Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 10 de fevereiro de 1982
Com freqüência cada vez maior, líderes empresariais vêm repetindo a critica básica que só os economistas costumavam fazer à política econômica no Brasil, a saber, a total falta de diretrizes até mesmo de médio prazo. Nessa visão, o governo vem "administrando a conjuntura", aumentando impostos quando surge um rombo no orçamento, reduzindo impostos quando um setor entra em crise, acelerando a correção cambial quando as exportações parecem precisar de um estimulo "extra", e assim sucessivamente.
O País avança aos pinotes e trambolhões, sem nenhum objetivo definido a longo prazo: vive-se de olhos postos nas taxas de inflação ou nos resultados mensais da balança comercial, na quebra da safra de arroz ou no aumento do consumo de gasolina. O País todo vive um dia-a-dia mesquinho, sem qualquer proposta definida por parte do governo em relação, por exemplo, a uma política industrial, ou de criação de tecnologia, ou de distribuição de renda, ou de utilização dos recursos naturais (Carajás).
Por mais controversa que seja, a política econômica adotada pelo governo Reagan, nos EUA, tem exatamente as características que faltam no Brasil. Ela pretende, de um lado, resolver os problemas conjunturais: inflação, retração econômica e desemprego. Mas nem por isso deixa de lado os problemas "estruturais" ao contrário: eles, no entender da equipe de Reagan, são a origem dos males conjunturais, e por isso precisam ser atacados.
Que problemas "estruturais" são esses? Num diagnóstico muito semelhante ao que Bulhões, Simonsen, Langoni traçam para a economia brasileira, também nos EUA "antes de Reagan" os compromissos do Estado vinham crescendo a um ritmo alucinante, provocando déficits do Tesouro enfrentados ou com aumentos de impostos, ou com emissão de dinheiro, ou com a venda de títulos do Tesouro (puxando, ao que se diz, as taxas de juros).
A conseqüência desse círculo vicioso seria a "estagflação", isto é, a estagnação com inflação, no campo interno — e a falta de poder competitivo das exportações norte-americanas, no mercado mundial. Com o Estado captando parcela crescente dos recursos nacionais — segundo os planejadores de Reagan, que brandem estatísticas para comprovar suas afirmações —, a conseqüente queda na renda real dos indivíduos e das empresas jogou os EUA para o último lugar, entre os países industrializados, em termos de taxas de formação de poupança. Essa descapitalização das empresas e dos cidadãos, numa nova etapa, provocou a queda nos investimentos e no consumo, concentrando a economia a freqüentes períodos de retração.
A estratégia econômica de Reagan, assim, previu cortes no Imposto de Renda tanto das pessoas físicas (183 bilhões de dólares em três anos) como das empresas — como forma de estimular a demanda ao nível do consumidor, e novos investimentos, por parte dos empresários, na tentativa de colocar a economia em marcha. A medida, porém, não foi tomada isoladamente, como ocorre no Brasil, isto é, não teve a característica de uma decisão conjuntural, um remédio para problemas de curto prazo: ela integrou todo um "pacote", quase uma mini-reforma fiscal, aprovada pelo Congresso em outubro último.
Assim, as empresas ganharam incentivos para se modernizarem, comprarem equipamentos, desenvolverem processos novos — como forma de aumentar a produtividade dentro da economia norte-americana e poder enfrentar adversário como o Japão, no mercado mundial (é bom lembrar que em 1981, os EUA tiverem um déficit de 40 bilhões de dólares na balança comercial e o Japão alcançou um superávit de 40 bilhões de dólares...).
Mas, em compensação, as empresas perderam uma série de incentivos e subsídios concedidos — como no Brasil — para áreas e atividades específicas, como, por exemplo, transporte de massas ou desenvolvimento de fontes alternativas de energia, e que sangravam desnecessariamente o Tesouro norte-americano.
A estratégia de Reagan, em resumo, não é combater os déficits do Tesouro mediante a simples elevação de impostos que, segundo seus planejadores, manteria o círculo vicioso, da inflação com estagnação, em que a economia norte-americana foi aprisionada. O objetivo é suprimir incentivos, subsídios, desperdícios, fraudes, de um lado. E, de outro (e fundamentalmente), obter um aumento na arrecadação somente na medida em que a economia — impulsionada pelo aumento da renda do consumidor e investimentos das empresas — se recupere, puxando ainda as taxas de desemprego para baixo.
Como saldo principal dessa política, haveria o abrandamento do papel que o Estado desempenha dentro da economia, com todas as suas conseqüências atuais.
São essas as intenções da estratégia de Reagan. Mas, na prática, elas não são desmentidas pelo déficit de 100 bilhões de dólares para 1982 previsto na mensagem que ele enviou recentemente ao Congresso?
E o orçamento para 1983 não é o maior de todos os tempos?
Dados isolados não significam absolutamente nada. Por ora, a administração Reagan está conseguindo implantar sua controversa estratégia: em 1980, lembra o presidente norte-americano, a taxa de expansão dos gastos governamentais alcançou o nível espetacular de 17,4% ao ano. "Agora, ela está declinando dramaticamente, para 10,4% este ano, e, de acordo com o novo orçamento enviado ao Congresso, para 4,5% no próximo ano." Em dinheiro vivo, os gastos previstos no orçamento cresceram 170 bilhões de dólares entre 1979 e 1981 e agora avançarão 100 bilhões de dólares, de 1981 a 1983, apesar da inflação do período.
Por ora, é muito cedo para avaliar o acerto ou erro da estratégia de Reagan. Mas ela é, pelo menos, clara e com objetivos definidos — o que certamente faz inveja aos empresários brasileiros.