O índice de custo de vida no Rio, da FGV, ficou em 6,3%. E assim por diante. Há condições de consolidar a queda da inflação. Se a mentalidade mudar. De empresários e de lideranças sindicais...



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