Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 12 de março de 1982
As exportações brasileiras, no mês de fevereiro, caíram 15%, para apenas US$ 1,4 bilhão: com isso, o resultado acumulado dos dois primeiros meses do ano limitou-se a US$ 3,2 bilhões, o que significa que, para o País exportar os US$ 28 bilhões anunciados pelo ministro Delfim Neto, o Brasil precisaria vender US$ 25 bilhões nos dez meses restantes, isto é, a bagatela de US$ 2,5 bilhões por mês. Lógico que isso não vai acontecer. Antes, porém, que o País entre em mais um tolo debate em torno de estatísticas, é preciso lembrar que o importante, para o Brasil, é o significado desses resultados: eles mostram que toda a política econômica do ministro Delfim Neto é absolutamente equivocada, feita de remendos sobre remendos, sem levar a uma saída.
O ministro Delfim Neto, sem anunciar, fez até uma mididesvalorização do cruzeiro nos últimos meses, para aumentar as exportações - inutilmente, ou melhor, até contribuindo para aumentar a sua queda. O País precisa repensar sua estratégia, pois a política atual está provocando apenas inflação, desemprego, déficits do Tesouro, perda de dólares, endividamento externo, sacrifício inútil do povo. Em síntese, “o rabo continua a devorar a cobra”.
Como ocorreu a “mididesvalorização” do cruzeiro? È simples: tradicionalmente, a desvalorização do cruzeiro (como de qualquer outra moeda) era calculada com base na diferença entre a inflação brasileira e a inflação mundial (dos países industrializados). Como a inflação mundial está na casa dos 10% ao ano, e a inflação brasileira nos últimos doze meses foi de 91,8%, a correção cambial, isto é, a desvalorização do cruzeiro "justa" seria de 81,8%, apenas. Desde o ano passado, no entanto, o ministro Delfim Neto decidiu que deixaria de "descontar" a inflação mundial no cálculo da desvalorização do cruzeiro, isto é, daria um prêmio da ordem daqueles 10% aos exportadores (quanto mais o cruzeiro cai, mais fácil e lucrativo fica exportar, já que o exportador troca os dólares recebidos na exportação por um valor maior de cruzeiros: se o dólar vale 100 cruzeiros, ele recebe 100 mil cruzeiros em troca de 1.000 dólares exportados; se o dólar passa a 110 cruzeiros, isto é, o cruzeiro cai 10%, ele receberá 110 mil cruzeiros, ou 10% mais, troca de 1.000 dólares).
Lógico que, em um país que tivesse uma opinião pública atenta, essa decisão do ministro não passaria em branco, por ser um privilégio dado às empresas que exportam, às custas de toda a Nação. Por quê? A desvalorização “extra” do cruzeiro provoca ainda mais inflação, já que a cada queda da moeda nacional as importações ficam mais caras: matérias-primas, produtos básicos usados pela indústria, petróleo, tudo encarece, “puxando”, para cima todos os preços dentro da economia. Só mesmo no Brasil um ministro poderia encarecer as importações, provocar inflação, enquanto adota uma política salarial que achata os ganhos dos profissionais de classe média – e ainda se dá ao luxo de sair por aí dizendo que são os salários que impedem o combate à inflação...
A desvalorização “extra” de 10%, faça-se justiça, foi publicamente anunciada pelo ministro. Só que ele não parou nesses 10%: até fins de fevereiro, a taxa anual de inflação brasileira foi de 91,8%, e a desvalorização do cruzeiro, assim que começou março, alcançou 99,8%, ou 18% a mais que os 81,8% justos, correspondentes à diferença entre 91,8% de inflação brasileira e 10% de inflação mundial. Quer dizer, o ministro Delfim Neto, sem alarde, fez uma “mididesvalorização” de 18%, praticamente 20%, a pretexto de aumentar as exportações, com os resultados pífios que se viu nessa área.
Além de aumentar a inflação, a “mididesvalorização” é um exemplo típico de uma política onde o “rabo come a cobra”: a queda excessiva do cruzeiro provoca redução no volume de dólares recebidos pelo País, provoca perda de dólares, não combate o crescimento da dívida externa.
Por quê? É simples: suponha-se um exportador que, para ter lucro, precise vender seu produto, no Exterior, por 1.000 cruzeiros, isto é, precisaria cobrar um preço, em dólares, que fosse trocado por 1.000 cruzeiros. Se o cruzeiro sofre desvalorização extra de 20%, ele poderia trocar, os mesmos dólares, por 1.200 cruzeiros, isto é, 20% a mais, ou 200 cruzeiros a mais. Então, o exportador simplesmente não “faz força” para obter o melhor preço: ele se contenta com um preço – em dólar – que, ao ser trocado, lhe renda 1.100 ou 1.000 cruzeiros, isto é, ele “reduz” os preços em dólar, em 10% ou 20%. Com isto, o País acaba perdendo milhões e milhões de dólares, graças a uma desvalorização excessiva do cruzeiro, alimentadora da inflação. O governo não sabe disso? Deve saber: há uns dois meses, o diretor da Cacex, Benedito Moreira, em reunião com os exportadores, noticiadas pela imprensa, pedia que eles brigassem por preços melhores lá fora, numa confissão tácita de que o governo está fechando os olhos aos sub-preços cobrados nas exportações brasileiras.
Lógico que apenas a “mididesvalorização” não explica a queda nas exportações do País, e nem é isso que se está pretendendo dizer. As exportações brasileiras estão caindo principalmente por causa da nova reviravolta no mercado mundial, marcada pelas dificuldades que os países da Opep vêm enfrentando e que vêm fechando mesmo os “mercados novos” para as mercadorias brasileiras. Onde os dois fenômenos se ligam? As desvalorizações excessivas do cruzeiro são uma tentativa, errada, do ministro Delfim Neto de dar preços competitivos a determinados produtos brasileiros – quando o problema é de falta de mercado, a esta altura. A mididesvalorização não atinge os objetivos pretendidos. Pior ainda: faz o País perder dólares.
Moral da história: a estratégia econômica brasileira está equivocada, ao insistir no esforço exportador como solução para os problemas do País. Atenção a este pormenor: essa estratégia acreditava que a economia poderia crescer, e o desemprego diminuir, graças à produção destinada à exportação. E agora?