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  São mesmo graves os problemas atuais da economia

Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 18 de abril de 1975


O ambiente de apreensão que começou a ganhar nitidez nas últimas semanas, nas áreas econômicas, pode ser visto como uma “reação retardada” a problemas surgidos meses atrás, e que poderiam ter sido enfrentados com medidas tomadas na época. Em meio ao vendaval de más notícias (queda nas vendas, declínio no ritmo de investimentos em alguns setores), passou a faltar clareza para avaliar com tranqüilidade o momento de transição vivido pela economia brasileira. Quando se faz essa avaliação, as perspectivas parecem menos sombrias (como levam a crer, por exemplo, as informações sobre a reação nas vendas do comércio do Rio de Janeiro, divulgadas anteontem pelo Clube de Diretores de Lojistas, insuspeito porquanto vinha revelando até alarme ante o movimento do comércio da Guanabara nos meses de janeiro, fevereiro e março, marcados por acentuadas quedas, em termos reais).

O SILÊNCIO TOTAL

Na análise dos atuais problemas da economia brasileira está-se deixando de lado uma série de dados, cuja influência sobre o quadro atual é decisiva. Dois deles estão estreitamente ligados: a super-estocagem de 1974, e os aumentos de produção resultantes dos grandes investimentos feitos sobretudo a partir de 1971, em conseqüência do “boom” econômico no Brasil e no mundo. Em relação à super-estocagem, desde fins do terceiro trimestre de 1974 que houve advertências deste jornal, no sentido de que ele seria o principal problema para a economia brasileira (e mundial) nos meses subseqüentes. Chegou-se a sugerir, mesmo, que as entidades de classe empresariais fizessem um levantamento da situação nos setores que lideram, para verificar o nível de estoques, e apurar a existência de eventual “super capacidade” de produção. Esta última recomendação focalizada: a previsível volta do mercado consumidor aos níveis “normais” de demanda. Explica-se: houve, em 1973, dentro do “excitamento” da economia, um “boom” também do crédito ao consumidor, concetivos, isto é, incapazes de liquidar seus débitos, registrados em 1974.

O CRESCIMENTO ARTIFICIAL

Estimulado pelo crédito, o consumo cresceu numa proporção superior ao próprio crescimento da renda de diversas faixas da população – através do caminho do “endividamento”. Suave momentaneamente, mas um beco sem saída a médio prazo.

Se a “super-estocagem” e a “super-capacidade” tivessem sido dimensionados pelas associações de classe ainda no último trimestre de 1974, teria sido possível “planejar” a crise deste ano. A produção, de acordo com o sistema que foi empregado pela indústria têxtil japonesa ou as multinacionais do alumínio, cobre e outros metais, poderia ser reduzida de maneira ordenada. Haveria, num exemplo, um corte hipotético de 10% na produção de um setor “rateado” entre as diversas empresas de acordo com sua capacidade produtiva, ou posição no mercado, ou investimentos a amortizar ou quaisquer outros critérios que poderiam ter sido discutidos na época. Nada disso se fez, e hoje, paga-se o preço da “super-capacidade” ou da “super-estocagem”. Que, estranhamente, estão totalmente esquecidas nas análises atuais do momento econômico brasileiro.

UM VÉU DE FUMAÇA

Outro dado ignorado: a economia brasileira encontrou seríssimos problemas de liquidez durante praticamente todo o ano de 1974, por causas que merecem uma análise posterior, à parte. Após a ligeira melhoria de novem-dezembro, o dinheiro voltou a escassear violentamente, para as atividades produtivas (mas não para a compra de títulos de renda fixa ou aplicações no “open market”). É pueril, ou estranhável, acreditar que a “iliquidez” da economia não provocaria uma queda no ritmo das atividades econômicas. Nenhuma empresa vai realizar gastos adiáveis se, pra cobri-los, vai ter que sujeitar-se a taxas de juros na casa dos 90% ao ano que, segundo fontes da indústria, chegaram a ser cobradas pelos bancos de investimentos no auge da “falta de dinheiro” (para as atividades produtivas).

Desde março, a liquidez melhorou substancialmente, e, no entanto, o mal-estar da classe empresarial começou a ficar mais nítido a partir do final desse mês, estendendo-se abril a dentro. Como explicar a contradição Ela é apenas aparente. Ainda uma vez, as análises vêm disseminando certo desânimo entre as empresas omitem um fenômeno largamente conhecido, em economia: não basta apertar um botão para que, do dia para a noite, tudo volte a funcionar em ritmo normal. Inicia-se reações setoriais, que vão-se propagando por todo o organismo econômico, e, num efeito multiplicador, levam à recuperação. Na área da liquidez, exatamente, há sempre um intervalo entre a injeção (ou contração) de recursos no sistema, e sua resposta.

A LONGO PRAZO

A experiência de 1973, porém, já demonstrou ser impossível ampliar o consumo meramente através do crédito: o endividamento do consumidor leva, numa etapa seguinte, ao estrangulamento das vendas. Diante desses dados, pode-se acreditar que, superada a atual fase de transição, caracterizada pelo baixo nível atividade industrial, a economia retome níveis menos frustradores. Persiste assim a necessidade de ampliar o mercado através do aumento da renda real de vastas faixas da população, isto é, da política “distributivista” a que se quer atribuir a atual situação. Isto não apenas para criar uma demanda que absorva a “super-capacidade” já instalada no país, mas para criar condições de investimento para as empresas. E de crescimento econômico, para o país.



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