Segundo semestre de 1994. O Congresso discute o Orçamento para 1995, surge a “guerra” em torno de verbas. O economista Edmar Bacha, ainda na equipe FHC, mostra que todo o debate é pura encenação: basta ignorar o Orçamento aprovado, diz ele, e só liberar recursos para quem o grupo dominante quiser. Ou ainda: é possível controlar o rombo do Tesouro, simplesmente controlando “a boca do caixa”.
E, numa frase, Bacha revela a visão que o governo FHC tem, em relação ao funcionamento da sociedade e à vida humana: “Basta tapar os ouvidos para não ouvir a gritaria e fechar os olhos à desgraceira ao redor”. Essa “plataforma de governo” da equipe FHC tem sido cumprida à risca: desrespeita-se o Orçamento aprovado pelo Congresso, e ano após ano libera-se metade, ou um terço, dos recursos destinados à saúde, à reforma agrária, à pesquisa, ao DAC, à Polícia Federal, ao crédito rural.
O Brasil que estamos vivendo, autêntica panela de pressão em via de explodir, é apenas o resultado de três anos da política da equipe FHC. As desgraceiras prometidas estão aí: falta de vacinas, epidemias de sarampo, dengue, malária, tuberculose etc.; falta de segurança nos aeroportos, porque o DAC está desmantelado; falta de condições para a Polícia Federal (teve até luz e telefone cortados, em sua sede em Brasília, por não pagar as contas...) investigar remessas ilegais de dólares, casos de corrupção e outros que roubam dólares e dinheiro dos impostos; agricultores transformados em sem-terra porque colheram e tiveram prejuízos ao vender suas colheitas; sem-terra vagando pelo país; policiais (e militares) em rebelião porque ganham salários ridículos e estão três anos sem reajustes... O país vive um quadro dramático. Mas é preciso juntar todos esses fatos e entender que, por detrás deles, há uma origem comum: a política de “desgraceiras” prometida.
No passado, mesmo na época do regime militar, os meios de comunicação mostravam claramente, à sociedade, as causas dos problemas que afligiam o país. Nos últimos anos, vive-se situação oposta: há explicações mentirosas, espalhadas aos quatro ventos, para justificar qualquer mazela.
1. Falta dinheiro - Os Estados estão quebrados, diz-se, por causa de desmandos de governadores e ex-governadores. A realidade: as incríveis taxas de juros, mantidas pelo governo FHC a pretexto de atrair dólares, estouraram de vez as finanças estaduais. De janeiro de 1995 a janeiro de 1997, em dois anos, os Estados foram sangrados em R$ 46 bilhões. Em juros. Não sobra dinheiro para reajustar salários da PM ou não.
2. Falta dinheiro - Em apenas 12 meses, até abril deste ano, a União também pagou R$ 46,3 bilhões em juros. Tanto quanto 5,6% do PIB.
3. Dólares - Há uma enxurrada de dólares para o Brasil, diz-se. O “grande interesse internacional” facilita a contratação de empréstimos no exterior, tanto por empresas quanto por bancos brasileiros. Por isso, o “rombo” provocado pela enxurrada de importações e remessas de multinacionais, além dos juros pagos ao exterior, não preocupa.
A realidade? Na semana passada, o Banco Central divulgou estatísticas reveladoras – e preocupantes. Primeiro: o número de operações financeiras (lançamento de títulos etc.) caiu de 113 para 79 (comparação entre o segundo trimestre de 1997 e de 1996). Segundo: os juros voltaram a subir para a faixa dos 11% ao ano, taxa elevada para o mercado mundial. Terceiro: o valor contratado subiu, realmente, de US$ 7,9 bilhões para US$ 11,3 bilhões. Mas isso se deveu somente ao próprio setor público, ou mais exatamente ao governo federal, com emissões maciças de títulos – a juros elevadíssimos. Os empréstimos obtidos por bancos privados (nacionais ou filiais de múltis) caíram de US$ 1,9 bilhão para US$ 1,6 bilhão; para empresas em geral, o valor ficou inalterado em US$ 3,2 bilhões (mas o número de operações caiu de 72 para 45).
Agricultura - Os bancos, diz-se, tomaram empréstimos no exterior e ampliaram o crédito à agricultura. A realidade: dados do Banco Central mostram que, na soma final, os bancos emprestavam apenas R$ 18 bilhões em setembro/outubro (plantio no Sul/Sudeste) à agricultura, abaixo dos R$ 20 bilhões de um ano antes. Descontados a inflação do período e os juros (incluídos naqueles saldos, distorcendo-os), a queda real foi muito maior.
E tome desgraceira.