O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Goiás ganha seu I.F Stone
por Euler Belém

Diário da Manhã, 25/07/1994

Americano que fascinou o continente com um jornal de quatro páginas é o modelo mais próximo do editor-geral do DM

Este artigo é sobre o Jornal *Diário da Manhã* e sobre o jornalista Aloysio Biondi. Mas, antes, escrevo sobre Isidor Feinstein Stone (1907-1989). I.F. Stone, ou apenas Izzy, escreveu e editou sozinho um jornal de quatro páginas – *I.F. Stone’s Weekly* -, que causou sensação na América. Era um pequeno grande jornal. Biondi sempre me lembrou Izzy. Acho difícil compara-lo com outro jornalista. I.F. Stone como Biondi, não tinha diploma universitário. Preferiu ser jornalista. Aos 14 anos, lançou seu primeiro “jornal”, o mensário *Progress*. Depois, no mercado, trabalhou em vários jornais. Sempre polêmico e irônico. “Você tem que ser irônico desde a hora em que sai da cama”, dizia.

Em 1950, mudou-se para a Europa como correspondente do *Daily Compass*. Seu primeiro grande feito jornalístico foi descobrir que governo e imprensa americanos mentiam sobre a guerra da Coréia. Na verdade, os Estados Unidos eram os causadores da guerra. O objetivo principal dos americanos era controlar o Sudeste asiático. Dizer isso hoje é lugar-comum, mas na época, foi um furo internacional. Os franceses Jean Paul Satre, entre eles – ficaram entusiasmados com Stone. Sintomaticamente, 28 editoras se recusaram a publicar o livro do jornalista sobre a guerra na Coréia. Paul M. Sweezy e Leo Huberman, dois marxistas, conseguiram publicá-lo.

Em 1952, Stone não estava conseguindo bons empregos na grande imprensa. Não pensou duas vezes. Criou uma *Newsletter* semanal. Como dispunha – conta o jornalista Sergio Augusto – da listagem de assinantes de três publicações para as quais havia trabalhado, assegurou de saída 5.300 leitores, entre os quais se destacavam Bertrand Russell, Albert Einstein e Eleanor Roosevelt. Preço da assinatura: cinco dólares. O suficiente para cobrir as despesas de gráfica e tirar dois salários: um (de 125 dólares) para ele e outro (de 75 dólares) para uma secretária, logo substituída por Esther, a abnegada sra. Stone. Repito: o jornal era escrito e editado só por Izzy.

O primeiro número do *I.F. Stone’s Weekly* saiu no dia 17 de janeiro de 1953. A tiragem dos três primeiros anos era de 10 mil exemplares. A partir de 1963, chegou a 20 mil exemplares. “Pouco antes de virar quinzenal, em 1968, por conta de um infarto e de um descolamento de retina sofridos por seu *factotum*, o alternativo mais bem informado do planeta ultrapassou a barreira dos 40 mil leitores”, escreve Sergio Augusto no prefácio de *O Julgamento de Sócrates*, belo e revolucionário livro de Stone. Mais tarde alcançou 74 mil exemplares e, devido às críticas bem fundamentadas, chegou a ser incluído entre as 25 publicações regularmente resumidas para o presidente da República dos EUA.

Fazer um pequeno jornal sozinho não foi fácil. “os primeiros anos foram solitários. Sou naturalmente gregário, mas me puseram no ostracismo. Meus leitores me sustentaram. Ninguém jamais teve um público tão carinhoso como eu, e as cartas, compensaram a frieza com que me tratavam em Washington. Ninguém pode ter sido mais feliz do que eu com o *Weekly*. Dar um pouco de conforto aos oprimidos, expressar a verdade exatamente como eu a vejo, não aceitar imposições, exceto aquelas ditadas pelas minhas deficiências naturais, não ter outro senhor que não minhas próprias compulsões, procurar viver à altura de minha imagem idealizada do que deve ser um verdadeiro jornalista, e ainda assim conseguir que minha família sobrevivesse – o que mais pode um homem pedir?”

