Jornal Correio da Manhã , segunda-feira 21 de junho de 1971
Mais um? Há mais um argumento, sim, para demonstrar que, a esta altura, o mercado brasileiro de ações já não está tão sujeito – como em 1969 – a quedas bruscas, saídas do nada, resultado de mero temor ante uma alta de cotações que a alguns parecia exagerada. Os argumentos já levantados nas últimas semanas vão se tornando cansativos: a expansão das empresas, os bons resultados de balanços, os gordos rendimentos, tudo, somado, demonstra que havia, este ano, base real para as altas – o que aconteceu muito poucas vezes, na “corrida” de 1969.
Qual o argumento a demonstrar a menor vulnerabilidade do mercado? A massa de recursos dos Fundos de Investimentos, suficiente para neutralizar eventuais vendas maciças de investidores eventualmente alarmados. Lógico que, para tanto, para assumirem esse papel de sustentadores do mercado, os Fundos precisarão estar convencidos, a esta altura, de que – tiradas as exceções – as estrepolias nas cotações não haviam chegado a ponto insuportável. E aí, fecha-se o círculo: se, ao menos para as empresas com ações cotadas em Bolsa os negócios vão muito bem, nada justifica um súbito “arrependimento” e conseqüente recuo nas cotações.
Mas o mercado já não reagiu? Bem, o mercado encarou com otimismo o acontecido na sexta-feira, quando as cotações entraram em alta, no final dos trabalhos das Bolsas do Rio e de São Paulo. A esta altura, porém, o “encanto” da Bolsa-que-não-cai nunca está desfeito. Sua ausência deixou marcas, certamente – acentuadas, ainda pelas próprias medidas disciplinadoras do mercado. E a desejada “recuperação” será uma nova etapa na vida da Bolsa – não, mero prolongamento do processo anterior.
Psicologia, um pouco
O que determinou o declínio do mercado? Subitamente, começou a haver a sensação, generalizada, de que os grandes ganhos não poderiam continuar. Essa sensação pode levar, também, o nome de “medo”, temor de ver, evaporados, os lucros conseguidos de maneira também tão impalpável (a compra de um papel, em um dia, a ordem de venda daí a três dias, sem sequer ter visto a cor de sua cautela. Entregue à guarda do corretor).
Se ainda havia quem vendesse carros ou hipotecasse imóveis para entrar no mercado, já havia também que começasse – após grandes lucros – a “pensar” na possibilidade de compra de um sitiozinho, no atendimento daquela velha vontade da mulher, de ter seu próprio carro, ou mesmo de contribuir com a compra de um apartamento, para ajudar a reerguer o a-esta-altura-combalido mercado de imóveis. A disposição de converter em “coisas concretas” os lucros “etéreos” da Bolsa já existia antes do reajuste na cabeça de muito investidor. Disposição que muitos passaram a concretizar assim que a indefinição começou a caracterizar o mercado. E muitas das altas alucinadas dos dias que precederam o ajuste podem ser encaradas como uma espécie de “tudo ou nada” de quem se preparava para dizer adeus, ou retirar uma parte de seu dinheiro do mercado.
Objetivamente, também
Contradição? Então o mercado realmente está sofrendo esvaziamento? Não. Os dados que os Fundos divulgam oficiosamente sobre novos cotistas, e mesmo a vivência diária, mostram que há novos investidores procurando o mercado: eles estão substituindo outros que, no linguajar tradicional, já “realizaram” grandes lucros, ou que, mais simplesmente, resolveram que o que já ganharam é o suficiente.
Onde há um “esvaziamento” do mercado, porém saudável, é na contenção trazida pelas medidas saneadoras das Bolsas. A eliminação das operações a descoberto suprimiu a “fabricação” de dinheiro, a venda e revenda de ações inexistentes. A regulamentação das operações a termo teve um efeito imediato (talvez superior às previsões): apesar do aumento do “depósito” em dinheiro a ser feito pelos interessados nessas compras “a prazo” ter tido aumento na verdade pouco importante, as transações caíram a um nível mínimo. Por quê? Provavelmente, porque também a liquidação dessas operações passou a ser fiscalizada, não se tolerando irregularidades. Segundo, é inútil ignorar, porque o próprio comportamento do mercado não favorece compras a prazo mais longo.
Quem se candidata
Por ora, há um empate. A compreensão, por parte do investidor, de que a Bolsa é sujeita a oscilações vai determinar, porém, o desfecho do turno. Se ele acreditar que vale a pena esperar, que é ótimo ganhar a prazo curtíssimo, mas também é bom ganhar a prazo médio, tudo estará bem.
No curto prazo, altas vertiginosas são improváveis – e indesejáveis. Com sua volta, retornaria também o “medo” – e com ele, recursos como os das últimas semanas. Além de todos os fatores recentes a atuarem no sentido de uma moderação maior, é preciso levar em conta, também, a verdadeira arrancada que está havendo, no momento, para o lançamento de papéis novos, anunciados numa média de dois a três por dia, quando considerados os mercados também de outros Estados. Além do interesse das empresas, que já vinha num crescendo, o próprio Banco Central, há muito tempo assistindo à distância ao galopar do mercado, atirou-se agora de corpo e alma ao aceleramento do registro de empresas para permitir a negociação de suas ações em Bolsas. Com a nova orientação – fala-se em registrar, rapidamente, de 300 a 400 empresas – é possível que o mercado não mais precise concentrar-se em uns poucos papéis, permitindo, se não uma estabilização de cotações, avanços menos acentuados e melhor distribuídos.
A curto prazo, isso pode parecer menos atraente ao investidor, principalmente aquele que entrou nas últimas semanas no mercado. Mas, a médio prazo, o crescimento do número de empresas é uma garantia contra excessos – e contra o medo.
Se o reajuste prosseguir? Atenção a papéis que vão-se tornando, de repente, “baratos” – que estarão com eles as melhores oportunidades de avanços, passado o clima atual. Que certamente passará.