Jornal Gazeta Mercantil , segunda-feira 29 de setembro de 1975
O edifício é oficial, isto é, de uma empresa do governo brasileiro. Em cada andar, máquinas que fazem maravilhas proporcionais aos seus dois metros de altura e suas cores luzentes. Os funcionários apertam um botão, as engrenagens põem-se em movimento. Ouve-se o ronronar de um motor, seguido do pleft de um corpo que cai logo após, suave chuvisqueiro, tão onomatopaico quando granizo em um telhado. Pausa. Logo mais, o silvo de um jato, algo que se enche de líquido, um estalo seco e, finalmente outro corpo cai. Está completada a operação. Os funcionários podem tomar um saboroso café expresso (com leite? sem açúcar? com açúcar ou com muito açúcar?), preparado na hora pela máquina que, ao apertar um botão, põe-se em movimento, derruba um copo de plástico em pequena plataforma, providencia um jato de açúcar em pequenos grãos, libera o café, e, finalmente, ejecta uma pequena haste para mexer a bebida – também em plástico.
Ao afirmar que “mercado interno não fecha balança de pagamentos”, isto é, não produz dólares, o Ministério da Fazenda voltou a desenvolver a tese de que, para manter a economia brasileira em crescimento, é preciso sustentar o ritmo da expansão das exportações e de ingresso de investimentos estrangeiros em sua economia. O Brasil, nesse raciocínio, está em uma etapa de seu processo de crescimento que exige uma série de importações “inevitáveis” como os produtos petroquímicos, papel e celulose, fertilizantes, metais não-ferrosos, e máquinas. As máquinas de vender ou servir café, seus copos e hastes de plásticos, espalhados até nas repartições oficiais, são mais uma demonstração de quanto este raciocínio é viciado na aceitação das distorções do processo brasileiro de crescimento econômico. Um vício que, repita-se, superdimensiona os problemas da balança de pagamentos do país, e, por extensão, supervaloriza a necessidade do investimento estrangeiro, provocando “brechas” na política de fortalecimento da empresa nacional.
SUBEMPREGO E SUPERCONSUMO
O consumo de alguns bens “modernos” tem crescido a taxas de 15 a 20% ao ano, no período recente. Esquadrias de alumínio para um país ainda rico em madeira, copos e embalagens de plástico, pratos de alumínio, guardanapos de papel, talheres em plástico, fibras sintéticas, cervejas e refrigerantes em latas de alumínio, são os luxos a que alguns segmentos da população estão se dando, em escala crescente. Um país marcado pelo subemprego e o desemprego (não só no Nordeste ou no Rio, não: o que são os “bóias frias” do interior do Estado mais rico da Nação, se não subempregados, ou desempregados em tempo parcial?) dá-se o luxo de consumir embalagens e recipientes “descartáveis”, usados apenas uma vez, para economizar... mão-de-obra. Luxo caro, feito com matérias-primas importadas. Ou que, mesmo de fabricadas no Brasil, exigem a importação de máquinas para sua produção. A ênfase que se dá aos problemas da balança de pagamentos, como um ponto de estrangulamento da economia brasileira no presente, decorre de um raciocínio superficial, que não busca a origem das coisas. O Brasil, repita-se, precisa “reprogramar” seu modelo de desenvolvimento, dando prioridade ao que é prioritário, e adiando o que é adiável (ou, mais ainda, o que representa autêntico desperdício, incompatível com as possibilidades de a economia nacional gerar divisas).
UM MOMENTO DIFÍCIL
Áreas empresariais acostumadas a altas taxas de expansão para seus setores, em anos recentes, encontram dificuldades, aliás compreensível, para aceitar a necessidade de diretrizes novas à economia – e à própria vida nacional. Ainda agora, as dificuldades da balança de pagamentos são invocadas como argumento a favor da duplicação do pólo petroquímico paulista, pretensão que, ao que tudo indica, continua de pé apesar da opção em favor do Rio Grande do Sul. Afirma-se que, se a produção paulista não for ampliada, o país terá a necessidade de importar o equivalente a 1,3 bilhão de dólares em matérias-primas petroquímicas entre 1978 e 1983, porque o pólo gaúcho demandará seis a sete anos para sua implantação (o governo afirma que prazo é de quatro a cinco anos). Defende-se, em outras palavras, o aprofundamento de uma série de distorções – das quais a principal é a excessiva concentração industrial, culpada pelo fenômeno da “deseconomia de escala” –, alegando a necessidade de poupar divisas. Essa “solução” aparente custaria caríssimo à coletividade brasileira, ao longo dos tempos. E ela revela, ainda, o confortável imobilismo de alguns círculos, que não questionaram a “necessidade” do país manter os padrões atuais de consumo que poderiam ser modificados através de forte carga fiscal sobre os bens causadores de desperdícios. A propósito: a indústria de construção declarava-se em violenta crise há mais que dois meses, falava em desemprego em massa e em “crise” para a economia. O “lobby” para a volta a antigas distorções não foi atendido. O nível geral de emprego está em alta, o nível de oferta de emprego está em alta, o nível de vendas está em alta há três meses. Sem a encampação das distorções.