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  Em leilão, o futuro do País

Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 7 de outubro de 1983


Quaisquer que tenham sido os motivos, o fato é que o governo abriu o diálogo em torno do decreto 2.045, declarando-se disposto a aceitar alternativas que atinjam os mesmos objetivos buscados com aquele projeto. O Congresso, os economistas de oposição, devem apresentar suas propostas, urgentemente. Motivo: de uma decisão nessa área (redução do déficit público) depende da conclusão dos acordos com os banqueiros e com o Fundo Monetário Internacional. Concluídos esses acordos, os dólares voltarão a entrar no País, o impasse cambial estará contornado, temporariamente. O Brasil se livrará da perigosa “novela das oito”, que foi no que se transformou o noticiário em torno da renegociação da dívida externa, tema monocórdico, há meses, que domina toda a vida do País. Uma novela perigosa, pois, enquanto todos ficam com as mentes e os corações voltados para seus capítulos, distorções dantescas ocorrem no País. Por exemplo: se a imprensa não vivesse tão obsecada com a “renegociação”, certamente teria alertado, logo no começo para as manobras especulativas com alimentos, iniciadas em julho – forçando o governo a tomar medidas para contê-las. A inflação seria menor, os remédios para combater a inflação poderiam ser mais suaves, e assim por diante.

Há problemas ainda mais amplos, porém, reforçando a urgência de uma solução negociada para o 2.045, para que a nação possa passar a fiscalizar o desempenho do governo em todas as áreas. Neste momento, por exemplo, decisões que poderão afetar, elas sim, o futuro do Brasil, estão prestes a ser tomadas. Estamos recebendo a visita, neste momento, do ex-ministro das Finanças dos EUA, Michael Blumenthal, hoje presidente da Burroughs Corporation, uma das cinco maiores fabricantes mundiais de computadores. Objetivo de sua viagem: fechar o cerco que, há meses, os EUA iniciaram contra o Brasil, para forçá-lo a desnacionalizar a indústria de computadores (no governo Geisel, as multinacionais foram praticamente proibidas de fabricá-los no Brasil, com a adoção de uma política que reservou esse mercado para empresas brasileiras).

Também neste momento, estão sendo finalizados relatórios de grupos de trabalho de que participaram empresários norte-americanos e brasileiros (alguns, muito a contra-gosto) constituídos para “estudar” as relações Brasil-EUA, e os “obstáculos” a seu desenvolvimento tranqüilo. Em bom português: foram criados canais para defender a desnacionalização de outros setores da economia nacional, como bancos, firmas de consultoria, empreiteiras, serviços em geral, além de informática. Para que os grupos de trabalho? Se os empresários “propuserem”, a desnacionalização fica menos comprometedor, para determinados ministros, adotarem as medidas favoráveis aos interesses dos EUA (e de outros países desenvolvidos). O futuro do País está sendo leiloado. A “novela da dívida” impede que se enxergue a realidade.



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