Jornal Diário da Manhã , domingo 9 de outubro de 1994
O presidente eleito, Fernando Henrique Cardoso, concedeu sua primeira entrevista coletiva. Ampla, genérica – como não poderia deixar de ser, já que foi questionado sobre todos os aspectos da vida nacional. Mesmo assim, é possível arriscar uma resposta a uma grande pergunta, presente na cabeça de todos os brasileiros: FHC e sua equipe têm propostas para reestruturar o País, reorganizar a economia e reduzir a gravidade do problema social? A resposta é simples. O Governo FHC pode ser brilhante, se o presidente e sua equipe levarem a sério os diagnósticos que eles próprios fizeram, e adotar as medidas que esses diagnósticos recomendam. A análise dos principais pontos da entrevista do presidente eleito ajuda a entender bem a questão: o Governo FHC terá êxito se ele não fizer o contrário do que diz que deve ser feito. Se não houver um divórcio entre o discurso e a prática. Vamos aos pontos principais da entrevista.
PRIVATIZAÇÃO
Nos últimos anos, a campanha de desmoralização do Governo e das estatais serviu de pretexto para forçar a privatização a toque de caixa, abrindo caminho para decisões erradas – e negociatas. A “ladainha” entoada para manipular a opinião pública se concentrou em um ponto: a “ineficiência” do Estado e das estatais. Agora, o novo presidente diz textualmente, em sua entrevista, que o problema não é esse: “Há estatais ineficientes e estatais eficientes, como também há empresas privadas” nas mesmas condições. Palmas para o discurso do presidente. Afinal, a verdade, escondida tanto tempo da sociedade, reaparece. Mesmo assim, FHC defende a privatização. Por quê? Porque, diz ele, o País não tem recursos para realizar investimentos nos setores reservados às estatais: telecomunicações, petróleo, energia, transportes. O presidente FHC, com esse diagnóstico, comprova que tem havido manipulação da opinião pública. E, o que é extremamente importante, mostra que a sociedade tem o direito de reabrir o debate sobre a privatização, para que ela ocorra de forma ordenada. Há uma providência que o presidente eleito pode tomar, imediatamente – para haver coerência entre seu discurso e a prática. Ele deve pedir ao presidente Itamar Franco para suspender a venda de lotes de ações que o Governo tem em mais de 1.000 empresas. Por quê? Porque elas, somadas, valem 10 bilhões de dólares. E estão sendo vendidas por 800 milhões de dólares. Um absurdo. Sem que a sociedade dê um pio de protesto.
DINHEIRO
O presidente eleito disse que é preciso privatizar porque o Governo não tem recursos para investir. Aqui, o presidente FHC precisa chamar sua equipe e dar uma olhadinha nos resultados da arrecadação de impostos deste ano. Ainda agora em setembro, ela bateu recordes de novo, chegando a quase 6 bilhões de dólares, com um aumento gigantesco de 40% reais (descontada toda a inflação do período) sobre o ano passado. O presidente eleito tem aí uma comprovação de que a sua equipe do Ministério da Fazenda errou violentamente em suas previsões de receitas para este ano – como este colunista sempre procurou apontar. Na verdade, a arrecadação real confirma a hipótese de que as equipes de tecnocratas têm manipulado os dados de arrecadação e gastos, inventando “rombos” do Tesouro e falta de recursos. Está comprovado que não há falta de recursos. O que tem havido é conivência com a sonegação – e manipulação de dados. Conclusão: se o presidente diz que é preciso privatizar para obter recursos, e se a realidade mostra que esses recursos já existem, é preciso repensar a privatização (e liberar dinheiro para a Saúde).
ORÇAMENTO
No orçamento elaborado pela equipe FHC para 1995, há uma previsão de “rombo” de 10 bilhões de dólares. Diante do comportamento da arrecadação, já neste ano, o presidente eleito deve ordenar a revisão do orçamento.
PREVIDÊNCIA
Nos últimos meses, a campanha de desmoralização da máquina do Estado concentrou suas baterias contra a Previdência, distribuindo notícias quase diárias sobre fraudes (inclusive de um, dois anos atrás...). Por quê? Pra mostrar que a Previdência é ineficiente, “está quebrada”. Pra quê? Porque grupos privados querem vender planos de aposentadoria, querem “privatizar” a Previdência. Em sua entrevista, o presidente eleito diz que é preciso fazer novos cálculos para saber se o risco de quebra da Previdência existe mesmo. Palmas para FHC, se ele enfrentar mesmo o jogo de manipulação contra a Previdência.
BANCOS ESTADUAIS
O presidente eleito diz que os bancos estaduais com problemas vão ser obrigados a adotarem medidas austeras – e a evitarem os gigantescos “rombos” que alguns deles têm apresentado. Palmas para o presidente. Resta ver se o diagnóstico será respeitado. Afinal, quando assumiu o Ministério da Fazenda, há um ano e meio atrás, FHC criou imensa “onda” de que iria exigir que os Governos dos Estados “gastadores” se enquadrassem – porque esses Governos acabam sendo os grandes devedores dos bancos estaduais. Ficou tudo só no palavrório. Por quê? Porque esses governadores controlam grandes bancadas no Congresso – e o ministro FHC negociou com eles o apoio a seus projetos. E agora? Vai mudar?
A SOCIEDADE
No combate à fome e à miséria, o presidente eleito exaltou a necessidade de participação da sociedade, e afirmou que seu Governo vai utilizar intensamente programas comunitários, com a participação de todos, para evitar corrupção, desperdício, burocratização etc. Tomara que seja verdade. Mas para que isso aconteça, é preciso que os auxiliares do presidente, e alguns de seus possíveis ministros, tenham mudado, e mudado muito de opinião. Eles sempre abominaram ações comunitárias, que consideravam “populismo”. O presidente eleito sabe muito bem que, no começo dos anos 80, quando o PMDB ganhou as eleições para Governos estaduais, o governador Franco Montoro, de São Paulo, tinha exatamente essa proposta, de mobilização coletiva. O governador Montoro criou até uma Secretaria de Participação, e editou até um programa de governo com esse nome.
A Secretaria foi completamente esvaziada pelos economistas do PMDB, hoje “tucanos”, que ocupavam cargos de mando no Governo paulista. E o governador Montoro era constantemente ridicularizado pelas costas, alvo de piadinhas desses auxiliares, por causa de sua obsessão com os programas comunitários – sobretudo as “hortas caseiras”, destinadas a minorar a fome das famílias de subempregados e desempregados. Os sabotadores dos programas comunitários do governador Montoro agora vão ser assessores e ministros de FHC. Estarão mesmo com “outra cabeça”? Ou continuam a achar que “quem gosta de comunidade é hippie” – como costumavam debochar?
A IMPRENSA
O presidente eleito diz que vai precisar muito da contribuição da mídia, isto é, dos veículos de comunicação, para esclarecer a sociedade e levá-la a participar, com novas atitudes, da solução dos problemas. O processo de reeducação é necessário. Mas, para que ele ocorra, é preciso que o novo presidente e sua equipe ajudem a combater a mistificação, os dados falsos, os mitos disseminados no País nos últimos anos. Um bom começo é o próprio presidente e sua equipe começarem a restabelecer a verdade. E não falarem uma coisa e fazerem outra.
Bom Brasil para todos.