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  Empresários questionam pouco o candidato do PDS

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 20 de maio de 1982


Há algumas semanas, o presidente Figueiredo conclamou os políticos do seu partido a não hesitarem em criticar os erros do próprio governo, no transcorrer da campanha eleitoral. À primeira vista, o gesto presidencial seria um convite à autocrítica, benéfica ao País, se encarada como um possível ponto de partida para um processo de correção de rumos. A julgar pela participação do ex-prefeito Reinaldo de Barros, candidato do PDS ao governo de São Paulo, no programa de TV “Critica e Autocrítica”, na noite da última terça-feira, o reconhecimento de desacertos não desemboca, forçosamente, no reconhecimento da necessidade de mudanças — surgindo, antes, como uma tática eleitoral destinada a evitar que apenas a oposição, através de uma posição critica, capitalize o descontentamento popular ante a persistência de problemas óbvios. Durante 90 minutos, o ex-prefeito paulistano mostrou-se contrário à atuação do governo federal, tanto no campo político como econômico: do “pacote” que estabeleceu a vinculação de votos à construção de usinas nucleares, sua posição foi de descordância. Declarou-se, até, favorável a uma Constituinte, bandeira das bandeiras da oposição... Na hora de apoiar mudanças, porém, o tom foi outro, bem de acordo com a cartilha oficial dos últimos anos: “É preciso estudar”, “o momento talvez não seja oportuno” e assim por diante. Suas respostas evasivas foram enormemente facilitadas pelo desempenho de seus interlocutores, Thomás Magalhães (alto nível em todas as perguntas, mas nunca questionando verdadeiramente o entrevistado, seu “grande amigo de muito tempo”), presidente da Abemi - Associação Brasileira de Engenharia Industrial, e Luís Roberto Andrade Ponte, presidente do Sindicato da Construção Civil do Rio Grande do Sul, dois representantes, portanto, do setor de empreiteiras. Um clima extremamente amistoso foi construído para receber o candidato do PDS ao governo de São Paulo no programa promovido pelo Jornal “Gazeta Mercantil” — num contraste violento com a recepção preparada para Lula e Olívio Dutra, candidatos do PT ao governo de São Paulo e do Rio Grande do Sul, onde os questionadores foram dois líderes empresariais, Mario Garnero e César Valente, que cumpriram aguerridamente o seu papel.

A CONTRADIÇÃO

Em síntese, eis os pontos de vista do ex-prefeito Reinaldo de Barros:

* Invasão de terras, questão urbana — o tema foi colocado em nível elevado por Thomás Magalhães: como vê o conflito entre o direito da propriedade e a teoria do bem comum (que justificaria até a desapropriação de terras, para resolver problemas sociais)? Após muitos volteados, o entrevistado admitiu que a legislação do uso do solo tem que ser revista, pois há terrenos desocupados, “guardados” com fins especulativos, encarecendo o custo da construção e dificultando a solução do problema da moradia para a população pobre etc. Em teoria, a favor de mudanças. Na prática, declarou-se contrário a uma “legislação multo ampla”, como a que o governo federal encaminhou recentemente (e que estava em fase final de elaboração já no governo Geisel, dando bem uma medida da distância que vai entre o diagnostico das distorções e a decisão de corigi-los). “Legislação muito ampla dá trombada”, disse o ex-prefeito, numa alusão à onda de reações que elas provocam (por parte dos interesses contrariados). Defendeu também a necessidade de dar maior autonomia a Estados e Municípios para resolverem seus problemas, já que o País é imenso, um Estado não é igual a outro. Colocação, em tese, absolutamente correta. Na prática, Reinaldo de Barros mostrou que não apenas a diferença entre regiões, mas também entre “estilos de governar” contam na balança: o ex-prefeito Olavo Setúbal, baseado na experiência francesa, planejou instituir o regime de "solo criado", na capital, como forma de combater a especulação imobiliária e aumentar os recursos da Prefeitura, arrecadando-os de quem se beneficia com obras públicas. O candidato do PDS, numa explicação reveladora, contou: “Estudamos longamente o sistema: Perguntei aos técnicos: resolve o problema (da questão urbana)? Os técnicos disseram: não resolve, mas melhora. Aí, eu disse, se não resolve, então fica como está...”

* Constituinte — admite a necessidade de reformar a Constituição. Já que ela sofreu muitos “enxertos”, nos períodos de exceção dos últimos anos. Mas não agora, não com o Congresso eleito nas próximas eleições. Quem sabe uma Assembléia Constituinte, especialmente eleita daqui a um ou dois anos?

* Balanço de pagamentos, inflação, desemprego — não respondeu à pergunta de Thomás Magalhães, preferindo devolvê-la: “e o senhor, como vê o problema do balanço de pagamentos?” E não se tocou mais no assunto.

* Abertura — declarou-se a favor da eleição direta para prefeitos das capitais e, depois, até para Presidente: “a democracia tem que ser total, ou então não é”. Propôs, porém, que, no caso dos prefeitos das capitais, o candidato a prefeito tivesse seu nome vinculado (na mesma chapa) ao do candidato a governador, para evitar a eleição de governador de um partido, e prefeito de outro, criando-se situações de conflito. Luís Roberto de Andrade considerou proposta antidemocrática e inviável: o eleitorado do interior vota para governador, e não vota no candidato a prefeito da capital, óbvio. Como fazer a “chapa conjunta”?

* Paulipetro — após as inevitáveis criticas contra a “estatização da economia”, o candidato Reinaldo de Barros foi interpelado: fecharia a Paulipetro, criada pelo governador Maluf? Sua resposta: “É preciso fazer estudos, para ver se vale a pena mantê-la ou não”. Uma resposta que, segundo os economistas, já existe há multo tempo: o País deve aplicar seus recursos racionalmente, e isto significa investir em áreas ou setores onde o retorno seja maior. Mesmo que a Paulipetro encontre petróleo, o custo da perfuração de seus poços é multas vezes mais alto que em regiões mais promissoras. Seu petróleo será caro. Um empreendimento antieconômico.

* Energia nuclear — para o entrevistado, o Brasil precisa dominar a tecnologia na área, teria que investir num programa nuclear, portanto. No entanto, considera que uma ou duas usinas seriam suficientes para isso, sendo desnecessárias todas as unidades previstas. Em teoria, foi contra.

* Dividas das empreiteiras — Reinaldo de Barros criticou o Estado, “mau empresário”, “mau administrador” e, por isso, mau pagador, atrasando pagamentos aos fornecedores, inclusive empreiteiras. Lembrado de que o governo Paulo Maluf está nessa situação, teceu loas ao governador: “ele trabalha demais, nem dorme, quer servir. É tão dinâmico, que às vezes não tem tempo para cronogramas, começa obras sem eles...”



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