O leitor deve estar se perguntando: mas que diabos I.F. Stone e seu pequeno jornal tinham de importante? O *I.F. Stone’s Weekly* tinha apenas quatro páginas, mas publicou vários *furos*. Stone se orgulha de ter flagrado o físico Edward Teller, o pai da bomba de hidrogênio, mentindo sobre os efeitos de explosões atômicas subterrâneas em 1957, e o denunciou com a veemência que o *ersatz* do Dr. Fantástico merecia. O físico ficou com a reputação abalada e o prestígio de Stone subiu.

Ao ficar surdo, Izzy não pensou que estava acabado. “Deixou seus colegas de profissão anotando e transcrevendo as vozes do poder e passou a trabalhar com os olhos, xeretando e cotejando declarações e documentos oficiais – por ele apelidados de “diários da burocracia” – além de jornais e revistas dos EUA e da Europa. E assim confirmou o que já desconfiava: que qualquer governo faz tudo para esconder verdades incômodas”.

Em 1989, um mês antes de morrer, I.F. Stone, que já foi chamado de “o herói da guerra fria”, concedeu uma interessante entrevista ao jornalista Argemiro Ferreira, colaborador da revista *Imprensa*. Na apresentação da entrevista, Ferreira diz que o socialista Stone (que preferia Jefferson a Marx) tinha como princípio que “ a filiação partidária é incompatível com o jornalismo independente”. 9biondi não chega a tanto. Ele próprio é apartidário, mas admite que outros jornalistas se filiem a um partido. Podem até babar pelo Fernando Henrique Cardoso, só não podem permitir que sua matéria não seja isenta.)

Stone disse à revista *Imprensa *que existe (a entrevista é de 1989) nos Estados Unidos “muita hostilidade em relação à imprensa. Uma hostilidade que às vezes parte de gente ignorante, que nada sabe – tanto à esquerda quanto à direita - uma geração jovem, malformada e que não gosta de ler. Essas pessoas não costumam perceber o sentido da História. E não ter o sentido da História significa não conhecer a si mesmo”.

Biondi diz que os jornalistas devem ler jornais. Stone perguntava: “ Como é que pretendem ser jornalistas se não lêem jornais?”. “ Ninguém será bom jornalista se não estudar História, Filosofia, Economia. Não é possível ser jornalista se não entender a sociedade. Não basta aprender a usar a máquina de escrever.”

O que o jornalista deve fazer para não ser ludibriado pelas fontes oficiais. “Checar, checar, ler as provas, ler os documentos. Não se deixar convencer por determinadas afirmações pelo fato de estarem impressas. Coisas impressas e a matemática são etrnas fontes de erro”.

*Imprensa* perguntou: “E o que esse jovem de 81 anos ainda planeja para o futuro?”. I.F. Stone respondeu: “Continuar aprendendo. Ainda tenho muito a aprender. Toda noite, leio e estudo um pouco antes de ir para a cama. Quando leio os jornais, é como se estivesse lendo a História que se desdobra. Quando leio História, eu me sinto como se estivesse lendo jornais de 2 mil anos atrás”.

No fim da entrevista Stone disse que “uma porção de coisas boas também acontece no mundo. E um jornalista tem de ter fé.É muito fácil ser cínico, prefiro espantar-me com as coisas boas que têm acontecido – tantas coisas inesperadas no meu tempo de vida. Há esperança”.

Estilo brigador

Pois bem. Há esperança. E aqui começamos a falar do *Diário da Manhã* e de Aloysio Biondi.

Biondi é uma espécie de I.F. Stone brasileiro. Sempre tive a impressão que um excelente texto – apenas um – faz um jornal ficar melhor. Nos últimos tempos, aos domingos, li todos os artigos de Aloysio Biondi publicados na *Folha de São Paulo*. Por que? Porque depois de vasculhar todas as páginas dos cadernos de economia, era no seu artigo dominical que eu encontrava a divergência, o outro lado. Enquanto a imprensa parecia confusa ao examinar a URV e o que realmente pretendia o governo, Biondi apontava sua metralhadora e atirava.

