Revista Visão , quinta-feira 9 de novembro de 1967
Bajular, não. Mas debater, sim. Em fins de julho, Governo e empresários pareciam entre-gar-se à maior lua-de-mel, com elogios de por-ta-vozes do Governo à "cooperação das empresas" e de porta-vozes das empresas ao "apoio do Governo à livre iniciativa". Já naquela época, advertia-se (VISÃO, 11-8-67, "A claque da claque") que a troca de confetes estava deixando encobertos problemas sérios que o Brasil viria a enfrentar nos próximos meses. Agora, que certas ameaças se acentuam, sobrevêm o pior: o silêncio de parte a parte. O Governo não põe na mesa os problemas que enfrenta. As classes empresariais assumem uma atitude de expectativa passiva. Admite-se até que a crise de negócios registrada no final de todos os anos — só quebrada pelas vendas de Natal — possa repetir-se em 1967. A causa maior da reativação da economia jaz esquecida. E como sempre ocorre quando falta a mística de uma causa maior, os interesses pequenos vão surgindo. Não desassombradamente. Mas nas entrelinhas de informações e declarações à imprensa.
Houve aumento no preço dos refrigerantes. Superior a 60%. As indústrias pegaram o lápis e somaram: mais 25% nos salários, mais 25% na eletricidade, mais 10% no custo das matérias-primas, total, 60%. Um abuso, constataram os técnicos do Governo. Mas não disseram de público tratar-se de abuso, por não haver instrumento legal que impeça uma indústria de elevar seus preços nesse montante (o Decreto 38, que controla preços, foi mal concebido e por isso é ineficiente). Tudo o que o Governo fêz foi distribuir um comunicado à Imprensa avisando que concluíra seus estudos a respeito do aumento e iria encaminhá-lo ao procurador-geral da República. Intenção provável: representar junto ao CADE, órgão que deveria reprimir abusos do poder económico no Brasil. Isso ficou nas entrelinhas apenas, o que é um mal. Para o público, a impressão que restou foi o aumento. E a impotência do Governo.
Os Entrechoques
O episódio demonstra ainda quanto está enfraquecendo a atitude de cooperação Governo-empresas. Não só o setor industrial envolvido dá mostras de incompreensão. A classe empresarial, como um todo, deveria ser a primeira a condenar tais desvios. Se apoia realmente a luta contra a inflação, seu silêncio não se justifica, mesmo porque, com o tempo, novos abusos levarão o Governo a intervir de modo indesejado na economia. E já se notam as escaramuças entre Governo e empresas. Na área do crédito, por exemplo, a taxa de juros das sociedades financeiras volta a subir e, segundo afirmações esparsas de industriais, em níveis mais intensos que os admitidos oficialmente. A ascensão das taxas significa também, maior remuneração aos investidores que já começam a fugir de outras aplicações. Extra-oficialmente, sabe-se que até mesmo a venda nas letras imobiliárias sofreu rude queda porque, com o declínio da alta do custo de vida, a correção monetária é cada vez menor. E o público se volta para as letras de câmbio, porque o Governo admite que tais papéis continuem com um nível de remuneração elevado, inadmissível ante o declínio do ritmo Inflacionário (se os salários não são reajustados com base nesse argumento, dentro da mesma realidade as taxas de juros deveriam declinar).
O novo ímpeto adquirido pelas letras de câmbio vai agravar terrivelmente as condições do mercado de capitais, encarecendo o dinheiro para as empresas. Estranhamente, as entidades da indústria e comércio não se manifestam a respeito: concentram seus ataques exclusivamente aos bancos oficiais, ou nos papéis vendidos pelo Governo. E os próprios agentes do mercado financeiro demonstram esse estado de confusão: após mais de um ano de debates, recusam-se a aceitar as recomendações do Governo para baratear seus custos operacionais. Ainda agora, o Banco Central observou que Copacabana tem mais agências bancárias que o Estado de Pernambuco. Mostrou que essa disseminação de agências, todas elas com diminuto movimento, resulta em prejuízos para os bancos, e, portanto, força juros mais altos. Pois os bancos se limitam a argumentar que continuarão abrindo agências enquanto o Banco do Brasil mantiver a mesma orientação, porque, do contrário, com a expansão do estabelecimento oficial, haverá também a estatização do crédito. Mas o Banco do Brasil está instalando serviços em localidades remotas, perdidas no interior — onde também os bancos privados teriam condições de operar lucrativamente. E é o que fariam se houvesse disposição real para racionalizar seus serviços.