Manchete da terça-feira pós-Dia dos Pais deste mês de agosto de 1997: “Comércio tem o melhor Dia dos Pais em três anos”. Logo abaixo da manchete, em destaque, no chamado "olho": “Consultas ao Telecheque crescem 27,3%, e ao SPC, 12,2% em relação a 1996”.
Qual a realidade? As vendas do comércio caíram 20%. Como explicar a manchete? E o “olho”? Vale a pena dissecar o exemplo, neste momento em que se debatem as distorções do jornalismo brasileiro. Ele permitirá entender perfeitamente as técnicas de manipulação da opinião pública que vêm sendo utilizadas no país.
* Primeira técnica: escolher uma informação otimista, mesmo que ela não sirva para esclarecer coisa alguma. No caso – e como a imprensa vem fazendo há três anos –, escolheu-se o número de consultas ao Telecheque e ao SPC para fingir que eles retratam aumento nas vendas.
Ora, todos os jornalistas sabem que esses dois indicadores não “medem” nada, ou melhor, não podem ser comparados com anos anteriores. Por dois motivos: desde o estouro da inadimplência, em abril de 95, na chamada ressaca do Real, um número cada vez maior de lojistas, de todos os portes, passou a consultar esses dois serviços para identificar maus pagadores e evitar o “calote” futuro. Segundo: o barateamento da informática e a conseqüente instalação de aparelhinhos ligados ao Telecheque até em biroscas da periferia. O número de consultas forçosamente teria de crescer de um ano para ouro.
* Segunda técnica: esconder no meio do texto, ou mesmo nas últimas linhas, os dados pessimistas. No mesmo exemplo do Dia dos Pais, escondidinho, escondidinho, a reportagem informava: “Em relação a junho, as consultas ao SPC caíram 0,6% e ao Telecheque, 7,9%”.
Veja-se bem: julho é mês de férias, tradicionalmente fraco em vendas na capital; agosto foi marcado, desde os primeiros dias, por liquidações de inverno (devido à “falta de frio”), e havia o próprio Dia dos Pais. Ainda assim, as consultas ao SPC e ao Telecheque, de um mês para outro, caíram... Mas o noticiário escolheu para manchete os dados comparativos com 1996. Róseos.
* Segunda técnica, ainda: a mesma de esconder no meio do texto os dados pessimistas, isto é, a verdade. Diz a reportagem, escondidinho, escondidinho: “Já um levantamento preliminar da Federação do Comércio realizado junto aos grandes magazines mostra que houve queda de 15% a 20% nas vendas do Dia dos Pais, comparativamente à mesma data de 1996”.
Pasme-se: apesar de dispor dessa informação, que retratava o real comportamento – péssimo – das vendas, o noticiário não hesitou em forjar a manchete: “Comércio tem o melhor Dia dos Pais em três anos”.
Debates teóricos empolados sobre distorções e deficiências do jornalismo econômico não servem aos interesses do leitor nem ao país. São mera cortina de fumaça para fugir do problema real, concreto: há, hoje, incrível manipulação da informação, verdadeira lavagem cerebral da sociedade.
O exemplo escolhido mostra como se encobre a real situação da economia. Mas tem havido a mesma manipulação em torno de todos os grandes temas sobre os quais a sociedade precisaria estar corretamente informada: destruição da indústria, privatização, reformas, situação do funcionalismo público, sistema financeiro etc. Infelizmente, não cabe analisá-las todas neste espaço.
Afirma-se, freqüentemente, que um dos principais problemas do jornalismo, e principalmente do jornalismo econômico, seria a “falta de formação”, ou a “falta de conhecimentos técnicos”, principalmente dos repórteres e jornalistas jovens. Outra inverdade, outra tentativa de fugir ao ponto central da questão.
O exemplo do Dia dos Pais mostra que não há desconhecimento “técnico” e sim, ao contrário, a intenção deliberada de esconder a verdade. Ironicamente, é essa manipulação que exige dos jornalistas, sim, conhecimento das técnicas de comunicação para impor a mentira sem que o leitor/telespectador perceba que está sendo enganado. Jornalismo é ética. Há quem ainda saiba o que isso significa. Entre eles, e sobretudo, os jovens jornalistas.