As críticas eram duríssimas, talvez as mais duras, contra a gestão do ministro Fernando Henrique Cardoso. Mas Biondi não se contentava com a crítica ao projeto do ministro da fazenda. Mostrava que, no mesmo governo, o ministro do Trabalho, Walter Barelli, tinha um projeto diferente, e melhor. Hoje, com a implantação do Plano Real, que o jornalista prefere qualificar de *Irreal*, quando alguns iluminados apostam que a alternativa a ele é o caos. Biondi diz que não. A alternativa, a melhor delas, é a negociação, o fracasso do real abre possibilidade para um plano melhor.

Biondi me disse que não se considera uma voz solitária nas críticas ao plano do governo Itamar Franco. E citou a economista Maria da Conceição Tavares. Tudo bem. Mas Tavares é candidata a deputada pelo PT. No meio jornalístico a voz que critica com dureza o plano é a de Biondi. É voz de independência e, igualmente importante, a voz da competência.

Talvez o tom certo esteja com o jornalista Washington Novaes: “ A independência do Aloysio é admirável. Não é ligado a grupos, partidos e teorias. Já brigou muito e nunca perdeu uma briga”. Depois de ler isso, quem aposta no real, de forma incondicional, deve ter no mínimo um pouco mais de cautela. Novaes ainda acrescenta: “Aloysio é a pessoa que mais conhece de economia no Brasil”.

Com quase 40 anos de jornalismo, dono do primeiro Prêmio Esso concedido a um assunto ecológico (os desmatamentos), em 1967, Biondi assume a editoria-geral do *Diário da Manhã*. Não veio para fazer milagres. Mas sim um bom jornal – um jornal que, saindo de Goiânia, conquiste o Estado e, com o tempo, o país.

Pode parecer megalomania do diretor-geral, Batista Custódio. Mas só quem pensa grande – com ou sem megalomania – constrói obras duradouras, de referência. Batista Custódio, quando contratou Washington Novaes para editor-geral, não foi entendido. Foi muito criticado. Muitas pessoas – principalmente jornalistas – não entenderam seu projeto de fazer um jornal nacional a partir de Goiás. O *Diário da Manhã* nunca alcanço tanta repercussão quanto no período de Novaes como editor. Hoje, temos como primeiro colocado em circulação o jornal *O Popular*, que porem, não alcança repercussão nacional e, pelo conteúdo, não tem a mesma credibilidade que tinha o *DM*. Torço para que os jornalistas goianos entendam a vinda de Biondi. Que entendam sua vinda como se o DM estivesse adquirindo um computador de ponta. Aloysio é uma peça nova, moderna, arejada. Não veio só para somar. Chegou para transformar, para fazer um grande jornal.

Quando Washington Novaes contratou Reynaldo Jardim, uma patotinha decidiu provoca-lo. Criativo, o poeta-jornalista-faz-tudo não perdeu tempo. Com bom humor, cunhou expressões para qualificar as pessoas que não entendiam sua vinda para Goiás e as pessoas que vinham para o Estado para amá-lo e melhorá-lo. Assim, havia os *goianocas* e os goianeiros. Espero que os goianocas tenham desaparecido. Pouca gente na época conhecia o Reynaldo. Os jornalistas não sabiam que Reynaldo era o verdadeiro pai dos cadernos culturais – como o *DMRevista* e o *Caderno 2 de O Popular* (hoje *O Popular 2*) -, todos filhos do *Jornal do Brasil*, no qual Jardim, Jânio de Freitas, Amílcar de Castro e outros comandaram uma grande reforma gráfica e jornalística. A gente precisa entender isso. Precisa entender que Reynaldo tem história, que merece respeito. Felizmente, o trabalho de Washington Novaes parece hoje bem assimilado. E com certeza Aloysio não enfrentará as patrulhinhas que adoram fechar (e nunca abrir) jornais.

Salto qualitativo

O *Diário da Manhã* cresceu de forma extraordinária nos últimos sete anos (o jornal dessa segunda fase completa oito anos em outubro). Quem está no jornal, e não se permite o distanciamento necessário para julgar, talvez não consiga perceber isso.

