[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Em marcha para o suicídio econômico?

Jornal Gazeta Mercantil , segunda-feira 4 de novembro de 1974


O consumo de cacau está caindo no mundo, por causa dos altos preços. O consumo de têxteis, da mesma forma. Para a manteiga na Europa, para o aço ou os eletrodomésticos nos EUA, para as massas alimentícias ou a carne no Brasil, a tendência não é diferente. As taxas de desemprego crescem. O mundo caminha para uma recessão?

Inicialmente, dizia-se que o mundo marchava para uma recessão por causa da crise do petróleo e de seus reflexos sobre a balança comercial dos diversos países. Os governos, diante desses problemas, seriam forçados – afirmavam as análises – a adotar medidas protecionistas, que afetariam as exportações de outros países, que por sua vez reagiriam com represálias. De represália em represália, o mundo caminharia para uma “guerra comercial”, e, finalmente, para uma recessão.

O que está se vendo, no entanto, é bem diferente. Há queda nas vendas de todos os tipos de bens, não por causa de medidas restritivas dos governos, inclusive em relação às importações. A queda existe, mas porque os altos preços estão reduzindo o poder de compra do consumidor em todo o mundo, levando-o a comprar menos. É a inflação, em resumo, que está tumultuando a economia do mundo, podendo levá-la a uma situação de crise, se não for efetivamente combatida.

Segundo os dados oficiais, a inflação mundial já havia caído para 0,8% ao mês, em setembro, nos principais países industrializados. Mas os índices são sempre enganosos, no Brasil e no resto do mundo, já que são calculadas com bases em médias ponderadas de preços, com “pesos” maiores ou menores, para este ou aquele produto, estabelecidos de forma que tem muito a ver com o humor do economista que os manipula.

Assim, o declínio na inflação “medida” pelos índices se deveu, basicamente, ao recuo brutal dos preços de algumas matérias-primas, como os metais não-ferrosos. Mas os preços de outros produtos básicos, como o aço e fertilizantes, continuam a avançar. E, pior ainda: também os preços dos alimentos permaneceriam em alta. Como explicar esse avanço? Pressão da demanda? Aumento de custos da produção? Nem um, nem outro – salvo, raríssimas exceções, como o açúcar.

Já foram feitos cálculos para mostrar que o petróleo representaria apenas uma pequena parcela do custo dos transportes, que, por sua vez, representam apenas uma pequena parcela do custo de determinada mercadoria. Prova-se, assim, que a contribuição “direta” do preço do petróleo, para a inflação mundial, foi mínima (e, realmente, a “disparada” de outras matérias-primas, inclusive alimentares, em 1973, teve um efeito muito mais devastador que a chamada “crise de energia”).

O petróleo pode, efetivamente, ter tido pequeno peso na alta de preços, no terreno objetivo. No entanto, sua alta serviu para alimentar toda uma fanfarra (que, sintomaticamente, silenciou sobre as outras matérias-primas) em torno da “crise mundial” e da “inflação mundial”. No campo psicológico, abriu caminho para os profetas do caos e alimentadores do clima altista. Para o desejo de grandes lucros por parte de todos.

O mundo vive em pleno ambiente de “inflação do produtor”, ou, ainda, de “inflação do intermediário”, que tentam impor preços altos não porque estão enfrentando custos altos – mas porque “existe a inflação, não sabia?”.

Basta olhar em volta para verificar que, hoje, a inflação mundial tem muito menos a ver com custos altos ou procura excessiva, do que com a tentativa de auferir grandes lucros, que pode realmente ser suicida.

Nas últimas semanas, os balanços das grandes empresas multinacionais não apenas do setor petrolífero, mas também do siderúrgico e químico, revelam aumentos de vendas da ordem de 30% a 50% em valor, e aumentos nos lucros da ordem de 100% a 200%. Vale dizer: essas empresas estão pagando ou pagaram um pouco mais ao produtor, e estão cobrando muito mais ao consumidor, aumentado sua margem de lucros, alimentando a inflação.

No Brasil, para usar um exemplo entre muitos, os pescadores do Rio pararam seus barcos, porque: a) há 20 milhões de latas de sardinha estocadas, porque o consumo caiu por causa dos preços altos; b) as indústrias estavam pagando apenas Cr$ 0,22 o quilo pelo peixe comprado aos pescadores; c) a lata de sardinha, de 200 gramas, está a Cr$ 2,00, o equivalente a Cr$ 10,00 o quilo – isto é, cinqüenta vezes, praticamente, os Cr$ 0,22 pagos ao pescador.

O mundo pode caminhar para uma crise econômica, não pelos sofisticados motivos que figuram nas análises técnicas. Mas porque mergulhou em um clima altista, alimentador da especulação e desestimulador do consumo e da produção.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil