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  É a hora de berrar, gente

Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 25 de novembro de 1983


Prefeitos lotaram galerias, e conseguiram que o Congresso aprovasse um projeto que dará mais de meio trilhão de cruzeiros a Estados e Municípios, em 84, e mais 2,5 trilhões, daqui a cinco anos. O ministro Delfim Netto contra-ataca, e ameaça aumentar impostos e elevar os preços da gasolina e de outros derivados do petróleo, para compensar a perda de receita da União, que será transferida para governos locais. Em poucas palavras: mais uma vez, empresas e consumidores correm o risco de pagar o pato.

Precisa ser assim? Não. Assim como a pressão dos prefeitos e governadores surtiu efeito sobre o Congresso, empresas e consumidores precisam entender que, no momento atual, “quem berra já mama”. Cabe a eles berrarem, também, que não estão dispostos a pagar a conta criada por outros. Entidades empresariais, sindicatos, associações de todos os tipos devem organizar rapidamente manifestações, despejar enxurradas de cartas e abaixo-assinados no gabinete do presidente da República, dos congressistas, de quem tem poder político neste País, insurgindo-se contra a elevação de impostos e mesmo contra o aumento dos combustíveis.

Só protestar não adianta: é preciso também propor. Pois então: que se proponha ao presidente da República, aos congressistas, a quem tem poder, que se determine, ao ministro Delfim Netto, caminhos menos anti-sociais para engordar os cofres do Tesouro. Qual é esse caminho? Chegou a hora de exigir que o Governo Federal abandone a atitude de tolerância e conivência que manteve até hoje em relação às grandes fraudes dentro da economia, às atividades dos detentores do chamado “dinheiro frio”, que circula sem identificação nos mercados de ouro, do dólar, da especulação com produtos alimentícios na Bolsa de Mercadorias, no contrabando de soja, de café, de açúcar, de peças e componentes, de metais, de tudo enfim. Não é possível, a empresas e consumidores, aceitarem aumentos de impostos e de preços dos combustíveis, a pretexto de cobrir “rombos” do Tesouro da União, se neste exato momento o governo quer exatamente perdoar o Imposto de Renda sobre os lucros resultantes de todas essas atividades clandestinas e criminosas.

Uma blitz contra esses sonegadores certamente traria, para os cofres da União, não apenas o meio trilhão de cruzeiros agora perdido para Estados e Municípios, mas muitos e muitos trilhões de cruzeiros. Como efetuar essa operação? Não se diz que as estatais têm excesso de gente? Não se diz que é preciso demitir funcionários? Pois então: que eles sejam prontamente deslocados para uma “operação ampla” de fiscalização e repressão às fraudes, sob coordenação do pessoal especializado do governo.

As pressões de empresas e consumidores não devem ser exercidas apenas sobre o governo federal. Também nos Estados e Municípios, é hora de cobrar de governadores e prefeitos: onde está o combate à sonegação, tão prometido à época da campanha eleitoral? Cadê os grandes sonegadores punidos? Nunca existiram? Ou houve cooptação? De quem?



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