Quem for isento e capaz de um distanciamento mínimo, perceberá que o *Diário da Manhã* esta informatizado e emprega um número de trabalhadores maior que o da maioria das empresas goianas. Notará também que o sensacionalismo esta sendo banido de suas páginas. Claro que vai perceber também que muitas matérias são mal-escritas e mal-apuradas. Recentemente, o jornal publicou reportagem contando que um empresário não havia violentado o enteado. No dia seguinte, o jornal relatou que o mesmo empresário havia sido condenado a oito anos de prisão. Então, se uma reforma tecnológica está sendo implantada com alguma rapidez (e com alguns desastres: basta comparar o pôster da seleção publicado por outros jornais com o publicado pelo *Diário da Manhã*. O do *DM* é pura *sombra*. O *DM* tem equipamento, mas não chegou à sua utilização perfeita), falta reforma de conteúdo e gráfica. Quem entende o mínimo de jornal fica com a impressão, às vezes, de que o editor não trabalhou na página. Ou seja, que ela foi editada pelo diagramador.

Temos a hábito de reivindicar mudanças drásticas, mas, quando elas nos atingem, queremos cair fora. Mudar é dolorido, por isso mesmo nós preferimos o *discurso da mudança* à mudança verdadeira.

Há um consenso no *DM* de que se o jornalista Batista Custódio morrer, a empresa fecha as portas. É consenso também de que a empresa sempre foi desorganizada e, como *O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e claro*, entre outros, a revista *Veja*, que seu comando está estribado na família Batista. O jornalista Batista Custódio sabe disso, mas, como raposa, sabe mais que isso.

Portanto, quando traz um jornalista da importância de Aloysio Biondi, ele quer consolidar o Diário da Manhã como empresa e jornal. Com Aloysio no comando, editando um jornal de credibilidade, com grande circulação, Batista Custódio terá tempo para formular uma empresa que sobreviva a ele. Não deixa de ser curioso que Batista é a pessoa que menos resiste a mudanças no jornal. Escrevo isso porque trabalhei sete anos no *DM* e conheço a personalidade jovial e renovadora do Batista. Por trás da desorganização do jornal – tão anunciada nos bastidores -, sobrevivem deficiências profissionais irrecuperáveis. Os profissionais de *competência aleijada* ficam contra qualquer mudança.

Há excelentes profissionais no *DM*, mas na maioria estão subaproveitados. Uma vez um diretor do DM me disse que o Nilson Gomes devia ser demitido porque escrevia muitas “sacanagens”. Na presença do Batista Custódio, eu disse que o jornal deveria amadurecê-lo, porque o Nilson é, seguramente, um dos jornalistas mais talentosos da atual geração. Sua rebeldia deve ser produtivizada. Se ele escrever que todos os políticos são corruptos (digo se, porque não sei se ele escreveu), o editor deve explicar a ele que, quando o jornalista diz isso, protege exatamente os corruptos. Atinge os honestos.

Outro bom texto é do Adalto Alves, na minha opinião desperdiçado ao ser confinado como crítico de cinema e música. Quando falaram em demiti-lo, fui contra.

Aloysio vai encontrar outros bons profissionais em Jávier Godinho (extremamente produtivo e com excelente capacidade de síntese), Renato Dias, Mazinho, Jayro Rodrigues, Rogério Lucas, Ulisses Aesse, Rodrigo Czepak, Carla Monteiro, Edson Costa (a coluna *Distrito Zero* é um primor de grossura, mas tem estilo próprio, com histórias concisas e divertidas, daí ser admirada por Bernardo Elis, Antonio José de Moura e Reynaldo Jardim). O que é preciso pé torná-los mais produtivos para o jornal. Quem faz assessoria e comanda uma editoria não tem qualquer liberdade jornalística.

Estou em outro jornal – o semanário *Jornal Opção* -, mas vejo com bons olhos a chegada do Aloysio Biondi, um jornalista que respeito pela competência profissional e pela lisura pessoal. Não creio que feudos sejam capazes de desanimá-lo. Torço para que faça um bom trabalho. O *DM* se destacando é bom para todos – Goiás, mercado empresarial, leitores e jornalistas.

Seja bem-vindo, Aloysio.

*Euler Belém é editor-geral do Jornal Opção



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