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  Preços dos alimentos recua

Jornal Diário da Manhã , domingo 9 de outubro de 1983


Começou a queda dos preços dos principais produtos alimentícios básico: arroz, feijão, batata, soja (e óleo e farelo), carne e milho (e derivados). A nova tendência “baixista”, após a disparada dos últimos meses, pode ser acelerada, daqui para frente, com a colaboração do consumidor – e a firme ação do governo.

O declínio nos preços se deve a uma série de fatores: entrada ou aproximação de novas safras; recuo nas cotações internacionais e, principalmente, medidas adotadas pelo governo para conter a especulação e forçar a “desova” de estoques. Para que a baixa seja ainda mais rápida daqui para frente, é preciso que o governo resista às pressões que já vem sofrendo para “afrouxar” o combate à carestia – e decida-se, mesmo, a tomar providências ainda mais rigorosas, em relação a alguns produtos.

Da parte do consumidor, ele pode acelerar a tendência baixista mediante radical mudança em seu comportamento. Até recentemente, compensava formar estoques de alimentos, em casa, para “lucrar” com as compras antecipadas, isto é, antes que os preços subissem. Agora, com o declínio dos preços em marcha, o consumidor e suas famílias devem fazer exatamente o contrário: reduzir suas compras ao mínimo necessário (isto é, para o consumo imediato), substituindo até as comprar mensais por compras quinzenais ou mesmo semanais, além de consumir, primeiramente, os eventuais estoques que tenha formado em casa. Por quê? Como a retração do consumidor, os grupos detentores de estoques especulativos serão atingidos pelas quedas nas vendas e se apressarão em reduzir preços, com medo do “encalhe” dos estoques.

RETRATO DA QUEDA

Produto por produto, eis a análise dos novos fatores que permitirão uma queda de preços daqui para frente, e as medidas que o governo ainda poderia adotar para combater a especulação:

- Feijão – sofreu nova disparada no mês de setembro, com a saca do tipo “mulatinho” (como exemplo) cotado a Cr$ 40.000,00, no último dia 30, no atacado de São Paulo. Nesta última semana, o mercado já ficou “frouxo”, segundo o Ministério da Agricultura, com o aumento da oferta devido à “desova” de estoques e início da colheita em algumas regiões do Paraná, onde o plantio foi antecipado. Seu preço caiu para Cr$ 39,0 mil na segunda-feira e fechou a Cr$ 38,0 mil na última sexta-feira. Governo: deve iniciar a venda do feijão dos estoques da CFP diretamente à população da baixa renda da periferia, ao mesmo preço que o produto está sendo entregue aos supermercados: Cr$ 12.000,00 a saca, ou Cr$ 200,00 o quilo. Se o feijão da CFP (safra 81/82) não for vendido agora, acabará virando adubo daqui a alguns meses, pois não terá mercado.

- Batata – Após atingir Cr$25.000,00 a 9 de setembro, a saca de 60 kg do produto de melhor qualidade (lisa especial) passou a Cr$ 19.500,00 no atacado, no último dia 30, e caiu para Cr$ 18.000,00 nesta sexta-feira, ou Cr$ 300,00 o quilo. Um recuo, portanto, de quase 30%. Já esta semana, o consumidor deve pagar preços substancialmente mais baixos, no varejo.

- Soja – A saca de 60 Kg declinou de Cr$ 17.000,00 para Cr$ 16.500,00, na última semana. Mais importante: a especulação com o produto (e seus derivados) era sustentada por “puxadas” no chamado “mercado a futuro” da Bolsa de Mercadorias de São Paulo, onde são fechados contratos para os próximos meses e mesmo para 1984: os especuladores faziam negócios a preços elevadíssimos para o futuro, dando a impressão de que o produto continuaria a subir e manobrando, assim, para que eles fossem aumentados também nas vendas atuais. Nessa bolsa, a 9 de setembro, a saca de soja chegou a ser cotada, para novembro, a Cr$ 26.190,00; no dia 30 último, essa cotação futura havia caído para Cr$ 21.360,00 e, na última semana, houve novo recuo, para Cr$ 19.700,00 – uma prova de que o governo está absolutamente certo, no caminho escolhido para conter a especulação com a soja e derivados. Mercado Mundial: em Chicago, a soja continua em declínio, agora para US$ 8,45 por bushel (cerca de 27 Kg), ou Cr$ 236,00 o quilo, isto é Cr$ 14.160,00 a saca, contra o preço interno de Cr$ 16.500,00 (ainda há possibilidade de queda maior, portanto).

- Óleo de Soja – Novo declínio na Bolsa de Chicago, agora para 34,9 cents por libra-peso, equivalendo a Cr$ 504,50 o quilo. No mercado interno, o óleo bruto também declinou, de Cr$ 825,00 para Cr$ 805,00 o quilo.

- Farelo de Soja (ração para aves e bovinos) – Saltou para Cr$ 235,00 o quilo, no mercado interno, a 9 de setembro, permanecendo firme nesse nível até a última sexta-feira, quando acusou o primeiro declínio, para Cr$ 230,00. Em Chicago está cotado a Cr$ 195,00 o quilo.

- Milho – Continua a cair em Chicago onde teve uma cotação equivalente a Cr$ 104,00 na última sexta-feira, ou Cr$ 6.240,00 a saca de 60 quilos. No mercado interno, o preço continua na casa dos Cr$ 10.000,00, embora já não se registrem negócios a preços acima desse nível, como ocorreu em semanas anteriores. Começou a chegar o produto importado da Argentina, a um preço equivalente a Cr$ 8.800,00 a saca, já computados fretes e outras despesas. Governo – só as importações não estão parecendo suficientes para forçar os especuladores a “desovar” estoques. Deveriam ser estendidas ao setor as medidas adotadas em relação à soja: levantamento de estoques e cortes no crédito.

- Arroz – preços estáveis com a venda dos estoques da CFP e chegada do produto importado. Estude-se a venda ao consumidor ao preço máximo de Cr$ 440,00 o quilo, para o produto de melhor qualidade.

- Carne – houve recuos de preços nas semanas terminadas em 23 e 30 de setembro (v. tabela). Na última semana, os preços permaneceram estáveis no atacado, mas já se notam redução de preços no varejo. Governo: deveria acelerar a distribuição da carne congelada, já que a nova safra está chegando. E incumbir a Cobal de realizar as importações previstas para o produto, já que os frigoríficos tendem a sabotar essa operação, como o fizeram em 82.



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